quarta-feira, 11 de maio de 2016
Só há mortos inadiáveis depois do esquecimento...
"Penafiel vai homenagear, durante o mês de maio, D. António Ferreira Gomes, assinalando o seu 110.º aniversário de nascimento, mentor da publicação do semanário “A Voz Portucalense”, que, nos tempos da ditadura, foi um arauto do combate ousado da liberdade e democracia.
Tema sob o qual decorreu na passada segunda-feira uma conferência com a participação de Ramalho Eanes. Recordo que o jornal era vendido à socapa na livraria Carvalheiro.
Não porque relevasse o carácter religioso do semanário, o facto é que, incapaz de ter acesso a outra informação e opinião, me mantive fiel à sua leitura durante o período de serviço militar passado em África.
Esta recordação remete para outros periódicos que, aqui na Figueira, foram publicados antes e depois da queda do Estado Novo. Desde logo “A Voz da Justiça”, paladino de que José Silva Ribeiro tutelou durante anos com várias interrupções impostas pela censura, mas também, que me recorde, o “Mar Alto” e a “Barca Nova”, veículos de informação partidária e ideológica (mas não só), hoje desaparecidos. Mais recentemente, “A Linha do Oeste”, com outro estilo, sistematicamente crítico e que também não resistiu.
De tal forma mudou o estilo que, se pretenderemos alcançar opinião local estamos reduzidos a dois ou três blogues com qualidade e alguns artigos ou crónicas que, intencionalmente ou não, relevam muito pouco na consideração do poder autárquico."
Nota de rodapé.
A propósito da crónica de opinião "A Voz Portucalense", da autoria do eng. Daniel Santos, recordo um Homem muito importante na minha vida, Manuel Leitão Fernandes, um humanista discreto, com quem dei os primeiros passos no jornalismo, fazendo uma parceria com ele, numa altura em que se encontrava já doente, como correspondentes do jornal “O Diário” na Figueira da Foz.
Lembro-me, como se fosse hoje, o primeiro trabalho que fizemos em equipa: a cobertura da grande cheia no inverno de 1977, no Baixo Mondego. Foi o meu baptismo no mundo fascinante que é o jornalismo.
Cidadão figueirense empenhado no bem comum, dedicou-se, ao longo da sua curta vida, ao associativismo, ao jornalismo e à sua paixão pelo cinema. Registamos a sua activa passagem pelo Ginásio Figueirense, foi correspondente de vários jornais nacionais (Diário Popular, Capital, Record ou O Diário onde tinha excelentes relações), colaborou anos a fio na "Voz da Figueira" onde assinava uma coluna denominada "Quinta Coluna", pertenceu à entusiástica equipa de colaboradores do "Mar Alto" 1ª série, ainda antes do 25 de Abril e foi um dos iniciais cabouqueiros do semanário "Barca Nova".
Manuel Leitão Fernandes possuía uma diversificada biblioteca pessoal e um enorme acervo de documentação cinematográfica. Deve-se a ele e a Manuel Catarino o lançamento das bases do Círculo Juvenil de Cinema em 1970, que envolveu um punhado de jovens estudantes figueirenses que, no "Caras Direitas", viam e debatiam bom cinema de quinze em quinze dias, à tarde. É nesse contexto que irá surgir a Semana Internacional de Cinema e, depois, o Festival de Cinema da Figueira da Foz do qual, Leitão Fernandes, foi membro da Comissão Executiva durante as primeiras edições.
Manuel Leitão Fernandes foi sempre um democrata convicto e na papelaria/livraria Carvalheiro, ali ao Jardim, que possuía em conjunto com a sua mulher Celina Carvalheiro, se juntavam, depois da hora do fecho, pequenas tertúlias conspirativas e de divulgação cultural.
Foi ceifado pela morte aos 47 anos, depois de ter lutado estoicamente com uma doença que continua a não perdoar, em Agosto de 1978.
Tema sob o qual decorreu na passada segunda-feira uma conferência com a participação de Ramalho Eanes. Recordo que o jornal era vendido à socapa na livraria Carvalheiro.
Não porque relevasse o carácter religioso do semanário, o facto é que, incapaz de ter acesso a outra informação e opinião, me mantive fiel à sua leitura durante o período de serviço militar passado em África.
