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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

À memória do Capitão Álvaro Abreu da Silva recentemente falecido...

FALECEU O CAPITÃO FIGUEIRENSE ÁLVARO ABREU DA SILVA, UM DOS ÚLTIMOS CAPITÃES PORTUGUESES DA PESCA LONGÍNQUA DO BACALHAU À LINHA; PIONEIRO DA TRANSFORMAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO DESUMANAS DOS PESCADORES PORTUGUESES DESSA PESCA; E ASSOCIADO HONORÁRIO DO CENTRO DE ESTUDOS DO MAR (CEMAR)
Diário de Coimbra de 18.1.2018

O Centro de Estudos do Mar e das Navegações Luís de Albuquerque (CEMAR) cumpre aqui a obrigação de anunciar a triste notícia do falecimento do seu Associado Honorário, e figura significativa da História Marítima portuguesa e da Foz do Mondego, o Capitão figueirense Álvaro Abreu da Silva, que nos anos 60 do século XX foi um dos últimos capitães portugueses da pesca longínqua do bacalhau à linha, e teve o mérito de ter sido pioneiro da transformação das condições de trabalho desumanas dos pescadores portugueses desse tipo específico de pesca.
Álvaro Abreu da Silva nasceu em 1933 na praia da Vieira de Leiria, numa família numerosa e proprietária de uma das "Artes" (pesca de cerco e alar para terra) da pesca local. Completou os estudos liceais na Figueira da Foz, onde desde a adolescência começou a praticar vela e a participar em regatas.
Fez a sua formação em Lisboa na Escola Náutica, e aí terminou o curso de Pilotagem em Julho de 1957. Logo no mês seguinte realizou o seu sonho de embarcar, como piloto, para o mar alto. Depois de experimentada a pesca de arrasto lateral, onde chegou a fazer duas viagens num só ano (desde logo em onze meses no mar), passou em 1960 para a pesca longínqua do bacalhau à linha, nos mares da Terra Nova e da Gronelândia (no navio "Senhora do Mar", do Porto), e ficou chocado com a vida duríssima dos homens dos dóris. Desiludido com essa experiência, voltou nesse mesmo ano à pesca de arrasto, como imediato, nos litorais africanos do Cabo Branco e da Mauritânia. Aí, em 1961, desempenhou pela primeira vez funções de Capitão.
Comandou, portanto, então, em 1961, um navio de pesca português nos mesmos litorais africanos que haviam sido os litorais reconhecidos pelos Portugueses quinhentos e vinte anos antes (no século XV, em 1441), exactamente ao mesmo tempo em que em Portugal (nesse mesmo ano de 1961) estavam a acabar de ser orquestradas e oficiadas as grandes Comemorações oficiais desses tais "Descobrimentos Portugueses" (os ditos "Descobrimentos Henriquinos" [sic], no Cabo Branco e na Mauritânia…), por ordem dos dirigentes políticos portugueses do regime desse tempo (1960-1961): uns Exos. Srs. chamados Prof. Doutor Oliveira Salazar (Universidade de Coimbra), Alm. Américo de Deus Rodrigues Thomaz, etc., em pomposos cortejos litúrgicos e em anedóticos rituais que foram trombeteados em Sagres (!), Tomar, Viseu, Lisboa, etc..
Quer isso dizer que, nesses mesmos anos de 1960-1961 (que, para alguns, foram anos de celebrações bizantinas, e para outros foram anos de trabalho regular), aconteceu a situação espantosa e impressionante de que quem efectivamente estava a navegar e a comandar um navio português nos litorais inóspitos e desérticos do Saara, no Cabo Branco e na Mauritânia — os litorais cuja navegação oceânica havia sido iniciada na década de 40 do século XV pelos navegadores Nuno Tristão, Gomes Pires, Álvaro Fernandes e outros, nas navegações portuguesas ordenadas nessa década de 40 em que o Regente de Portugal foi o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra e Senhor de Montemor-o-Velho, Buarcos (Foz do Mondego), Mira, Aveiro, Ílhavo, etc. — continuou a não ser ninguém proveniente de Sagres, ou de Viseu... e foi sim um jovem Capitão português que, por acaso, era proveniente da Beira Litoral… da Foz do Mondego…
E esse trabalho foi feito ao mesmo tempo que o Doutor Salazar (UC) e o Alm. Américo Thomaz, em terra, celebraram as anedóticas mentiras políticas da "Escola de Sagres", etc., etc..
A História, ainda que paradoxal, é sempre exemplar, para quem for capaz de a escutar.
No ano seguinte, de 1962, Álvaro Abreu da Silva teve que voltar à pesca à linha, como imediato, num navio de Lisboa. Em 1965, foi pela primeira vez, como imediato, no navio "José Alberto", da Figueira da Foz. Mas dois anos depois (em 1967), nesse mesmo navio de quatro mastros "José Alberto" (o mais célebre dos navios figueirenses), e então já como Capitão, foi Álvaro Abreu da Silva que comandou a viagem à Terra Nova e à Gronelândia no decorrer da qual veio a ser filmado pela National Geographic Society o filme documentário "The Lonely Dorymen" [Os Solitários Homens dos Dóris] (1968), o melhor filme desse tipo sobre a pesca longínqua do bacalhau à linha (a pesca que os Portugueses, anacronicamente, em pleno século XX, continuavam a praticar, em condições absolutamente desumanas, com um homem sozinho em cada dóri, no Árctico, usando tecnologias pouco mais do que medievais).
Se este capitão figueirense não tivesse aceitado (na verdade, querido aceitar) essa equipa de reportagem a bordo do seu navio — precisamente para levar ao mundo a revelação do que era aquela incrível realidade… —, esse documento, único e irrepetivel, em plena década de 60 do século XX, não teria ficado, para sempre, à disposição do olhar dos vindouros. Assim, ficou.

