segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Os miúdos não estão bem

David Pontes, Público

«"A população, quando se manifesta, manifesta-se com razão porque sente, porque dói, porque há dor." O ministro das Infra-estruturas e da Habitação mostrou este domingo compreensão perante o protesto que ganhou expressão no Porto e transbordou para Lisboa. Foi uma mudança de tom, numa semana em que o poder revelou uma falta de empatia e uma cegueira que acabaram por ser determinantes para mobilizar a contestação, num país caracteristicamente afónico na hora do protesto. 
Com a carga policial de violência escusada sobre manifestantes pacíficos, o país contemplou a expressão máxima da incapacidade do poder político para entender o mal-estar transversal, contínuo e crónico provocado pela crise da habitação. Se se levantam tendas em D. João I e no Rossio é porque sucessivos governantes se mostraram incapazes de perceber até que ponto esta "dor" mina a vida de milhões e compromete o bem-estar social. 
E se o cassetete que bate na cabeçа com rastas não percebe que está a esmurrar uma geração inteira que não consegue sair da casa dos pais, era de esperar que políticos mais experientes tivessem maior sensibilidade do que o "implacável" ou o "egoístas", as palavras que marcaram a semana. Em vez de olhar para a causa com a urgência devida, o executivo preferiu atacar o efeito, tentando desviar o olhar do essencial.
Seguindo o espírito do tempo, primeiro preferiu saltar para a trincheira e atacar quem protesta, procurando deslegitimar a contestação. São “cópias" do que vem de fora, são violentos, não respeitam a "lei e a ordem”, são manipulados por forças partidárias... Mas, mesmo que a câmara prefira sempre o caixote a arder ao rapaz com uma guitarra, о que os ecrãs acabaram por mostrar esta semana não foi o filme sobre o qual o executivo quis construir a sua narrativa. 
Os jovens portugueses têm motivos suficientes, à razão do preço do metro quadrado, para não serem a cópia de ninguém. A acampada que fizeram não tem qualquer comparação com a irracionalidade violenta que vemos tomar as ruas noutros países. E a participação de partidos neste tipo de manifestações é própria de uma democracia e não macula as razões do protesto. 
Hoje, a habitação não é uma causa de direita ou de esquerda, é um problema de todos. Foram precisos quatro dias para o Governo interiorizar isto e era bom que não o esquecesse mais. Porque os nossos miúdos não estão bem e a dor que sentem não vai passar quando as tendas saírem das praças.  Se queremos pensar no futuro, é mesmo preciso que esta dor se torne a prioridade máxima da acção política. Se queremos pensar no futuro, é mesmo preciso que esta dor se torne a prioridade máxima da acção política.»

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