Via Luís Osório: (a mulher que nunca desistiu de si própria)
1.Helena Roseta, já com 78 anos, é uma mulher extraordinária. Estou particularmente à vontade pois, há muitos anos, era eu diretor do jornal A Capital, entrou-me pelo gabinete aos berros por causa de um assunto de que, sinceramente, não me lembro. Alguma coisa que escrevi no editorial fê-la galgar caminhos, entrar na redação e tentar apanhar-me na curva.
Do mesmo se queixam muitos do que com ela trabalharam. É absoluta, colérica e muitas vezes injusta, mas pensa, faz e o que pensa e o que faz vem-lhe de dentro, das suas convicções, da sua vontade de fazer bem, da necessidade de ajudar as pessoas a serem pessoas, de querer muito que os mais pobres possam ser menos pobres, de desejar que a política seja um campo onde se combate pela justiça, por uma ideia de igualdade e pela liberdade.
2.
Mulheres como esta, ou homens assim, devem ser celebrados. São incómodas e incómodos, chateiam com pormenores e minudências, mas no final das contas são as que permitem que se avance e que as que evitam o conformismo e todas as espécies de corrupção, a começar pela da alma.
Aos 78 anos, depois de uma carreira longa e cheia de duros combates, podia estar descansada em casa.
Podia, nada.
Helena foi sempre uma mulher impossível de controlar. Esteve com Sá Carneiro e na fundação da AD onde, com Gonçalo Ribeiro Teles, falou pela primeira vez de conceitos novos e estratosféricos como o ambiente e a importância da organização das cidades.
Apesar de direita e católica dava-se com os poetas e artistas de esquerda. Com eles, e a sua amiga Natália Correia, guerreava argumentos, poemas e canções, em longas madrugadas no Botequim, um bar que chegou a ser seu.
Presidiu à Câmara de Cascais e dirigiu o “Povo Livre”, jornal do PSD, mas em 1986 pôs na cabeça que devia apoiar Mário Soares e não Freitas do Amaral. No seu partido foi o bom e o bonito e ela, podendo perder tudo o que conquistara, mandou tudo às malvas e saiu do PSD.
Fundou associações cívicas e foi bastonária dos arquitetos, mas nunca se agarrou a coisa nenhuma, forma que para ela certamente equivaleria a uma desistência de si própria.
Helena Roseta é uma mulher que não desiste da vida que lhe corre nas veias. E não me importo nada que me volte a entrar numa sala para me desancar por uma qualquer coisa que lhe passe pela cabeça. Não será por isso que não lhe darei um abraço e lhe direi “obrigado”.»

Sem comentários:
Enviar um comentário