quarta-feira, 8 de abril de 2026

Mau-Tempo

A leitura de Saramago e de todos os escritores que nos contam o que foi Portugal debaixo da ditadura é mais do que obrigatória. É vital para quem não quer ser parte de um rebanho.

Eduardo Dâmaso, Revista Sábado

Um dos livros mais marcantes - e belos - de José Saramago é Levantado do Chão. A saga dos Mau-Tempo repete-se infinitamente na pobreza e repressão do Estado Novo no Alentejo. Repete-se na realidade e na ficção de autores primordiais como Manuel da Fonseca, Régio, José Rodrigues Miguéis, Fialho de Almeida, Antunes da Silva, Urbano Таvares Rodrigues.

Saramago escreve, na sua fusão estética e literária entre o neorrealismo e o modernismo, com rara beleza, densidade humana e poética, sobre a luta de um povo para se libertar da fome, do autoritarismo, do Estado, da opressão dos latifundiários. Levantado do Chão é um livro obrigatório para qualquer português interessado em ser mais do que matéria-prima do algoritmo. E essencial para a aprendizagem da dignidade humana. Vital para quem não quer ser parte de um rebanho obediente. Tal como Cerromaior, ou a Seara de Vento, adaptados ao cinema pelo talento de Luís Filipe Rocha e Sérgio Tréfaut.

Em Cerromaior (1980), Luís Filipe Rocha dá uma lição sobre como a beleza de cada fotograma é indispensável para retratar o trabalho agrícola, a crueldade, a violência sobre as mulheres, a mesquinhez de um poder medieval. Livros e filmes mostram-nos muito do que existiu - e ainda existe - para lá de uma certa visão burguesa da realidade histórica, mas, sobretudo, da espessa cortina de fumo tóxico criada pelo mundo digital. O tal mundo das redes sociais, dos algoritmos, da ideia de que chegamos a tudo, que tudo nos chega num clique, das plataformas, da padronização do gosto, do maniqueísmo polarizador, da desinformação, da ausência de memória, da fuga a todas as formas de exigência na leitura, na aprendizagem e no enriquecimento cultural.

Nunca como hoje é tão ilusória a sensação de que sabemos tudo, ou quase tudo. De que o mundo está ao alcance da nossa mão. De que as redes nos levam a todos os cantos do mundo. Elas só são um bom instrumento de trabalho para quem possui, pelo conhecimento e cultura, a capacidade de validar o que lhe é servido no ecrã. Só esses, pelo pensamento analítico e crítico, pelas leituras exigentes, pela capacidade de alimentar uma autonomia intelectual, podem usá-las em proveito próprio. Todos os outros são apenas matéria-prima conduzida pelos engenheiros do caos, da manipulação e da desinformação. Por isso, Saramago, Miguéis, Manuel da Fonseca, Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Vergílio Ferreira são tão essenciais. Por isso é tão importante continuara fazer a pedagogia da sua leitura, nas escolas e fora delas, por todo o lado e em todas as gerações. Por isso é tão importante travar esta ideia absurda, por inaceitavelmente desvalorizadora, de que Saramago, sendo um escritor "de referência", como disse o ministro da Educação, Fernando Alexandre, está submetido a uma escolha de "dimensão puramente técnica", como também disse, para continuar ou não a ser leitura obrigatória para os alunos do 12º ano. Tratar a questão assim, como se fosse um tema administrativo ou burocrático, é um atropelo à cultura e a uma ideia de memória histórica e literária. Também ao autor, ainda hoje um espectro que incomoda demasiadas cabeças. Nunca foi tão importante ler e conhecer a história dos Mau-Tempo.

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