A leitura de Saramago e de todos os escritores que nos contam o que foi Portugal debaixo da ditadura é mais do que obrigatória. É vital para quem não quer ser parte de um rebanho.
Um dos livros mais marcantes - e
belos - de José Saramago é Levantado do Chão. A saga dos Mau-Tempo repete-se infinitamente na pobreza e repressão do Estado Novo
no Alentejo. Repete-se na realidade
e na ficção de autores primordiais
como Manuel da Fonseca, Régio, José Rodrigues Miguéis, Fialho de Almeida, Antunes da Silva, Urbano Таvares Rodrigues.
Saramago escreve, na sua fusão
estética e literária entre o neorrealismo e o modernismo, com rara beleza, densidade humana e poética, sobre a luta de um povo para se libertar
da fome, do autoritarismo, do Estado, da opressão dos latifundiários.
Levantado do Chão é um livro
obrigatório para qualquer português
interessado em ser mais do que matéria-prima do algoritmo. E essencial para a aprendizagem da dignidade humana. Vital para quem não
quer ser parte de um rebanho obediente. Tal como Cerromaior, ou a
Seara de Vento, adaptados ao cinema pelo talento de Luís Filipe Rocha e Sérgio Tréfaut.
Em Cerromaior (1980), Luís Filipe
Rocha dá uma lição sobre como a
beleza de cada fotograma é indispensável para retratar o trabalho
agrícola, a crueldade, a violência sobre as mulheres, a mesquinhez de
um poder medieval.
Livros e filmes mostram-nos muito do que existiu - e ainda existe -
para lá de uma certa visão burguesa da realidade histórica, mas, sobretudo, da espessa cortina de fumo
tóxico criada pelo mundo digital. O
tal mundo das redes sociais, dos algoritmos, da ideia de que chegamos
a tudo, que tudo nos chega num clique, das plataformas, da padronização do gosto, do maniqueísmo polarizador, da desinformação, da ausência de memória, da fuga a todas
as formas de exigência na leitura,
na aprendizagem e no enriquecimento cultural.
Nunca como hoje é tão ilusória a
sensação de que sabemos tudo, ou
quase tudo. De que o mundo está ao
alcance da nossa mão. De que as redes nos levam a todos os cantos do
mundo. Elas só são um bom instrumento de trabalho para quem possui, pelo conhecimento e cultura, a
capacidade de validar o que lhe é
servido no ecrã. Só esses, pelo pensamento analítico e crítico, pelas leituras exigentes, pela capacidade de alimentar uma autonomia intelectual, podem usá-las em proveito
próprio. Todos os outros são apenas
matéria-prima conduzida pelos engenheiros do caos, da manipulação
e da desinformação. Por isso, Saramago, Miguéis, Manuel da Fonseca,
Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz,
Vergílio Ferreira são tão essenciais.
Por isso é tão importante continuara
fazer a pedagogia da sua leitura, nas
escolas e fora delas, por todo o lado
e em todas as gerações. Por isso é
tão importante travar esta ideia absurda, por inaceitavelmente desvalorizadora, de que Saramago, sendo
um escritor "de referência", como
disse o ministro da Educação, Fernando Alexandre, está submetido a
uma escolha de "dimensão puramente técnica", como também disse, para continuar ou não a ser leitura obrigatória para os alunos do 12º
ano. Tratar a questão assim, como se
fosse um tema administrativo ou
burocrático, é um atropelo à cultura
e a uma ideia de memória histórica e
literária. Também ao autor, ainda
hoje um espectro que incomoda demasiadas cabeças. Nunca foi tão
importante ler e conhecer a história
dos Mau-Tempo.