domingo, 10 de maio de 2026

Da série, é preciso ter lata e "perfeição"...

"A saúde deve ser avaliada e discutida de uma forma séria. Defendendo sempre a aproximação dos cuidados a quem mais precisa de uma forma digna e equitativa."

«Até Fevereiro, com mais médicos, mais enfermeiros e mais trabalho extraordinário, SNS reduziu a resposta assistencial. “É decepcionante”, lamenta o presidente dos administradores hospitalares.»

"Esta mulher atingiu a perfeição… mas das duas, uma:
1. A forma perfeita de se desligar da realidade.
2. A forma (mais que) perfeita de mentir sem qualquer filtro ou sentido de vergonha."

Preço...

Via Correio da Manhã

"Álvaro Santos Pereira, Governador, comprou um carro com um empréstimo do Banco de Portugal (BdP) à taxa de juro de 1,4%, igual à concedida a todos os trabalhadores do BdP."

Como diria o Tiago Oliveira, quantos pastéis de nata Portugal tem que vender para comprar um BMW à Alemanha?..

sábado, 9 de maio de 2026

NA DEMOCRACIA NÃO HÁ VÍTIMAS, HÁ CÚMPLICES

Há uma mentira confortável que muitos repetem a si próprios:
Eu não tenho culpa.”
Tem.
Na democracia, todos têm.
E essa é talvez a verdade mais incómoda do regime democrático: a liberdade não vem sozinha. Vem sempre acompanhada de responsabilidade.
Na ditadura, o povo pode verdadeiramente ser vítima.
Na democracia, não.
Na democracia, o povo escolhe.
E quem escolhe, responde.
Quem participa, influencia.
Quem se abstém, permite.
Quem se cala, consente.
Por isso, numa democracia, não há vítimas.
Há cúmplices.
Uns por acção.
Outros por omissão.
Mas cúmplices na mesma.
Porque democracia não é apenas um direito.
É um dever.
E quem não compreende isto não compreende democracia.
Numa democracia existem, politicamente, quatro tipos de cidadãos.
A primeira categoria é a dos que votam em quem vence.
Esses são responsáveis directos pelo rumo do seu concelho, da sua cidade ou do seu país.
Escolheram.
Legitimaram.
Entregaram poder.
Se corre bem, partilham o mérito.
Se corre mal, partilham a culpa.
Não podem, depois, lavar as mãos.
Quem escolhe governantes escolhe destinos.
E quem escolhe destinos é responsável por eles.
A segunda categoria é a dos que votam em quem perde.
Esses fizeram o seu dever.
Participaram.
Exerceram soberania.
Cumpriram.
Podem não ter vencido eleitoralmente, mas honraram a democracia.
Porque democracia não é ganhar.
É participar.
A derrota eleitoral nunca é derrota cívica.
Pelo contrário.
É prova de vida democrática.
Mas há uma terceira categoria.
Os que não se revêem em nenhum candidato, em nenhum partido, em nenhuma proposta.
E aqui é preciso fazer uma distinção essencial.
Se não se revê em ninguém, há dois caminhos:
ou constrói alternativa,
ou abandona o combate.
E quem constrói alternativa honra a democracia.
Critica.
Questiona.
Exige.
Escreve.
Debate.
Organiza-se.
Intervém.
Expõe.
Mobiliza.
E se for preciso, candidata-se.
Porque compreende algo fundamental:
se não existe alternativa, cria-se.
Democracia não é um menu fechado.
Não é um supermercado político onde apenas escolhe o que está disponível.
Pode e deve criar o que falta.
Mas depois existe a quarta categoria.
E essa é a mais perigosa.
A mais nociva.
A mais decadente.
Os abstencionistas.
Os indiferentes.
Os resignados.
Os que não querem saber.
Os que vivem na crítica, mas fogem da responsabilidade.
