"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha." - Confúcio

domingo, 31 de maio de 2020

A justiça e a sua cosmética...

"Um homem de 39 anos, residente numa aldeia da Serra da Lousã, está a ser julgado, no Tribunal de Coimbra, pela prática de seis crimes, entre os quais o de escravidão de um indivíduo de 61 anos. «O arguido passou a tratar o ofendido com arrogância, desprezo pela sua dignidade de pessoa e com extrema brutalidade, como se este fosse de sua propriedade e não passasse de uma mera coisa ou objecto», lê-se logo numa das primeiras páginas da acusação deduzida pelo Ministério Público a que o Diário de Coimbra teve acesso."
Para que se perceba: "plano passava por receber os 180 euros mensais que o ofendido auferia de rendimento social de inserção"!
Abençoado jornalismo de referência! 
A leitura dos jornais pelos dias que correm (basta passear os olhos por uma primeira página) deveria deixar qualquer pessoa revoltada e a exigir medidas. Falo dum flagelo que há muito atrofia Portugal: a falta de celeridade na justiça feita aos poderosos. 


"Não é saudável para a realização da justiça e para a própria materialização da democracia que os corruptos, aqueles que mais atingem os interesses do coletivo, que contribuem para o desequilíbrio das contas públicas, que distorcem a verdade e os naturais mecanismos da economia em proveito próprio - em alguns casos, muito proveito -, demorem demasiado tempo a ser julgados, conduzindo a situações em que nunca sejam efectivamente, por via da prescrição ou outras que se prendem com o fim de ciclo de vida do próprio arguido, julgados e condenados."
Estas declarações de Luís Neves, que tomou posse como director nacional da Polícia Judiciária há dois anos, são elucidativas, sobre o nível de degradação moral a que nos permitimos descer. Quase diariamente somos confrontados com coisas escabrosas a nível das elites políticas e financeiras. 
E não me venham com banhas da cobra. Em Portugal, vivemos no faz de conta. Somos capazes de ler, ver e ouvir, sentir talvez até um assomo de indignação, mas somos pouco exigentes.
Na primeira oportunidade, desviamos o olhar e o pensamento para qualquer outra coisa. Já alguém se perguntou quando começamos a ser menos humanos por via deste nosso comportamento?

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