Esta recordação remete para outros periódicos que, aqui na Figueira, foram publicados antes e depois da queda do Estado Novo. Desde logo “A Voz da Justiça”, paladino de que José Silva Ribeiro tutelou durante anos com várias interrupções impostas pela censura, mas também, que me recorde, o “Mar Alto” e a “Barca Nova”, veículos de informação partidária e ideológica (mas não só), hoje desaparecidos. Mais recentemente, “A Linha do Oeste”, com outro estilo, sistematicamente crítico e que também não resistiu.
De tal forma mudou o estilo que, se pretenderemos alcançar opinião local estamos reduzidos a dois ou três blogues com qualidade e alguns artigos ou crónicas que, intencionalmente ou não, relevam muito pouco na consideração do poder autárquico."
Nota de rodapé.
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| A Papelaria Carvalheiro, ficava no início desta rua, frente ao quiosque. |
A propósito da crónica de opinião "A Voz Portucalense", da autoria do eng. Daniel Santos, recordo um Homem muito importante na minha vida, Manuel Leitão Fernandes, um humanista discreto, com quem dei os primeiros passos no jornalismo, fazendo uma parceria com ele, numa altura em que se encontrava já doente, como correspondentes do jornal “O Diário” na Figueira da Foz.
Lembro-me, como se fosse hoje, o primeiro trabalho que fizemos em equipa: a cobertura da grande cheia no inverno de 1977, no Baixo Mondego. Foi o meu baptismo no mundo fascinante que é o jornalismo.
Cidadão figueirense empenhado no bem comum, dedicou-se, ao longo da sua curta vida, ao associativismo, ao jornalismo e à sua paixão pelo cinema. Registamos a sua activa passagem pelo Ginásio Figueirense, foi correspondente de vários jornais nacionais (Diário Popular, Capital, Record ou O Diário onde tinha excelentes relações), colaborou anos a fio na "Voz da Figueira" onde assinava uma coluna denominada "Quinta Coluna", pertenceu à entusiástica equipa de colaboradores do "Mar Alto" 1ª série, ainda antes do 25 de Abril e foi um dos iniciais cabouqueiros do semanário "Barca Nova".
Manuel Leitão Fernandes possuía uma diversificada biblioteca pessoal e um enorme acervo de documentação cinematográfica. Deve-se a ele e a Manuel Catarino o lançamento das bases do Círculo Juvenil de Cinema em 1970, que envolveu um punhado de jovens estudantes figueirenses que, no "Caras Direitas", viam e debatiam bom cinema de quinze em quinze dias, à tarde. É nesse contexto que irá surgir a Semana Internacional de Cinema e, depois, o Festival de Cinema da Figueira da Foz do qual, Leitão Fernandes, foi membro da Comissão Executiva durante as primeiras edições.
Manuel Leitão Fernandes foi sempre um democrata convicto e na papelaria/livraria Carvalheiro, ali ao Jardim, que possuía em conjunto com a sua mulher Celina Carvalheiro, se juntavam, depois da hora do fecho, pequenas tertúlias conspirativas e de divulgação cultural.
Foi ceifado pela morte aos 47 anos, depois de ter lutado estoicamente com uma doença que continua a não perdoar, em Agosto de 1978.
Disse um dia Passos Coelho - "Governo seco, enxuto, disciplinador e frugal"!.. *
"Lembram-se da trupe que anda sempre a reclamar por menos Estado? Menos dinheiro dos contribuintes, como costumam dizer, para isto e para aquilo?
Esqueçam.
Habituados à mama dos negócios à conta do Estado, agora choram porque um governo decidiu cortar nas gorduras. Mas mesmo nas gorduras e não nos salários e nas pensões, como fizeram esses que antes anunciaram cortes nas gorduras.
Há a possibilidade real do Estado reduzir a despesa, cortando em serviços de que não precisa – as escolas privadas onde há oferta pública. E que dizem os liberais do encosto ao Estado? Que não pode ser, pois precisam de liberdade de escolha. Como sabem, liberdade implica responsabilidade, logo peguem na carteira e assumam a liberdade da sua escolha. Tenho a certeza de que ninguém os impedirá.
O que está em causa é algo diferente. É a concepção de que o “dinheiro dos contribuintes” deverá ser gasto para proporcionar escolas de luxo a quem conseguir nelas ser aceite, em detrimento da ralé que se deve contentar com um serviço público onde a escola não passa de um depósito de crianças.
Porque é de segregação que se trata. Vejamos, se as escolas privadas não seleccionarem os alunos, todos os pais as poderão escolher e, num ápice, a escola privada em nada deferirá da escola pública. As escola privada é diferente porque tem a capacidade de seleccionar os alunos que vai aceitar, residindo neste aspecto o maior factor de sucesso nos famosos rankings.
