"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha." - Confúcio

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Ser da Aldeia



Ser da Aldeia é ser cordato, de brandos e bons costumes. Arranjar uma boa discussão por causa de futebol. É eleger sempre os mesmos. É ser revoltado. É ter um copo de tinto cheio na mão e já estar a fazer contas de cabeça para ver se tem  trocos que cheguem para mais uma rodada. É sentir orgulho em ser da Aldeia, apesar de viver com um nó na garganta por causa dos problemas que continuam por resolver. É viver uma vida a  apertar o cinto, mas quando se senta não ter problemas em poder ficar com o rego à mostra. É criticar o que se passa na Aldeia, mas ai de quem diga mal da Aldeia e não seja Aldeão. 

Ser da Aldeia é não ser bairrista por ambição, calculismo ou conveniência, mas sentir os olhos aguados ao ver e ouvir os videos como os que estão publicados acima. É torcer pelo Cova-Gala. Gritar, mesmo que este grupo desportivo, sendo o Clube da Aldeia, nunca  consiga ganhar muito. É gritar pelo Grupo Desportivo Cova-Gala, só pelo orgulho de se ser da Aldeia.

Ser da Aldeia, é ir pedir um ovo ao vizinho e ficar lá uma hora a palrar. É falar alto onde estiver sem dar conta. É  ter o melhor blogguer do concelho, não gostar muito dele, até ele ser alvo de alguma malfeitora feita por alguém de fora. É ter sangue quente na guelra, mas  ainda continuar arrefecido pelos medos vindos da ditadura. É comer uma sardinha assada no quintal, em cima de um pedaço de broa e beber um tinto por um copo cheio directamente do garrafão, com mais gosto e satisfação do que ir ao restaurante.

Ser da Aldeia,  é ter orgulho em sê-lo, mesmo quando se diz o contrário. É ter saudades, quando se está fora, do rio, do mar, da praia, do sol, da comida da avó, da conversa no café e do convívio na esplanada com os amigos. É ter saudades e esquecer. É ser-se nostálgico e ter-se a amnésia selectiva suficiente para, de 4 em 4 anos, esquecer-se que está tudo na mesma, ou pior.

Ser da Aldeia, é ter capacidade de se desenrascar. É estar disponível para ajudar quem vem de fora. É saber que os melhores tiveram de sair, porque é lá fora que se valoriza quem faz melhor. É ter o mar no horizonte e descobrir, sonhar e inventar. É dar valor ao advogado e ao doutor, porque acha que são mais importantes do que ser cozinheiro ou pescador, embora aprecie mais uma caldeirada feita com um bom peixe, do que os tribunais e hospitais.

Ser da Aldeia, é ser pessimista quando as coisas estão mais ou menos, mas optimista quando estão a descambar. É ser humano e por isso ser incoerente. É ser analfabeto, mas ter a experiência de vida suficiente para saber mais que doutores e engenheiros.  É tudo valer a pena porque a nossa alma não é pequena. É ter uma alma grande mas não ter posses para a manter. É acreditar nos políticos. É duvidar de tudo o que se lê...

Ser da Aldeia, é não consentir viver amordaçado, mas de cara limpa e de peito levantado.

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