Os que dizem que está tudo mal, mas no dia de decidir ficam em casa.
Esses não são neutros.
São cúmplices.
E mais:
objectivamente, são os únicos que apelam à lógica da ditadura.
Porque há uma verdade brutal que poucos têm coragem de dizer:
o único regime político que dispensa o voto é a ditadura.
Na democracia, o voto é a base.
Na ditadura, o voto é irrelevante ou inexistente.
Na democracia, o cidadão decide.
Na ditadura, decidem por ele.
Quem despreza o voto despreza o mecanismo central da democracia.
E quem despreza o mecanismo central da democracia despreza a própria democracia.
É duro?
É.
Mas é verdade.
A abstenção, quando nasce do comodismo, da preguiça cívica ou da indiferença, não é protesto.
É desistência.
E desistir da democracia é abrir espaço à lógica autoritária.
Porque quem abdica de escolher está, no fundo, a aceitar ser governado sem decidir.
E essa é precisamente a essência da ditadura.
Mais ainda:
há quem não esteja preparado para a liberdade.
Porque liberdade exige responsabilidade.
E responsabilidade exige maturidade.
Quem não quer decidir não pode reclamar.
Quem não participa não pode exigir.
Quem foge do dever político não tem autoridade moral para criticar.
É como aquele indivíduo que vive num condomínio.
Critica tudo.
Critica a administração.
Critica as quotas.
Critica as obras.
Critica as decisões.
Mas nunca vai às reuniões.
Nunca vota.
Nunca intervém.
Nunca propõe.
Nunca assume responsabilidades.
Que valor tem essa crítica?
Nenhum.
É ruído.
É ignorância.
É estupidez.
Na política é exactamente igual.
Se quer falar do país, participe.
Se quer falar do concelho, intervenha.
Se quer criticar, primeiro cumpra.
Porque crítica sem participação é apenas cobardia disfarçada.
Antonio Gramsci (1891–1937) percebeu isto de forma profundamente estratégica.
Não porque devamos admirá-lo ideologicamente, mas porque devemos compreender o seu método.
Gramsci percebeu que o socialismo, nas sociedades ocidentais, não triunfaria através da simples tomada militar do poder.
Triunfaria primeiro pela conquista da cultura, do ensino, dos intelectuais e da comunicação.
Aquilo que politicamente hoje se resume assim:
o socialismo não toma primeiro os quartéis; toma primeiro a cultura, o ensino e os media.
Essa é a essência da sua teoria da hegemonia cultural.
Primeiro molda-se a consciência.
Depois molda-se o voto.
Depois molda-se o poder.
Gramsci escreveu, em 1917:
“Odeio os indiferentes.”
E odiava-os por uma razão simples:
porque o indiferente é o terreno perfeito para o domínio ideológico.
O indiferente não resiste.
Não questiona.
Não combate.
Absorve.
Repete.
Obedece.
E é exactamente por isso que o abstencionista é tão perigoso.
Porque a sua ausência fortalece sempre quem domina o espaço cultural.
Joseph Goebbels (1897–1945), ministro da propaganda do III Reich, aperfeiçoou outro mecanismo essencial do poder moderno:
a repetição.
Goebbels percebeu algo fundamental:
uma mentira pura é frágil.
Mas uma mentira misturada com partes de verdade torna-se poderosa.
E se essa narrativa for repetida vezes suficientes, torna-se verdade social.
Não porque seja verdadeira.
Mas porque foi repetida.
A propaganda moderna vive disso.
Simplificar.
Repetir.
Emocionar.
Dividir.
Criar inimigos.
Criar consensos artificiais.
Estigmatizar dissidência.
Hoje já não é preciso um Ministério da Propaganda.
