Sou o senhor de meu destino; Sou o capitão de minha alma.” William Ernest Henley

sexta-feira, 30 de março de 2007

As obras da ponte e a Ilha da Morraceira



Este texto, assinado por Aníbal Rodrigues, foi publicado no Público, no dia 8 de Agosto de 2004.

“Com a ponta dos pés esticada, como no ballet, os "exploradores" da Ilha da Morraceira, na Figueira da Foz, avançavam, cautelosos, munidos de botas de água com prolongamento até ao peito. Caminhar normalmente, assentando primeiro o calcanhar, era de todo desaconselhável por se correr o risco de ficar com o pé preso e consequentemente ir afundando na lama. Foi o que aconteceu a uma participante, que logo desistiu da experiência, depois de ter sido ajudada a sair. Passada a zona da lama, o grupo entrou na água, um terreno mais firme, por entre tainhas saltitantes que tentavam ver quem chegava. Eram afinal os 15 participantes, acompanhados de cinco elementos da organização, na iniciativa Biologia no Verão, criada pelo programa Ciência Viva há quatro anos e apoiada pelas universidades de Coimbra e do Porto. Quem estiver interessado em conhecer "Os organismos dos estuários - das algas às aves" dispõe de outra oportunidade em tudo semelhante à que decorreu ontem, no próximo dia 4 de Setembro, pelas 9h30 e no mesmo local, a Ilha da Morraceira. Desde 1993 que, mensalmente, o Instituto do Mar da Universidade de Coimbra faz recolhas de macro-invertebrados no braço sul da Morraçeira. Nessa época, conforme contou o investigador e coordenador da visita, Ricardo Lopes, existia uma grande quantidade de algas, que provocavam a atrofia da vida que está por baixo. O grande desenvolvimento das algas devia-se à abundância de nutrientes que então corria naquelas águas, provenientes de actividades poluentes como é o caso da aquicultura, orizicultura e, em menor escala, das salinas. Como, no braço sul, a maior parte do nutrientes provém do Rio Pranto, foi necessário sensibilizar os produtores desta zona para não fazerem descargas, o que tem vindo a dar resultados. Hoje, aves como os flamingos ou as gaivotas (também elas motivo desta visita), para além dos peixes, encontram alimento nas colónias de macro-invertebrados. Numa área que serve de "berçário" a vários peixes, os cientistas sabem também que a poluição contribuiu para que, desde há uma década, se perdessem pelo menos dez espécies de peixes, entre elas o cavalo-marinho. É possível que a situação nesta altura já esteja a melhorar, mas, por enquanto, não é possível confirmá-lo cientificamente. Sabe-se, contudo, que comunidades de espécies como robalos, linguados e solhas estão a ter um "bom" crescimento. Entre outros aspectos, a incursão do grupo na água serviu para conhecer algumas algas e para ver como procedem os biólogos. Já na margem, enterra-se na lama um tubo de plástico até cerca de 20 centímetros de profundidade, inclina-se, roda-se um pouco e depois deposita-se o cilindro de lama que fica no seu interior dentro de uma rede muito fina. Passada por água, a lama vai saindo, ficando essencialmente pequenos crustáceos (amêijoas, caranguejos...) e vários tipos de minhocas. Ontem, estes exemplares não foram para o laboratório do Instituto do Mar, como é costume, mas foram observados no local ao microscópio, actividade que interessou especialmente os mais novos. "Isto também é bom para a formação dos miúdos", comentava a propósito Jean Louis Arnaud, professor de História em Grenoble (França), a passar dez dias de férias na Figueira da Foz. Participou no evento com a mulher e os dois filhos, um rapaz e uma rapariga, a convite de uma compatriota que lecciona francês na Figueira. No final, estava visivelmente satisfeito. "Tem uma componente muito lúdica, ver no microscópio, cair na lama..." Um pouco mais a sério: "É muito interessante conhecer o plano científico. Além disso, os estudantes [elementos da organização] são competentes, sorridentes, simpáticos e disponíveis."

Da leitura deste texto, resultam algumas interrogações, que aqui deixamos para análise de quem de direito:
1 - Neste momento, com o impacto ambiental resultante das obras da Ponte dos Arcos. alguém está a acompanhar cientificamente o estuário do braço sul do Mondego?
2 -Foi realizado algum estudo, que permita atenuar os inconvenientes do estrangulamento do rio na zona das obras em curso?
3 - Como será o braço sul do Mondego no futuro?

4 - O Vereador do Pelouro do Ambiente, pessoa conhecedora da Morraceira e do estuário do braço sul do Mondego, não tem nada para dizer sobre este assunto?

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