Dois dias depois da Greve Geral, nada está decidido e a luta
continua.
Como disse Montenegro, “esta greve não
trouxe nenhuma novidade e nem uma
solução".
Não trouxe nenhuma
novidade, porque a mobilização de largas faixas do sector público
continua a perturbar a vida do país e a
transformar a greve num facto político
incontornável.
A incerteza continua a ter nome: Chega.
Muitos terão feito
greve por acreditarem que,
mostrando a impopularidade desta
medida, largamente comprovada por
sondagens, é a melhor forma de
manter o Chega arredado de um
acordo.
Para o executivo, que decidiu
regressar a algumas das suas
propostas iniciais, haverá sempre a
hipótese de André Ventura seguir o
que é a sua matriz ideológica e vir a aprovar a reforma em troca de alguns
recuos.
Ventura falou para dizer que a luta pode continuar.
Como habitualmente, numa curta
declaração, disse uma coisa e o seu
contrário. Que a rua nada vale e que o
que interessa é a discussão no
Parlamento, onde a legislação “será
derrotada”. Que este "pacote laboral é
mau", mas, "se houver alterações, se
houver outra lei laboral, o
Parlamento, mais uma vez, cá estará
para a discutir”.
Numa greve, os
trabalhadores não recebem salário
pelo dia em que faltaram.
A ausência é considerada justificada,
mas não remunerada.
Num
país onde a maioria dos
trabalhadores ganha mal, faltar um dia para fazer greve, deveria fazer pensar os governantes.
Será que esta greve
geral fez pensar este Governo?
Esta greve geral reforçou a sensação
de que este Governo é incapaz
de encarar os problemas e
resolvê-los nos limites das
possibilidades e da sensatez.
É evidente que a greve
perturbou o quotidiano, paralisou serviços e
empresas, anulou a normalidade do país,
causou danos na economia e agravou a
sensação de que o país caminha sem rumo
para destinos perigosos. Sendo tudo isto
normal em democracia, importa saber se a
nova legislação laboral do Governo justifica
os prejuízos causados. Os tangíveis e, em
especial, os danos à relação entre os
cidadãos e o poder político.
Tudo isto poderia ter sido evitado ou
mitigado se a ministra do Trabalho e o
primeiro-ministro fossem capazes de
perceber que, no quadro de um Governo
sem maioria, não há nada que se possa fazer
sem cedências nem negociação. Como não
há nada que seja, de facto, eficaz quando se
confrontam os cidadãos com escolhas que
eles não podem nem devem aceitar: ser
despedido sem justa causa e não ter ao reingresso incondicional; e,
fundamentalmente, poder ser despedido
sabendo que as funções que desempenhava
serão facilmente assumidas por
trabalhadores em regime de outsourcing.
Não admira que a maioria dos cidadãos,
mesmo os que não fazem greve, esteja ao
lado dos sindicatos neste conflito.
E o Chega sabe isto.

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