Basta uma comunicação social dependente.
Basta redes sociais.
Basta algoritmos.
Basta repetição.
Basta censura informal.
Basta vergonha pública.
Basta cancelamento.
Basta pressão social.
Richard von Coudenhove-Kalergi (1894–1972), fundador do movimento Pan-Europa, defendia uma Europa unificada e escreveu em Idealismo Prático (1925) sobre o homem do futuro como produto de mistura e transformação civilizacional.
Independentemente das interpretações posteriores, há uma lição política importante:
as elites sempre pensaram sociedades como matéria organizável.
Como massas administráveis.
Como engenharia humana.
E o problema nunca é apenas a teoria.
O problema é a intenção política.
Porque todo o poder deseja a mesma coisa:
populações previsíveis.
fáceis de governar.
fáceis de dividir.
fáceis de controlar.
E quanto menos pensamento crítico existir, mais fácil isso é.
É por isso que discutir política não é discutir partidos.
Isso é uma visão infantil da política.
Política é discutir poder.
É discutir regras.
É discutir orçamento.
É discutir urbanismo.
É discutir segurança.
É discutir justiça.
É discutir imigração.
É discutir liberdade.
É discutir educação.
É discutir soberania.
É discutir cultura.
É discutir o modelo de sociedade onde todos vivem.
Quem diz:
“Eu não gosto de política”
está, no fundo, a dizer:
“Não quero saber das regras que governam a minha vida.”
Mas isso é impossível.
Porque a política importa-se consigo, queira ou não.
Decide os seus impostos.
Decide o seu salário.
Decide a sua casa.
Decide os seus filhos.
Decide a sua segurança.
Decide a sua liberdade.
Decide o seu futuro.
Ignorar política não faz a política desaparecer.
Faz apenas com que outros decidam por si.
E quem deixa outros decidir por si sem lutar, sem pensar e sem participar, não é vítima.
É cúmplice.
Claro que a democracia moderna não é perfeita.
Está cheia de falhas.
Cheia de condicionamentos.
Cheia de interesses.
Cheia de manipulação.
A comunicação social tem dependências.
O poder económico influencia o poder político.
Criar alternativas é difícil.
Combater narrativas dominantes é difícil.
Dizer verdades incómodas tem custo.
O sistema protege-se.
Defende-se.
Fecha-se.
Mas ainda não é impossível.
E enquanto não for impossível, continua a existir responsabilidade.
Essa é a linha que separa democracia de ditadura.
Na democracia ainda pode falar.
Ainda pode criticar.
Ainda pode organizar-se.
Ainda pode expor.
Ainda pode candidatar-se.
Ainda pode combater.
Se não o faz, escolheu não fazer.
E isso também é uma escolha.
Na democracia até o silêncio vota.
Até a ausência decide.
Até a omissão governa.
Por isso não.
Não há vítimas.
Se votou em quem venceu, é responsável.
Se votou em quem perdeu, cumpriu.
Se não se revia em ninguém e construiu alternativa, honrou a democracia.
Mas se ficou em casa…
calado…
indiferente…
confortável…
à espera que outros decidissem o seu destino…
então não é vítima.
É cúmplice.
Porque democracia não é um espectáculo.
É um combate.
E quem foge do combate não pode chorar o resultado.
Estude.
Leia.
Questione.
Duvide.
Pense.
Participe.
Ou continue adormecido.
Mas depois não diga que foi vítima.
Porque na democracia ninguém é arrastado.
Cada um caminha para o destino colectivo com os seus próprios pés.
E o destino de um povo é quase sempre a soma exacta da coragem — ou da cobardia — dos seus cidadãos.

