A LITURGIA DA OBEDIÊNCIA
Há momentos em que o silêncio pesa menos do que o aplauso. E o que se viu na Assembleia da República foi precisamente isso: o peso insuportável da submissão travestida de virtude.
O presidente do parlamento ucraniano foi recebido de pé, ovacionado como herói, símbolo de uma causa que nos é vendida como sagrada, intocável, moralmente pura. E eu pergunto: herói de quê? De que memória? De que verdade?
Perdoem-me, mas eu não aplaudo.
Vergonha de ver quase todo o espectro político português alinhado numa coreografia servil, incapaz de questionar, incapaz de pensar para além do guião imposto por Bruxelas, Washington e pela máquina mediática ocidental.
E ironicamente, no meio desta cegueira colectiva, foi o Partido Comunista Português — partido cuja visão ideológica rejeito frontalmente — o único a manter-se sentado. O único a recusar participar nesta liturgia da propaganda.
Quando um partido que sempre combati politicamente demonstra mais independência de pensamento do que quase toda a restante classe política, algo está profundamente errado.
Vivemos numa época em que a ignorância já não é acidente: é método.
Repetir slogans substituiu pensar.
E qualquer tentativa de contextualizar o conflito ucraniano é imediatamente catalogada como traição, heresia ou cumplicidade.
Fala-se de democracia, mas cala-se a complexidade.
Fala-se de liberdade, mas censura-se o contraditório.
Fala-se de paz, enquanto se financia guerra.
E o mais grotesco é assistir a tantos, embriagados por propaganda, a chamar “comunista” à Rússia actual, revelando um analfabetismo político quase ofensivo.
Porque foram treinados para reagir, não para compreender.
A propaganda moderna não inventa necessariamente mentiras.
Fabrica moralidade conveniente.
É uma técnica antiga, apenas equipada com ferramentas novas.
E enquanto esta encenação se desenrola, Portugal afunda-se.
Serviço Nacional de Saúde em rutura.
Mas há sempre dinheiro para guerras externas.
Há sempre urgência para conflitos alheios.
Há sempre entusiasmo para causas importadas.
Chamam solidariedade ao envio de milhares de milhões para alimentar um conflito sem fim, mas esquecem-se da solidariedade básica para com o próprio povo.
Perdoem-me, mas eu não consigo alinhar nesta encenação colectiva.
Não aplaudo porque pensar ainda não é crime.
Não aplaudo porque a consciência pesa mais do que a conveniência.
Não aplaudo porque a dignidade começa precisamente onde termina a obediência cega.
E hoje, olhando para aquele hemiciclo de pé, não vi coragem.
Mas esta crise não é apenas moral.
E é precisamente aqui que se revela outra tragédia nacional: Portugal não tem equivalente à Vox, não tem uma figura como Matteo Salvini, não tem uma força como a Alternative für Deutschland, nem sequer uma tradição de pensamento estratégico e soberano como a de Charles de Gaulle.
Não existe em Portugal uma direita conservadora sólida.
Intelectualmente preparada.
Culturalmente consciente.
Existe apenas um agrupamento político em torno de um líder, tratado por muitos como grande esperança nacional, mas que, olhando friamente, continua mais próximo de um movimento de contestação do que de um verdadeiro partido.
Porque um partido exige doutrina.
E o que ali vejo é uma contradição permanente: à direita nos costumes, à esquerda na economia.
Uma fórmula politicamente explosiva.
Intelectualmente inconsistente.
Na prática, estatismo económico revestido de retórica identitária.
E isso não é direita estruturada.
Na geopolítica, a confusão é ainda mais evidente.
Prefere-se ouvir activistas e comentadores como Irineu Teixeira, alinhados com narrativas emocionais, em detrimento de análises estratégicas e militares de homens como Agostinho Costa, cuja leitura do conflito — concorde-se ou não — revelou, ao longo destes últimos anos, uma consistência que muitos dos seus opositores nunca conseguiram acompanhar.
