"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha." - Confúcio

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Recordando a Cova e Gala dos anos 50 e 60 do século passado - o tempo da caridadezinha…

O CENTRO SOCIAL DA COVA E GALA  comemorou no passado dia 31 de Outubro  o  43º aniversário do início oficial da sua actividade.
Na oportunidade, o Pastor João Neto, agora reformado, mas não acomodado (como sempre, continua atento e interessado ao que se passa em S. Pedro, freguesia de que fazem parte  a Cova e a Gala,  essas duas povoações tão importantes no riquíssimo, sob o ponto vista social e humano, percurso de vida do Pastor João Neto), publicou no jornal "A Voz da Figueira" o trabalho de que transcrevemos grande parte mais abaixo.
Sem pretender comparar-me com uma figura de referência (e não só a nível local e regional: é  uma figura respeitada  nacional e internacionalmente), fica aqui uma singela homenagem a um Homem com quem, pelo menos, ouso ter a veleidade de afirmar que tenho uma coisa em comum: nem eu, nem o Pastor João Neto, nos imaginamos a viver longe da Cova e Gala.
Fica o artigo do Pastor João Neto que me trás recordações da Cova e Gala de há cerca de 50 anos – o tempo difícil, mas feliz, da minha meninice.
Aceite a minha gratidão e um abraço, meu caro Pastor João  Neto.

Sous-développement ET COVA, VOUS CONNAISSEZ ?

“Cova é uma pequena aldeia de 2.500 habitantes, localizada à beira do Atlântico, perto da importante cidade balnear da Figueira da Foz (Portugal), onde se vive pior que nas localidades vizinhas: a ausência de esgotos, a corrente eléctrica considerada uma excepção, a miséria material, as condições de trabalho desumanas, a deterioração das células familiares, a má nutrição é, lamentavelmente, a situação de toda uma região economicamente desfavorecida”. Era assim que começava um artigo no “Journal de Genève”, de 12 de Setembro de 1970. Nesse dia um grupo de jovens suíços, que tinha participado, nesse verão, em dois campos de trabalho na Cova, organiza uma marcha silenciosa, partindo do Monumento da Reforma, percorrendo as ruas daquela cidade helvética, seguindo-se uma conferência de imprensa. O seu objectivo foi chamar a atenção da população local de que o subdesenvolvimento não é só um problema de certas regiões da África e da Ásia, mas que ele também existe na Europa, como era o caso da Cova.

Esses jovens não estavam longe da realidade. Algum tempo mais tarde, tendo o Centro Social da Cova e Gala convidado o então presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Eng. Jorge Pinho, a visitar a localidade, ele, acompanhado de vários técnicos camarários, concluía a sua visita, referindo-se aos muitos problemas  existentes : “Cova é como um novelo de lã em que não sabemos onde está a ponta por onde se deve puxar”. Quem conheceu a Cova desse tempo sabe que assim era. Foi por isso que a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, baseada na sua pequena comunidade da Cova e Gala, se lançou, em 1969, num Projecto de Desenvolvimento Comunitário. O primeiro passo foi abrir a aldeia ao exterior, chamar a atenção de quem de direito para ela e seus problemas. Apesar de Cova e Gala se encontrarem apenas a três quilómetros da Figueira da Foz, Cova era um lugar isolado, quase que perdido, onde ninguém se deslocava. Daí o termos organizado ao longo dos anos mais de cem campos internacionais de trabalho, em que participaram mais de três mil jovens de diversas nacionalidades europeias, do Canadá e dos Estados Unidos, tornando-se verdadeiros e singulares embaixadores do Projecto da Cova e Gala nos seus países. Ao mesmo tempo, foram organizadas, anualmente, viagens de informação pela Europa, acompanhadas pelo Grupo de Folclore Infantil e Grupo Coral de Adultos do Centro Social da Cova e Gala, em que se procurava dar a conhecer a situação social e política, mas também cultural da nossa região. A sua acção foi de um  valor inestimável, de tal maneira que, em 1980, uma editora alemã convida o jornalista germânico Hans Gerhard Gensch a escrever um livro sobre o Projecto de Desenvolvimento da Cova e Gala, com o título “Ernte in den Dunen” (Colheita nas dunas). Este livro chegou a ser usado em muitas escolas suíças e alemãs como livro de texto duma experiência de desenvolvimento. Também a televisão alemã desloca-se ao concelho da Figueira da Foz e faz um programa sobre o Centro Social da Cova e Gala. Muitos são os recortes de jornais europeus e americanos que noticiam e relatam as actividades da instituição e seu projecto. Dizia alguém, com certa graça : “Cova e Gala é mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal”. E era verdade ! Cova e Gala tornou-se  internacional, abriu as suas portas e deixou para trás o seu isolamento inicial. Estava atingido o primeiro objectivo.