Autor: João Ferreira 

Sorri, foste assaltado pela extrema-direita. Outra vez.

"Nunca é demais reforçar o factual: nenhuma gasolineira sobe os preços por necessidade ou por risco de falência. Os combustíveis que estão a vender foram comprados há vários meses, a preços bem mais baixos do que valor de referência à data de hoje. O que as gasolineiras estão a fazer é aproveitar-se da instabilidade causada pela guerra e de um monopólio controlado por meia-dúzia de empresas para aumentar os seus lucros.

O argumento dos impostos é falacioso. O problema não está nos impostos, mesmo que concordemos – e eu concordo – que são excessivos. Mas não foram os impostos que aumentaram. Foram os preços. Artificialmente.

Mas sim, é óbvio que impostos sobre os combustíveis devem descer. Aliás, já deviam ter descido. Basta olhar para o que fez o governo espanhol, aqui ao lado, para perceber que o nosso governo podia fazer muito mais. Escolheu agarrar-se ao aumento da receita fiscal. Há dois anos chamavam-lhe “socialismo”, não sei qual será o termo a aplicar agora.

Seja como for, o responsável pelo aumento do preço do barril é Donald Trump, que decidiu iniciar uma guerra contra o Irão, com as consequências que todos conhecemos. É ele, e os seus oligarcas, que ganham com o aumento do preço do petróleo, com a venda de armas e com esquemas fraudulentos nas casas de apostas, com inside information para fazer insider trading.

Isto vem reforçar a santa aliança entre os delinquentes do capitalismo de casino e a extrema-direita da exploração, da miséria e da morte. É natural que os primeiros financiem os segundos. E é natural que os segundos queiram abafar a origem desse financiamento. Lá se ia a fantochada dos homens providenciais do povo, que pugnam pela transparência e pelo bem-estar das massas. As massas pagam e não bufam, porque não tem alternativa. O resto é paleio de saco dos discípulos de Epstein."

João Mendes

Passos e o óbvio

 

E se Passos estiver apenas a "alertar" para o óbvio?
E o que é o óbvio, neste momento? 
Simples: com a política de Montenegro o PSD é o partido candidato a ser engolido pelo Chega em próximo acto eleitoral... 

«Pensar Figueira»

Foi constituída no mês passado a associação cívica «Pensar Figueira», que tem como objeto a defesa e promoção de valores e princípios no concelho da Figueira da Foz.

Tem como “sócios fundadores personalidades com provas dadas” em prol do desenvolvimento do concelho da Figueira da Foz, garante nota emitida pela nova associação. 
Já foram eleitos os órgãos sociais. João Paulo Rodrigues preside à direção. 
A “liberdade, a democracia e a tolerância entre os cidadãos”, bem como a “solidariedade, a responsabilidade individual, o desenvolvimento económico e social e a igualdade de oportunidades”, são alguns dos valores que a Pensar Figueira defende e se propõe promover.

Tribunal Constitucional chumba novamente decreto sobre a perda de nacionalidade

"As alterações à lei penal que permitiam a perda de nacionalidade como pena acessória de crimes graves não respeitam a Constituição. A decisão, tomada por unanimidade, foi anunciada pelos juízes do Tribunal Constitucional esta sexta-feira."

sexta-feira, 8 de maio de 2026

... "de deputada a diretora-adjunta do jornal do CH, de tudo isso para o Conselho de Opinião da RTP"...

Via Expresso

"A 18 de julho de 2017, uma entrevista ao “i” empurrou André Ventura para os noticiários nacionais. Vozes do PSD e CDS-PP indignaram-se com a posição do seu candidato à Câmara de Loures sobre a comunidade cigana e caíram queixas (as primeiras de muitas) por discriminação ra cial. Foi na semana anterior, contudo, que Ventura lançou a bandeira que seria arreada pelo Chega, noutra entrevista, ao “Notícias ao Minuto” (“NM”). O título, ‘Há mino rias que se acham acima da lei’, resumia a política defendida, e a jornalista que o entrevistou assinava com o nome Patrícia Martins de Carvalho. Esta sexta-feira será votada para o Conselho de Opinião da RTP como deputada do Chega, juntamente com outros dois deputados do partido, Bernardo Pessanha e Jorge Galveias, levando consigo um currículo pouco comum, marcado por duras críticas ao jornalismo e aos jornalistas que acompanham o seu partido e à própria RTP."

Há vários parágrafos sobre ela no livro de Miguel Carvalho "Por dentro do Chega". 

"Reforma laboral" vai ser aprovada em breve pelo Governo...

