Via jornal Público
"Temos neste momento
159 milhões de
pagamentos indevidos
de prestações sociais,
alguns decorrentes de
fraude" e o Rendimento Social de
Inserção (RSI) tem um "tempo médio
de cinco anos e três meses". "Com os
dados que temos hoje, sabemos que
cerca de 40% dos estrangeiros que
recorrem ao Serviço Nacional de
Saúde (SNS) não têm nem protocolos
de cooperação, nem seguros." As duas
frases foram proferidas no Parlamento
por duas ministras do actual Governo.
A primeira ontem durante o debate da
Prestação Social Única (PSU) e a
segunda em Fevereiro do ano passado,
na Comissão Parlamentar de Saúde.
As duas declarações têm em comum
a vontade de alimentar divisões e
distrair do problema de fundo. No
primeiro caso, a divisão entre
beneficiários e não beneficiários do SI. No segundo, entre utentes
nacionais do SNS e estrangeiros. Os problemas de fundo? A mudança no
tipo de pobreza que existe em
Portugal e as dificuldades de
prestação de cuidados de saúde por
parte do SNS.
Contaminado pelo efeito do Chega,
o Governo iniciou funções a
demonizar grupos de pessoas - como
se fossem os culpados dos problemas
maiores do sector - e continua
alegremente a fazer esse caminho.
A ministra do Trabalho não ignora
com certeza que o número de
beneficiários do RSI tem vindo a
diminuir nos últimos anos.
Actualmente, há 160.279 beneficiários,
que recebem, em média, 159,96 euros
por mês. Por outro lado, a proporção
da população empregada em situação
de pobreza continua perto dos 9%,
sendo uma percentagem muito
significativa e que devia merecer
especial atenção numa altura em que
a perda de poder de compra dos
portugueses se agudiza.
A distorção do debate é de tal ordem que se esquece que na génese da PSU
esteve uma sugestão da OCDE que
apontava para a unificação das
prestações não contributivas como o
melhor caminho para o combate à
pobreza. Sugeria a acumulação,
durante um período de tempo, do
apoio recebido com o salário, por
considerar que essa situação é a que
verdadeiramente ajuda as pessoas a
transitar de uma situação de
beneficiários para a vida activa. Algo
muito longe da ideia do actual
Governo de trabalho social.
Todo o debate sobre estas questões
de apoios sociais é mais complexo e
tem mais variáveis do que aquelas que
uma declaração como a da ministra
Maria do Rosário Palma Ramalho
encerra. Não é a dizer que as pessoas
passam o dia no café
e não querem trabalhar que se debate
a sério seja o que for. Pode resultar
nas reuniões entre o Governoе о
Chega. Não resulta para medidas
sérias para o país.

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