Ernest Hemingway: «Um homem pode ser destruído mas não vencido.»

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A minha praia

Visto aqui de cima , o mar está num ripanço quase total, serenamente a saborear os raios de Sol!
Provavelmente, está a digerir a sua última refeição. Areia, pois claro, ou estavam a pensar noutra iguaria. Sim areia, sedimentos da idade do mundo, outrora pedras, quiçá rochas, grandes ou pequenas, que o tempo num passe de mágica prodigioso transformou em simples grãos, guardando neles a memória dos dias.

O mar é como o homem. Tem dias. A areia, ou melhor, os grãos de areia, são como a memória do ser humano. Tomados numa mão, deslizam suavemente, por entre os dedos, tomando o rumo do vento, quedando somente uns quantos nessa parte central da mão. A concha. É aí que repousam os grãos de areia de que vos falo.

Grande parte da nossa praia está a ficar nua. Não, não estou a falar de nenhuma sereia adepta do nudismo, estou mesmo a referir-me à praia. Os velhos comentam que nunca a viram assim. O mar levou grande parte da areia, fracções da memória dos dias. A praia mudou, acanhou-se, minguou...
Contudo, a praia resiste. Mais pequena, mas ainda preparada para continuar a acolher o grito de liberdade das gaivotas, o riso das crianças, os passeios à beira mar, os romances no ar, a dança de uma brisa suave, os golpes do vento norte, os beijos do mar ou a altivez das ondas.

A praia resiste...
Todos temos de aprender com o que a praia nos ensina. Exactamente isso, a ter esperança, a resistir. A enfrentar as ondas da vida, por mais alterosas que elas sejam
Há por aí, profundas desilusões perante as dificuldades da vida. Nunca desistam. De viver. Aprendam com o exemplo da praia.
A vida segue os ritmos do mar, ora calmo e sereno, ora bravo e altivo.
Temos sempre muito a aprender...
Também com o mar.

6 comentários:

Anónimo disse...

É a essa mudança constante que chamamos dialéctica, que forma e deforma os contrários, neste caso mar e praia, vento e areia, sol e nuvem. Parece que apenas se completam, mas criam tensões e dinâmicas perpétuas cujo essencial temos que reter para interpretar e agir, com a ideia clara que há tempos e espaços, perspectivas e imponderáveis que condenam ao fracasso a visão determinista das coisas.
Ver a praia e o mar sempre iguais é cegueira absurda. Tal como na vida dentro e fora de nós.

Anónimo disse...

Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia Mello Breyner

Vanessa disse...

Essa também é a "minha praia."
Beijinhos

Unknown disse...

Eu gosto do vosso gostar da "vossa" praia, que também é minha. Muito obrigada pelo empréstimo.

Anónimo disse...

Este post está diferente!Há um sentimento nesta tua escrita...
leio e deixo-me envolver...p'lo mar, p'lo sol,pela natureza, pela tua maneira de falar...sobre a praia...sobre as vidas...
flores pra ti

António Agostinho disse...

Como escrevi no texto: “o mar é como o homem. Tem dias. A areia, ou melhor, os grãos de areia, são como a memória do ser humano. Tomados numa mão, deslizam suavemente, por entre os dedos, tomando o rumo do vento, quedando somente uns quantos nessa parte central da mão. A concha. É aí que repousam os grãos de areia que retemos na nossa memória.”
Pois é; todos temos dias. E, viver, assim, tão sensível, não pode ser sempre. O mundo dos vencedores não é para pessoas sensíveis...
Obrigado pelas tuas palavras, fruto da tua grande sensibilidade.
Continua, assim, sensível, que isso fica-te bem...
Eu, prometo, vou ter mais dias...