Via Expresso

"Há semanas que o acordo era dado como perdido pelo Governo, mas o guião foi seguido à risca até ao fim. E no fim a culpa tinha de ser da UGT. “Intransigente”, acusou a ministra do Trabalho no final da última reunião plenária da concertação social, em que anunciou que não havia acordo sobre o pacote laboral, depois de — há 15 dias — ter deixado um ultimato à central sindical: tinha de apresentar propostas concretas ou o Governo faria seguir o diploma para o Parlamento. Acabou por ser a Confederação Empresarial de Portugal (CIP), na véspera da reunião, a acenar com cedências que pareciam deixar a UGT sem argumentos para rejeitar a proposta do Executivo."

É o que temos. 
E o que temos inclui um PR (in)Seguro, "que não veta nem sai de cima".
Promulgou essa anormalidade inconstitucional que dá pelo nome de Lei da Nacionalidade, sem pedido de fiscalização dirigido ao Tribunal Constitucional e com uns recadinhos ao jeito da celebérrima “abstenção violenta”.
A esta hora, dado o falhanço na concertação social, a "reforma "laboral" vai para o Parlamento para ser vontade.
Com um bocado de sorte, pode ser que não seja aprovado...
Aliás, esta "reforma laboral", que só surgiu para melhorar a vida do grande patronato, complicou a vida a muitos: desde logo, para além dos trabalhadores, ao (in)Seguro PR e ao Governo de Montenegro...

"A Terra das Amoreiras": peça encerra a 48.ª edição das Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Fo

Via Diário as Beiras

Um texto lúcido e realista

A LITURGIA DA OBEDIÊNCIA

Há momentos em que o silêncio pesa menos do que o aplauso. E o que se viu na Assembleia da República foi precisamente isso: o peso insuportável da submissão travestida de virtude.