Porque uma direita séria escolhe análise sobre agitação.
Escolhe estratégia sobre histeria.
Escolhe realidade sobre propaganda.
Quanto ao líder desse agrupamento, reconheço-lhe uma utilidade política inegável.
Na oposição, muitas vezes acerta no diagnóstico.
Em muito do que denuncia, concordo.
Mas a política mede-se no poder, não no protesto.
E é precisamente aí que nasce a minha desconfiança.
Porque demasiadas vezes vi, dentro desse mesmo espaço político, a distância brutal entre o discurso e a prática.
E quem conhece por dentro aprende depressa uma verdade simples: há quem combata o sistema apenas até ter oportunidade de o administrar.
Portugal não precisa de salvadores.
Precisa de uma direita consciente.
E isso continua, infelizmente, por nascer.
E há algo que precisa de ser dito com clareza: não culpem a direita pela queda da Europa.
A direita soberanista e conservadora não governa a Europa.
Não controla a União Europeia.
Não define o rumo da Comissão Europeia.
Não molda o pensamento dominante em Bruxelas.
A responsabilidade pelo estado actual da Europa pertence a quem a governa há décadas.
Aos arquitectos deste modelo.
Aos sacerdotes deste dogma.
Aos administradores deste declínio.
E o mais trágico é que muitos ainda não perceberam que a Europa — leia-se, a União Europeia — entrou numa trajectória de isolamento estratégico, declínio económico e irrelevância geopolítica.
continuam a tocar música e a dançar, mesmo com a água já pelos pés.
E esse paralelismo é brutalmente exacto.
Porque, no início deste século, muitos acreditaram que o mundo caminhava para a consolidação definitiva de uma ordem unipolar, assente na hegemonia absoluta dos Estados Unidos e na expansão do seu modelo político, económico e militar.
Parecia o encerramento da História.
Um modelo universal imposto como inevitável.
Mas a História raramente respeita guiões.
A Rússia travou esse avanço estratégico.
A China venceu no campo onde verdadeiramente se decide o poder duradouro: economia, indústria, tecnologia e planeamento estratégico.
A Índia emergiu como potência civilizacional e económica.
E o chamado Sul Global despertou para uma realidade simples:
o mundo não precisa de um único centro de gravidade.
Hoje estamos a viver as dores de parto dessa transformação histórica.
A passagem de um mundo unipolar para um mundo multipolar.
O fim progressivo da hegemonia absoluta norte-americana.
E é precisamente aqui que a União Europeia revela toda a sua fragilidade estratégica.
Sem autonomia política real.
Sem independência energética.
Sem soberania militar efectiva.
Bruxelas continua presa a uma lógica atlântica que já não corresponde à realidade emergente do século XXI.
Aposta num paradigma em desgaste, enquanto o centro de gravidade mundial se desloca para Oriente e para Sul.
Enquanto insistimos em discursos moralistas, superioridade civilizacional e arrogância burocrática, outros avançam.
E continua a olhar para o mundo com a arrogância colonial expressa por Josep Borrell, quando afirmou que “a Europa é um jardim e o resto do mundo é selva”.
Essa frase não foi apenas infeliz.
Reveladora de uma mentalidade que ainda não percebeu que o mundo mudou.
Mudou a ordem internacional.
Com estagnação económica.
Com perda de competitividade.
E, no entanto, grande parte dos media prefere maquilhar as consequências, anestesiar a opinião pública e proteger a narrativa dominante.
Porque admitir o erro seria reconhecer que a Europa entrou numa guerra económica, estratégica e civilizacional para a qual não estava preparada.
por escolhas que nem sequer servem necessariamente os interesses dos povos europeus.
Este sonambulismo estratégico, esta cegueira voluntária, esta embriaguez ideológica, vai sair-nos caro.
Porque a História não espera por civilizações adormecidas.
E quem insiste em dormir enquanto o mundo muda, acaba inevitavelmente por acordar derrotado.