sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pedro Cruz e a paisagem sem figuras

A estória é curta e resume-se assim: o jovem Pedro Cruz (que já retratei aqui e sobre quem já me debrucei aqui), foi convidado pelo presidente da Junta de freguesia De S. Pedro para fazer uma exposição de fotografia.
O jovem foto-jornalista, certamente enaltecido, aceitou o convite que encarou como um repto. Em lugar de postais bucólicos e turísticos o jovem Pedro, cidadão atento e interventivo, decidiu partilhar com os seus conterrâneos o que o preocupa, mostrando algumas das suas imagens que documentam a erosão do litoral costeiro e da sua praia e dando à mostra o nome de ALERTA COSTEIRO 14/15.
Leal, como só os grandes o sabem ser, o jovem fotógrafo deu uns dias antes uma entrevista a um jornal regional na qual anunciava que para além da paisagem devastada iria também expôr as figuras daqueles que acha responsáveis.
Em vésperas de dia de inauguração, Pedro dirigiu-se ao local marcado e começou a montar a selecção de imagens que, segundo o seu critério, melhor davam a ver a devastação da sua praia: paisagens, mas também figuras. Foi uma das fotos que mostrava figuras que o presidente da junta exigiu que fosse retirada. O jovem Pedro recusou fazê-lo e a exposição foi cancelada. Segundo o artista, no seu Face-Book, “O Alerta está dado”. 
(podeis acompanhar mais prolongamentos desta notícia  no blogue "outra margem").
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Esta estória exemplar demonstra, quarenta anos depois do vintecincodAbril, como este país continua afinal igual a si próprio e ao que sempre foi: um pobre e bisonho paraíso paroquial para pequenos chefes labregos que - no seu boçal entendimento, certamente inebriado plo esplendor do mando - pensam que podem apagar figuras de uma paisagem.
Mas também demonstra que há algo - para além do talento, claro - que um artista consciente, ainda que pobre, nunca admite que lhe seja escamoteado: o orgulho (o amor-próprio, meus lindos).
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Por isso, caro Pedro, nunca agradeças a quem te enaltece o talento e a independência (ninguém deve o que é seu por mérito). Seria falsa modéstia.

O comunicado emitido pelo presidente da Junta de S. Pedro, António Salgueiro a propósito do cancelamento da exposição fotográfica ALERTA COSTEIRO 14/15

O comunicado de sua excelência, o presidente da junta de freguesia de S. Pedro fala por si, pelo que, qualquer comentário é absolutamente excedentário, tal a gravidade da sua tomada de posição: "pediu" para retirar uma foto...ao que se seguiria um muito claro "se não retirasse essa não havia exposição"...  que foi o que acabou por acontecer.
Enfim...
Lamento ter de o escrever.
O senhor presidente não percebe o óbvio: continua a ser completamente burro todos os dias, até aos sábados...
Temos pena...
A exposição era do artista: na totalidade - no talento e nos custos.
A Liberdade é isto, senhor presidente.
“Seu” era o espaço do Mercado da Gala.
O senhor entendeu interditar o acesso ao espaço.
Problema seu, caro presidente da junta.
Neste momento, a exposição do Pedro já foi mais longe do que o senhor pensa – e sabe, porquê?
Porque o senhor, além de acagaçado, é burro todos os dias (até aos sábados)...
Na Cova e Gala, freguesia e vila de S. Pedro, 41 anos depois, continuamos entre a liberdade e a democracia formal, entre o sentimento e o falhanço, entre a governação e o autoritarismo, entre a Liberdade e a ostentação, entre a justiça e a injustiça, entre a Liberdade e a fraude, entre a Liberdade e a intimidação. 
Je suis covagalense e tenho nojo do presidente da junta de freguesia da minha Terra. 

A EXPOSIÇÃO CENSURADA PELO PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DE S. PEDRO


Este é o trabalho que o fotojornalista Pedro Agostinho Cruz tinha preparado para inaugurar hoje, às 10.30, no Mercado de S. Pedro, na Gala. No entanto, por não ceder ao pedido do presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro, António Salgueiro, para retirar uma fotografia da sua narrativa fotográfica ALERTA COSTEIRO 14/15, a exposição foi cancelada. 
A exposição não se vai realizar, mas o problema esse vai continuar. 
O alerta foi dado!

JE SUIS COVAGALENSE: "a exposição foi cancelada, o problema mantém-se, o alerta está dado"...

Foi há quase 89 anos que foi instituída a censura prévia à imprensa em Portugal, pela ditadura militar saída do golpe de 28 de Maio de 1926. Como é sabido, iria durar 48 anos.
Vivemos agora com liberdade de expressão e dispomos de uma diversidade de meios de acesso à informação com que nem sequer podíamos sonhar nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril. E, no entanto...

Alerta: Fotografia "incómoda" leva ao cancelamento de exposição fotográfica sobre erosão costeira em S. Pedro 
“O fotojornalista figueirense Pedro Cruz, que fotografou os avanços do mar sobre as praias da margem sul durante os últimos dois anos, já tinha dado o alerta. Em entrevista ao programa da Foz do Mondego Rádio, "Tem a Palavra", afirmou que o presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro, António Salgueiro, lhe tinha dito que, quando o convidara para expor no renovado Mercado da freguesia, não era "aquilo" que tinha em mente. Pedro Cruz, porém, queria mostrar, mais do que os habituais postais das zonas piscatórias, "um problema grave, que ameaça casas com gente dentro". A exposição foi programada, mas ontem, ao final do dia, acabou por ser cancelada, depois de o fotógrafo se ter recusado a retirar uma das imagens. Para além de fotografias que permitem constatar as alterações provocadas pela erosão costeira só nos últimos dois anos, depois do prolongamento do molho norte, a exposição incluía imagens de visitas de responsáveis políticos aos locais mais afectados. "A exposição foi cancelada, o problema mantém-se, o alerta está dado", sintetiza Pedro Cruz.”
Je suis covagalense. 
Um alerta final.
A pressa e a leveza com que quase tudo é abordado nos dias que passam, acaba por influenciar muitíssimo a opinião pública, aquela que está para além das elites, sempre minoritárias, que são capazes de filtrar o que lêem, o que vêem e o que ouvem. É assim que estamos.  
"A exposição foi cancelada, o problema mantém-se, o alerta está dado".
É útil não esquecer.

Eu é que sou o presidente da junta...

“Chego a concordar que a Censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (...). Eu próprio já fui em tempos vítima da Censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários”
António de Oliveira Salazar em entrevista a António Ferro (1933)

A foto que o presidente da junta
não autorizava na exposição é esta.

O que é que, na realidade, acagaçou o
o presidente António Salgueiro? 
Quase 41 anos depois daquela manhã de Abril, em que os militares decidiram devolver a Liberdade aos portugueses, falar em Censura é algo que soa a passado e cuja memória colectiva se vai lentamente esboroando no percurso do tempo. É pelo menos essa a sensação com que se fica, ao falar com pessoas que durante o Estado Novo foram vítimas da Censura.
Quase 41 anos depois daquela manhã de Abril, um covagalense foi vítima de censura por um presidente de junta.
Gostava de ver alguns dos indignados com a falta da liberdade de expressão, apavorados com o regresso da Censura e defensores da Liberdade comentarem a decisão do presidente da junta de S. Pedro. 
Confesso que fiquei surpreendido, pois o que estava em causa não envolvia sequer matéria política.