O presidente do parlamento ucraniano foi recebido de pé, ovacionado como herói, símbolo de uma causa que nos é vendida como sagrada, intocável, moralmente pura. E eu pergunto: herói de quê? De que memória? De que verdade?
Perdoem-me, mas eu não aplaudo.
Eu sinto vergonha.
Vergonha de ver quase todo o espectro político português alinhado numa coreografia servil, incapaz de questionar, incapaz de pensar para além do guião imposto por Bruxelas, Washington e pela máquina mediática ocidental.
E ironicamente, no meio desta cegueira colectiva, foi o Partido Comunista Português — partido cuja visão ideológica rejeito frontalmente — o único a manter-se sentado. O único a recusar participar nesta liturgia da propaganda.
E isso diz muito.
Diz demasiado.
Quando um partido que sempre combati politicamente demonstra mais independência de pensamento do que quase toda a restante classe política, algo está profundamente errado.
Vivemos numa época em que a ignorância já não é acidente: é método.
Repetir slogans substituiu pensar.
E qualquer tentativa de contextualizar o conflito ucraniano é imediatamente catalogada como traição, heresia ou cumplicidade.
Fala-se de democracia, mas cala-se a complexidade.
Fala-se de liberdade, mas censura-se o contraditório.
Fala-se de paz, enquanto se financia guerra.
E o mais grotesco é assistir a tantos, embriagados por propaganda, a chamar “comunista” à Rússia actual, revelando um analfabetismo político quase ofensivo.
Confundem categorias.
Confundem história.
Confundem realidade.
Porque foram treinados para reagir, não para compreender.
A propaganda moderna não inventa necessariamente mentiras.
Selecciona verdades.
Mutila contextos.
Fabrica moralidade conveniente.
É uma técnica antiga, apenas equipada com ferramentas novas.
E enquanto esta encenação se desenrola, Portugal afunda-se.
Salários indignos.
Habitação impossível.
Serviço Nacional de Saúde em rutura.
Jovens a emigrar.
Reformados a sobreviver.
Mas há sempre dinheiro para guerras externas.
Há sempre urgência para conflitos alheios.
Há sempre entusiasmo para causas importadas.
E para os portugueses?
Sacrifício.
Resignação.
Silêncio.
Chamam solidariedade ao envio de milhares de milhões para alimentar um conflito sem fim, mas esquecem-se da solidariedade básica para com o próprio povo.
Aplaudem longe.
Ignoram perto.
Aplaudem símbolos.
Abandonam pessoas.
Perdoem-me, mas eu não consigo alinhar nesta encenação colectiva.
Não aplaudo porque pensar ainda não é crime.
Não aplaudo porque a consciência pesa mais do que a conveniência.
Não aplaudo porque a dignidade começa precisamente onde termina a obediência cega.
E hoje, olhando para aquele hemiciclo de pé, não vi coragem.
Vi conformismo.
E isso mete-me vergonha.
Mas esta crise não é apenas moral.
É também política.
E é precisamente aqui que se revela outra tragédia nacional: Portugal não tem equivalente à Vox, não tem uma figura como Matteo Salvini, não tem uma força como a Alternative für Deutschland, nem sequer uma tradição de pensamento estratégico e soberano como a de Charles de Gaulle.
Não existe em Portugal uma direita conservadora sólida.
Intelectualmente preparada.
Culturalmente consciente.
Geopoliticamente lúcida.
Existe apenas um agrupamento político em torno de um líder, tratado por muitos como grande esperança nacional, mas que, olhando friamente, continua mais próximo de um movimento de contestação do que de um verdadeiro partido.
Porque um partido exige doutrina.
Exige estrutura.
Exige coerência.
E o que ali vejo é uma contradição permanente: à direita nos costumes, à esquerda na economia.
Uma fórmula politicamente explosiva.
Intelectualmente inconsistente.
Na prática, estatismo económico revestido de retórica identitária.
E isso não é direita estruturada.
É improviso político.
Na geopolítica, a confusão é ainda mais evidente.
Prefere-se ouvir activistas e comentadores como Irineu Teixeira, alinhados com narrativas emocionais, em detrimento de análises estratégicas e militares de homens como Agostinho Costa, cuja leitura do conflito — concorde-se ou não — revelou, ao longo destes últimos anos, uma consistência que muitos dos seus opositores nunca conseguiram acompanhar.
E isso é revelador.
Porque uma direita séria escolhe análise sobre agitação.
Escolhe estratégia sobre histeria.
Escolhe realidade sobre propaganda.
Quanto ao líder desse agrupamento, reconheço-lhe uma utilidade política inegável.
Na oposição, muitas vezes acerta no diagnóstico.
Em muito do que denuncia, concordo.
Mas a política mede-se no poder, não no protesto.
E é precisamente aí que nasce a minha desconfiança.
Porque demasiadas vezes vi, dentro desse mesmo espaço político, a distância brutal entre o discurso e a prática.
E quem conhece por dentro aprende depressa uma verdade simples: há quem combata o sistema apenas até ter oportunidade de o administrar.
Portugal não precisa de salvadores.
Precisa de uma direita consciente.