Não se julgue que é algo de novo, pois é o que existe nas sociedades modelo destes liberaizinhos, como UK e USA.
A campanha da direita habituada aos negócios assegurados pelo Estado está na estrada. Pouco lhe importa as contradições ideológicas, como quando nuns casos defendem menos Estado, mas noutros, como neste dos colégios privados, defendem mais Estado, para pagar esses colégios. Que se salvem os colégios privados, sejam ou não precisos no sistema educativo.
Outra coisa fantástica é o recurso aos tribunais para travar a redução de despesa do Estado. Há coisas fantásticas, não há? Vamos falar de rendas?
Como diria Pinóquio Coelho, habituem-se. Saiam da zona de conforto. Olhem, emigrem."
- Texto de j. manuel cordeiro, via Aventar. * Título sacado daqui.
Em tempo.
ANTÓNIO ROCHETTE. Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi convidado pelo Ministério da Educação de Isabel Alçada, em 2011, para fazer o estudo “Reorganização da rede do ensino particular e cooperativo com contrato de associação”.
Em 2011, a então ministra da Educação, Isabel Alçada, pediu um estudo à Universidade de Coimbra para saber se havia turmas no privado que estavam a ser financiadas pelo Estado apesar de haver oferta disponível em escolas públicas próximas. António Rochette foi o autor do estudo que concluiu que era possível cortar esses contratos de associação em 80% dos colégios. Cinco anos depois recorda ao Expresso Diário as pressões que sentiu. “Fui linchado, fui enxovalhado nas redes sociais, nos jornais. Até mata-frades me chamaram”.
Esqueçam.
Habituados à mama dos negócios à conta do Estado, agora choram porque um governo decidiu cortar nas gorduras. Mas mesmo nas gorduras e não nos salários e nas pensões, como fizeram esses que antes anunciaram cortes nas gorduras.
Há a possibilidade real do Estado reduzir a despesa, cortando em serviços de que não precisa – as escolas privadas onde há oferta pública. E que dizem os liberais do encosto ao Estado? Que não pode ser, pois precisam de liberdade de escolha. Como sabem, liberdade implica responsabilidade, logo peguem na carteira e assumam a liberdade da sua escolha. Tenho a certeza de que ninguém os impedirá.
O que está em causa é algo diferente. É a concepção de que o “dinheiro dos contribuintes” deverá ser gasto para proporcionar escolas de luxo a quem conseguir nelas ser aceite, em detrimento da ralé que se deve contentar com um serviço público onde a escola não passa de um depósito de crianças.
Porque é de segregação que se trata. Vejamos, se as escolas privadas não seleccionarem os alunos, todos os pais as poderão escolher e, num ápice, a escola privada em nada deferirá da escola pública. As escola privada é diferente porque tem a capacidade de seleccionar os alunos que vai aceitar, residindo neste aspecto o maior factor de sucesso nos famosos rankings.
Não se julgue que é algo de novo, pois é o que existe nas sociedades modelo destes liberaizinhos, como UK e USA.
A campanha da direita habituada aos negócios assegurados pelo Estado está na estrada. Pouco lhe importa as contradições ideológicas, como quando nuns casos defendem menos Estado, mas noutros, como neste dos colégios privados, defendem mais Estado, para pagar esses colégios. Que se salvem os colégios privados, sejam ou não precisos no sistema educativo.
Outra coisa fantástica é o recurso aos tribunais para travar a redução de despesa do Estado. Há coisas fantásticas, não há? Vamos falar de rendas?
Como diria Pinóquio Coelho, habituem-se. Saiam da zona de conforto. Olhem, emigrem."
- Texto de j. manuel cordeiro, via Aventar. * Título sacado daqui.
Em tempo.
ANTÓNIO ROCHETTE. Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi convidado pelo Ministério da Educação de Isabel Alçada, em 2011, para fazer o estudo “Reorganização da rede do ensino particular e cooperativo com contrato de associação”.
Em 2011, a então ministra da Educação, Isabel Alçada, pediu um estudo à Universidade de Coimbra para saber se havia turmas no privado que estavam a ser financiadas pelo Estado apesar de haver oferta disponível em escolas públicas próximas. António Rochette foi o autor do estudo que concluiu que era possível cortar esses contratos de associação em 80% dos colégios. Cinco anos depois recorda ao Expresso Diário as pressões que sentiu. “Fui linchado, fui enxovalhado nas redes sociais, nos jornais. Até mata-frades me chamaram”.
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