Sempre foi seu alvo prioritário ser um projecto ecuménico, aberto, colaborante e participativo, independente de ideologias, tendo como alvo servir o próximo, sobretudo, os mais fracos, mais pobres e desprotegidos, procurando dar voz a quem não tem voz.  A sua máxima “Não fazer sozinho o que puder fazer conjuntamente” é o princípio orientador de toda a intervenção do Centro Social da Cova e Gala desde o seu começo. Daí termos trabalhado conjuntamente com toda a equipa concelhia do então Instituto da Família e Acção Social, com destaque da assistente social Alzira Fraga, responsável pelo núcleo concelhio. Criou-se então o Grupo de Apoio à Primeira e Segunda Infância do concelho da Figueira da Foz, iniciativa inédita e única, num país burocrático e em que cada um  quer  ser senhor da sua quinta. Estivemos presentes em muitas  outras  iniciativas concelhias, distritais, nacionais e internacionais e participámos na organização de várias instituições. Sentimos que ao longo dos anos temos sido enriquecido nas nossas experiências, ainda que em certos momentos, sobretudo durante a Ditadura, sofrêssemos dificuldades e reveses. Porém, tudo contribuiu para o fortalecimento da instituição.
O Centro Social da Cova e Gala surgiu numa época de grandes aberturas internacionais. A acção libertadora do Conselho Mundial de Igrejas, o II Concilio do Vaticano, a Teologia da Libertação, o Centro Ecuménico Reconciliação, na Figueira da Foz, tudo contribuiu para que as pessoas se abrissem ao diálogo e as suas consciências fossem possuídas pelo espírito de revolta e desejo de libertação e destruição de todo o tipo de opressão e de injustiça. O Centro Social está nessa linha e, por isso, funda-se e segue a pedagogia de Paulo Freire (alfabetização, conscientização e politização), adaptada à realidade portuguesa e a experiência de desenvolvimento comunitário do Centro Social de Riesi (no interior da Sicília), dirigido pelo já falecido Pastor Tullio Vinay. O nosso programa procura responder às necessidades das famílias, das crianças, dos jovens e dos idosos. Dá atenção ao desenvolvimento da agricultura intensiva através de estufas. Promove acções culturais e está aberto a outras iniciativas que estejam de acordo com os seus princípios. Por isso, realizações  de avaliação periódicas. Em 1980, com a colaboração do Instituto Ecuménico para o Desenvolvimento dos Povos (INODEP), com sede em Paris, realizou-se o primeiro seminário sobre “Elaboração e Avaliação de Projectos de Desenvolvimento”, porquanto toda a instituição deve reflectir sobre a sua prática para avaliar até que ponto a sua intervenção está a contribuir para a transformação da realidade onde se insere e actua, tendo em consideração o projecto de desenvolvimento que assume e os objectivos que pretende atingir. Posteriormente outras acções de avaliação tiveram lugar.

Face à crise social, económica e financeira que se vive no nosso país, instituições como o Centro Social da Cova e Gala vivem momentos muito difíceis por falta de recursos para responder a todas as necessidades e apelos. Apesar de tudo, não fossem as instituições particulares de solidariedade social a tentarem responder, nesta hora,  às necessidades de quem precisa de apoio e solidariedade, e os dramas seriam muito maiores. Para realizarem o seu trabalho as IPSS precisam da colaboração das entidades oficiais. Elas não podem nem querem substituir o Estado nas suas responsabilidades sociais. Elas querem tão-somente colaborar, mas para isso precisam de ajuda empenhada por parte do Estado.

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