Em 1972, considerando cada vez mais difícil de justificar tanto sofrimento e sacrifício dos homens dos dóris (sozinhos durante tantas horas a bordo de botes tão pequenos em pleno Mar Árctico), Álvaro Abreu da Silva teve um papel decisivo na grande e inédita revolução então operada: conseguiu convencer o armador a um plano de renovação da modalidade de pesca, que deixou de usar botes e linhas e passou a usar redes de emalhar (sem que os pescadores tivessem que sair do navio, que passou a ser aquecido interiormente, com as redes de emalhar largadas e recolhidas pelo próprio navio, e o trabalho dos homens realizado por turnos).
Álvaro Abreu da Silva considerou essa transformação das condições de trabalho como uma sua grande realização, e disso sempre se orgulhou. Em 1985 fez a sua última viagem, e reformou-se. Teve a felicidade de nunca ter perdido um só homem das suas tripulações, ao longo de toda a sua vida profissional (e com isso também sempre se alegrou).
Em 1998, na companhia do historiador autodidacta local Manuel Luís Pata, e de outros, foi o Capitão Álvaro Abreu da Silva que fez ouvir a sua voz em defesa da tentativa (que, no entanto, veio a revelar-se inglória…) de a Figueira da Foz conseguir salvar da sucata o seu último navio da pesca longínqua do bacalhau (o navio, chamado "Sottomaior", que, depois, veio a chamar-se "José Cação"). O próprio Álvaro Abreu da Silva havia comandado esse navio, no passado; e o tipo de embarcação de que se tratava, e as transformações pioneiras por que havia passado, serviriam exemplaremente para o fim museológico que se pretenderia. Mas, infelizmente, a salvaguarda desse último exemplar de Património Cultural Marítimo figueirense, e a paralela criação, logo então, do Museu do Mar (que nesta cidade da Foz do Mondego já era ansiada desde há tantas décadas), não foram então possíveis.
O navio foi para a sucata, e o Museu do Mar ainda hoje continua sem ter sido criado.
Não há dúvida de que, quando esse Museu for criado (e ele vai ter que ser criado, mais cedo ou mais tarde), a memória de Álvaro Abreu da Silva vai ter que ser lá evocada (tal como as memórias de João Pereira Mano, ou de Manuel Luís Pata).
O Centro de Estudos do Mar, em Março de 2008, por decisão da sua assembleia geral realizada na Praia de Mira, passou a ter como os seus dois primeiros Associados Honorários os dois Capitães portugueses do século XX que tão bem representavam as gerações de homens do mar que, secularmente, saíram para o mundo pela Foz do Mondego: o Capitão João Pereira Mano, capitão da Marinha Mercante, e autor principal da História Marítima figueirense (cujos livros foram todos publicados pela nossa associação científica) e o Capitão Álvaro Abreu da Silva, capitão da Marinha de Pesca, nascido na Praia da Vieira, e figueirense por adopção.
Nessa ocasião, em 2008, foi organizada uma Homenagem a Álvaro Abreu da Silva e a Manuel Luís Pata, na Praia de Mira, pelo Centro de Estudos do Mar e a Câmara Municipal de Mira, e foi publicada a tradução portuguesa, pelo CEMAR, do texto do filme "The Lonely Dorymen" [Os Solitários Homens dos Dóris] (USA, NGS, 1968).
Actualmente está em curso o projecto, dinamizado pelo CEMAR, no sentido de se tentar editar uma edição digitalizada desse filme de 1968 protagonizado por este Capitão figueirense, a sua tripulação, e o seu navio.

Texto: Centro de Estudos do Mar - CEMAR

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