Séria.
Coerente.
Estruturada.
E isso continua, infelizmente, por nascer.
E há algo que precisa de ser dito com clareza: não culpem a direita pela queda da Europa.
A direita soberanista e conservadora não governa a Europa.
Não controla a União Europeia.
Não define o rumo da Comissão Europeia.
Não molda o pensamento dominante em Bruxelas.
A responsabilidade pelo estado actual da Europa pertence a quem a governa há décadas.
Aos arquitectos deste modelo.
Aos sacerdotes deste dogma.
Aos administradores deste declínio.
E o mais trágico é que muitos ainda não perceberam que a Europa — leia-se, a União Europeia — entrou numa trajectória de isolamento estratégico, declínio económico e irrelevância geopolítica.
Como no Titanic:
continuam a tocar música e a dançar, mesmo com a água já pelos pés.
E esse paralelismo é brutalmente exacto.
Porque, no início deste século, muitos acreditaram que o mundo caminhava para a consolidação definitiva de uma ordem unipolar, assente na hegemonia absoluta dos Estados Unidos e na expansão do seu modelo político, económico e militar.
Parecia o encerramento da História.
Um centro de poder.
Uma narrativa dominante.
Um modelo universal imposto como inevitável.
Mas a História raramente respeita guiões.
A Rússia travou esse avanço estratégico.
A China venceu no campo onde verdadeiramente se decide o poder duradouro: economia, indústria, tecnologia e planeamento estratégico.
A Índia emergiu como potência civilizacional e económica.
E o chamado Sul Global despertou para uma realidade simples:
o mundo não precisa de um único centro de gravidade.
Hoje estamos a viver as dores de parto dessa transformação histórica.
A passagem de um mundo unipolar para um mundo multipolar.
O fim progressivo da hegemonia absoluta norte-americana.
E é precisamente aqui que a União Europeia revela toda a sua fragilidade estratégica.
Sem autonomia política real.
Sem independência energética.
Sem soberania militar efectiva.
Sem visão própria.
Bruxelas continua presa a uma lógica atlântica que já não corresponde à realidade emergente do século XXI.
Aposta num paradigma em desgaste, enquanto o centro de gravidade mundial se desloca para Oriente e para Sul.
Enquanto insistimos em discursos moralistas, superioridade civilizacional e arrogância burocrática, outros avançam.
A China avança.
A Rússia reorganiza-se.
A Índia afirma-se.
E a Europa?
Debate regulamentos.
Produz burocracia.
Consome propaganda.
E continua a olhar para o mundo com a arrogância colonial expressa por Josep Borrell, quando afirmou que “a Europa é um jardim e o resto do mundo é selva”.
Essa frase não foi apenas infeliz.
Foi reveladora.
Reveladora de uma mentalidade que ainda não percebeu que o mundo mudou.
Mudou o eixo do poder.
Mudou a economia.
Mudou a ordem internacional.
E quem paga esse erro?
Os povos europeus.
Com inflação.
Com energia cara.
Com perda industrial.
Com estagnação económica.
Com perda de competitividade.
E, no entanto, grande parte dos media prefere maquilhar as consequências, anestesiar a opinião pública e proteger a narrativa dominante.
Porque admitir o erro seria reconhecer que a Europa entrou numa guerra económica, estratégica e civilizacional para a qual não estava preparada.
E pior:
por escolhas que nem sequer servem necessariamente os interesses dos povos europeus.
Este sonambulismo estratégico, esta cegueira voluntária, esta embriaguez ideológica, vai sair-nos caro.
Muito caro.
Porque a História não espera por civilizações adormecidas.
E quem insiste em dormir enquanto o mundo muda, acaba inevitavelmente por acordar derrotado.

Morreu Carlos Brito

Foto: daqui
Carlos Brito
, histórico dirigente do PCP, tinha 93 anos.
Morreu ontem.
Foi preso três vezes pela PIDE. 
Esteve durante uns oito anos nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche, onde foi torturado.
Antes do 25 de Abril, estudou em Moscovo e regressou a Portugal e à clandestinidade, tendo sido o responsável pelo PCP em Lisboa no 25 de Abril. 
Posteriormente, tornou-se o braço direito de Álvaro Cunhal. 
Carlos Brito assumiu a liderança da bancada parlamentar do PCP durante 15 anos e candidatou-se a Belém em 1980, tendo desistido em apoio a Ramalho Eanes.
Defensor da renovação do Partido Comunista Português, insurgindo-se contra o rumo rigidamente marxista-leninista do PCP, acabou por ser suspenso por um período de dez meses, em 2002, por "comportamento fraccionário", visto que integrava o Movimento Renovação Comunista, um grupo de "renovadores“ dentro do partido. Após essa suspensão, decidiu não regressar às fileiras do PCP.
A 9 de Junho de 1997 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, a 25 de Abril de 2004, com a Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.
O PCP reagiu ao final da noite, "a pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito", com uma nota: "Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar".