terça-feira, 7 de abril de 2026

Unidade Local de Saúde do Baixo Mondego assinala hoje o Dia Mundial da Saúde

 via Diário as Beiras

Criminalidade violenta e grave diminuiu 10,4% no distrito

 Via Diário as Beiras


Uma "estrela" não desiste - resiste

Desde a descoberta da roda que está tudo inventado, por isso o fascínio por Ventura é facilmente explicável...

Segundo a Junta de Freguesia de São Julião, a iniciativa “Jardim da Páscoa” levou milhares de pessoas ao longo dos quatro dias ao Jardim Municipal

A Junta de Freguesia de São Julião, em nota de imprensa, fez balanço positivo da primeira edição do Jardim da Páscoa, que se realizou no Jardim Municipal da Figueira da Foz, reunindo, ao longo de quatro dias, vários milhares de pessoas. 

“O Jardim da Páscoa apresentou uma instalação temática cuidadosamente preparada, com diversos elementos alusivos à quadra, proporcionando um ambiente acolhedor e apelativo para famílias, visitantes e toda a comunidade”, informa a nota de imprensa. E a seguir sublinha: "ao longo dos quatro dias, os mais pequenos puderam desfrutar de um conjunto diversificado de atividades”. Por outro lado, "as noites foram animadas por bandas e djs figueirenses"

A iniciativa “destacou-se pela forte adesão do público, afirmando-se como um verdadeiro ponto de encontro intergeracional e um momento de partilha e celebração na freguesia”, pode ler-se ainda na nota de imprensa emitida pela Junta de Freguesia de S. Julião.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"Trump está a perder a guerra e a levar o mundo para uma recessão inimaginável. Timothy Snyder admite que as eleições intercalares sirvam a Trump para instaurar uma ditadura. Há histórico"

"E se Trump quiser um golpe de Estado para se tornar ditador?"

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Saramago, a revisão curricular ou a diluição do Nobel da Literatura

"De boas intenções está o inferno cheio", diz o povo. E diz bem.

António Carlos Cortez
... esta revisão curricular, ao diluir José Saramago, o único Nobel da nossa língua e literatura, o que faz é despromover a própria Literatura e a língua, o seu ensino consciente e exigente. Tudo por trás de uma outra ideia em voga de há 20 e muitos anos a esta parte: a de que ensinar é avaliar. Perniciosa ideia porque, no fundo, é de grelhas, é de horizontes de proficiência, é de mero utilitarismo e é de facilitismo – os exames de Português sem verdadeira testagem da expressão escrita e da análise literária provam-no à saciedade – que, uma vez mais, teremos de falar.

E porquê? Justamente porque José Saramago – tal como Vergílio Ferreira, cujo romance Aparição desapareceu dos programas e era, sem dúvida, das mais belas experiências estéticas que um adolescente podia ter! – é daqueles autores que pede que, antes de um leitor entrar no seu universo romanesco tenha atrás de si um cabedal de leituras (de ensaio, de romances, de textos de História e de História das Ideias) que – todos sabemos disso – nenhum aluno tem ao chegar ao 12.º ano. Nenhum aluno e, a bem da verdade, poucos professores.

Resultado: esta revisão curricular, que coloca Cesário Verde no 12.º ano, mas faz desaparecer Herberto Helder, é apenas uma declaração de boas intenções para que, em maior ou menor grau, tudo fique na mesma. Com uma agravante: sem a prosa de Saramago como conteúdo "obrigatório", é óbvio que muitas escolas não irão optar pelo Nobel da Literatura. E eis-nos num outro lado do problema: a formação de professores e a subsequente qualidade das aulas.

Por que razão não é Saramago um autor a ler, como se deve exigir que o seja? Porque, na verdade, na formação de professores de Português o que se faz é pensar a avaliação, em vez de se pensar em como leccionar, como analisar, como escrever e como ensinar a escrever e a pensar sobre textos complexos.

Como é que eu posso ajudar a ler, a fruir a leitura de um romance como Memorial do Convento; com que ensaios poderei auxiliar os alunos a compreenderem obra tão magistralmente bela? E o mesmo que digo sobre os romances de Saramago, digo-o para autores que esta revisão sugere que sejam lidos: Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, António Ramos Rosa, Fiama, Luís Filipe Castro Mendes... Com muitos professores a entrarem na profissão sem uma formação científica sólida, é claro que Saramago (como Gil Vicente e Camões, como os trovadores ou como… Pascoaes, ou Cesário), sempre constituiria um obstáculo difícil de transpor. Mas é essa a missão da escola – e já agora da formação de professores! Isto é: pensar o que é difícil e avaliar na medida exacta em que estamos a formar gerações que queremos que tenham "pensamento crítico".

Mas se tudo na escola e na formação de professores é uma mistificação (haverá excepções, bem sei, cada vez mais excepcionais, decerto) o ponto é só um: fará sentido que um romance (seja ele o Memorial do Convento, seja ele O Ano da Morte de Ricardo Reis) do nosso único Nobel da Literatura passe a ser opcional no último ano do Secundário? Não, não faz. E não faz porque para se ler Saramago, como para ler qualquer escritor maior da nossa cultura, o estudante português teria de ter aprendido a pensar a obra de arte literária e, subsequentemente, a escrever bem sobre o texto literário e, por inerência, a escrever bem porque, de forma natural, teria apreendidas as estruturas sintáctica e semântica, morfo-sintáctica e morfo-semântica da língua portuguesa.

Sucede, todavia, que hoje, à saída do 12.º ano, a maioria dos estudantes nada teve de ler para chegar ao 12.º ano. Comentar um poema, um trecho de um romance, uma peça de teatro, seja de que autor for, isso é exercício raríssimo de se praticar nas aulas de 2026. Pejadas de jogos didácticos e de infantilidades avaliativas, verdadeiros espaços onde grassa a indisciplina e a ditadura digital, Saramago passa a ser opcional porque, em bom rigor, a Cultura na escola é opcional também. E o mesmo se diga na formação de professores, viveiro de tanto absurdo."

«... é impossível olhar para a Terra, e depois para o resto do jornal, e não dizer "Que mal que se portam os micróbios!".»

 Os micróbios escondidos

"Como olheiro veterano do nosso planeta, tenho de confessar que a Terra já não é o que era em 1968, quando foi fotografada a 21 de Dezembro pelo astronauta William Anders."

"O André Ventura usou todas as formas de mentira"

O comentador da CNN Portugal diz que André Ventura utilizou "todas as formas de mentira" durante o seu discurso no Parlamento a propósito dos 50 anos da Constituição e quer a realização de um debate sobre os temas abordados com o presidente do Chega.

Para ouvir clicar aqui.

André Ventura: tens coragem para aceitar o desafio de José Pacheco Pereira?


Quinto Molhe: depois de décadas um inverno tranquilo

A ocupação desordenada do litoral contribuiu para situações de desequilíbrios e fenómenos de erosão costeira que têm vindo a pôr em causa a segurança de pessoas e bens.

Foi o que aconteceu  a sul do porto da Figueira da Foz,  depois das obras do prolongamento do molhe norte em 400 metros,  onde nos últimos anos se agravaram os efeitos erosivos a sul do "Quinto Molhe".
Por aqui, nesta outra margem, a protecção da Orla Costeira Portuguesa foi uma necessidade de primeira ordem, desde que conheceu a luz do dia - já lá vão quase 20 anos.

Neste blogue, já em 2006, andávamos a fazer alertas para o estado em que se encontrava a duna logo a seguir ao chamado “Quinto Molhe”, a sul da Praia da Cova.
Escrevemos, então que, "por vezes, ao centrar-se a atenção sobre o acessório, perdia-se a oportunidade de resolver o essencial..."
Foi o que aconteceu.

Hoje, depois de anos e anos de alertas e preocupações sinto-me mais aliviado: as dunas a sul do quinto molhe, desfeitas pela natureza e pelos erros cometidos pelos homens, foram refeitas.
Só é vencido quem desiste de lutar por aquilo em que acredita. 

A Liberdade é isto - mesmo que a justiça não seja realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e ainda pode contribuir para salvar a Aldeia...

The Deepest Why: promotores reuniram-se com Santana Lopes para “esclarecer dúvidas e alinhar visões”

 Via Diário as Beiras

"Qualquer imbecil começa uma guerra, cem homens sábios não chegam para acabá-la" *

«Donald Trump ameaçou este sábado “fazer desabar o inferno” sobre o Irão se o regime de Teerão não aceitar negociar e libertar o estreito de Ormuz até amanhã à noite. “Lembrem-se que eu dei 10 dias ao Irão para fazer um acordo e abrir o estreito de Ormuz. O tempo está a esgotar-se: faltam 48 horas para o inferno desabar sobre eles. Glória a Deus”, escreveu na plataforma Truth Social.
Recorde-se que no passado dia 21 de março o presidente dos EUA ameaçou arrasar as infraestruturas energéticas iranianas se Teerão não aceitasse um acordo no prazo de 48 horas. Esse prazo foi depois prolongado por cinco dias, até 28 de março, após, segundo Trump, os dois países terem mantido “negociações construtivas”. Um dia antes desse prazo expirar, a 27, o presidente dos EUA anunciou que seria prolongado por mais 10 dias, até às 20h00 de segunda-feira, dia 6 (01h da madrugada de terça-feira em Lisboa).
Nestas duas semanas, a posição de Trump sobre o estreito de Ormuz variou entre as ameaças diretas ao Irão se não levantasse o bloqueio ou a sugestão de que poderia dar por terminada a guerra sem resolver o problema, chegando mesmo a instar os aliados europeus a "ganharem coragem" e "irem eles próprios buscar o petróleo" de que precisam. Ainda na sexta-feira à noite. tinha escrito na plataforma Truth Social que seria "muito fácil reabrir o estreito, tirar o petróleo e fazer uma fortuna"
 Esta frase é atribuída a Nikita Khrushchev. 
A análise objectiva, de uma pessoa que saiba contar, ler e avaliar com um mínimo de bom senso, nos primeiros dias de abril de 2026, dá conta que estamos no meio de uma guerra começada por dois imbecis, que ninguém parece conseguir parar.

A “descida à Terra” de Francisco Rodrigues dos Santos

Entre o filho, os fantasmas que conhece “pelo nome próprio” e a política, Chicão aprendeu a duvidar. Pelo caminho, reviu convicções e sentiu-se acolhido onde “não esperava ter esta partilha de amor”.
A mancha é quase imperceptível, mas o olho de um fotógrafo está treinado para os detalhes. Ao enquadrar o modelo daquela manhã, o fotojornalista do PÚBLICO Nuno Ferreira Santos fixa-se no ombro de Francisco Rodrigues dos Santos, que se justifica como qualquer pai de uma criança de três anos: “Deve ter sido o Zé Pedro, quando o fui levar à escola." Referir o nome do filho nos primeiros segundos de uma interacção não podia ser mais revelador da longa conversa que iria ter pouco depois. Afinal, o nascimento de um filho pode mudar a visão de um homem sobre o mundo e, para Francisco Rodrigues dos Santos, mais conhecido por Chicão, o José Pedro foi mesmo um ponto de viragem. 
É um lugar-comum, mas eles existem por isso mesmo. Naquele 18 de Dezembro de 2022, partilhou a notícia publicamente. "Ser pai é descobrir que ainda é possível mudar o mundo," escreveu, num post no Instagram. Passado o cliché de "amor irredutível e  inalienável", Francisco realça que, ao descobrir a "empatia incondicional" que surge com os estados de alma, pensamentos e vontades de um filho, também chegou a outro lugar: o questionamento.
"Vivemos num tempo muito maniqueísta, altamente dogmático, de certezas absolutas, e o filho ensina-nos a colocarmo-nos em causa e a aprendermos a cultivar a dúvida", explica. 
- Hoje não tens certezas absolutas? 
- A ciência avança quando procuramos o cisne negro. Há um consenso, quase canónico, de que todos os cisnes são brancos, mas só evoluímos quando o pomos em causa. Tenho convicções que norteiam a minha vida. Se estou disponível para as questionar? Todos os dias. Mas não sou relativista... 
- Mas não estavas disponível? 
- Estava menos do que estou hojе.

O sofrimento que diz ter sentido em algumas fases da vida também o impeliu a querer saber mais e a lidar com ele. Apesar disso, assume que não faz terapia - "já devia ter feito" -, mas quer fazer, e entoa uma música de Pedro Abrunhosa: "Quem me leva aos meus fantasmas?" 
- Houve alturas na vida que eu não queria que me levassem aos meus fantasmas. Guardei-os numa caixinha, sei quem eles são, conheço-os pelo nome próprio. Reconheço que eles continuam a pairar sobre a minha vida, mas não me quero confrontar com eles
-Tens medo... 
-...do que eles me possam dizer
A propósito do caminho que está a fazer, cita José Saramago - "é preciso sair da ilha para ver a ilha" -, e conta que o ter-se "distanciado das bolhas partidárias e das trincheiras políticas", parar e respirar, permitiu-lhe "ter uma visão autocrítica" sobre os seus valores. 
Confirmou uns, firmou outros e diz que percebeu que o facto de assentar o pensamento em certos princípios não significa que "chegue às mesmas conclusões".

A “descida à Terra” de Francisco Rodrigues dos Santos, é um trabalho de Filipe Santa-Bárbara (texto) e Nuno Ferreira dos Santos (fotografia), que pode ser lido na íntegra na edição de ontem do jornal Público.

domingo, 5 de abril de 2026

Montenegro disse que estamos melhor. O que é que vocês pensam? Não dei por nada. Será que ando muito distraído?

Montenegro, há três dias, informou-me que "o país está melhor e os portugueses também estão melhor, após dois anos de governo AD, o País está melhor"

Provavelmente, só ele e os seus aficcionados é que deram por isso. 

Por mim falo, quando vou ao supermercado, quando encho o depósito, segundo sei por quem tenta arranjar uma casa, ou quando tento arranjar resposta no SNS, penso exatamente o contrário: o País está pior

"Os portugueses quiseram a mudança, acreditaram que era possível fazer mais e deixar de adiar o futuro. Hoje, o país está melhor e os portugueses também estão melhor", disse.

O chefe do Governo indicou ainda que houve uma aposta "num Estado mais ágil, mais leve, focado em servir melhor os cidadãos e as empresas, que combate a burocracia por dentro e elimina os bloqueios e a desconfiança".

Vocês deram por alguma coisa?

Afinal, as leis contra os ciganos começaram em 1509, com D. Manuel I

Via Público

"Descoberta, diz historiador Francisco Mangas, é mais um estímulo para estudar presença cigana em Portugal.

Os investigadores lembram que D. Manuel I ordenou a expulsão dos judeus no dia 5 de Dezembro de 1496. Essa foi uma exigência dos reis católicos de Espanha para que o monarca pudesse casar-se com infanta D. Isabel. 

Fernando de Aragão e Isabel de Castela assinaram a primeira grande lei de expulsão dos ciganos no dia 4 de Março de 1499. Não há notícia de que tenham forçado D. Manuel I a fazer o mesmo, mas a sua prática pode ter influenciado. "É no mesmo contexto, no mesmo quadro mental", remata Francisco Mangas. 

Os ciganos, como os judeus e os cristãos-novos, eram uma minoria a erradicar quando se estava a formar a ideia de Estado-nação."

NOVA FÁBRICA DE COMBUSTÍVEL "VERDE" PARA AVIAÇÃO NA MARINHA DAS ONDAS

Comunicado dos vereadores do PS na Câmara Municipal


«Na reunião de Câmara do passado dia 2 de abril, foi apresentada pelo executivo camarário uma proposta de alteração do Plano Diretor Municipal (PDM), na freguesia da Marinha das Ondas, para alteração de uma parcela de cerca de 28ha de solo rústico para urbano, para instalação de uma fábrica de combustível “verde” para aviação.

Os vereadores do PS na Câmara Municipal, votaram a favor desta alteração do PDM, que foi aprovada por unanimidade, porque querem para o concelho mais indústria, reforçando o tecido económico, com mais riqueza e postos de trabalho. Todavia, querem indústria sustentável, não só ao nível económico, como também ao nível ambiental.
Este voto dos Vereadores do PS não constituiu, no entanto, um voto final favorável a instalação desta indústria, pois o processo que nos foi dado a conhecer, é ainda muito vago. O processo não apresenta ainda um estudo de impacte ambiental, será elaborado posteriormente, não identifica de forma clara os efluentes que a indústria irá produzir e como irão ser tratados, não apresenta um plano de mitigação de riscos do processo de fabrico, a indústria não tem ainda o PIN (Projeto de Interesse Nacional) e a pronuncia das diferentes entidades competentes nacionais. O processo de fabrico do metanol, em circuito fechado, parece não apresentar riscos, mas podem ocorrer falhas intermédias no sistema que têm de ser acauteladas.
O processo de fabrico também não é bem como alguns concidadãos, com diferentes responsabilidades, tentam passar........“Em suma, a partir de biomassa e água – matérias primas base deste processo industrial – é produzido metanol verde – produto intermédio – que, por sua vez, é usado para a produção de e-SAF – produto final.”»

Os 50 anos da Constituição: “NÃO É A CONSTITUIÇÃO QUE IMPEDE A RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS, É O SEU INCUMPRIMENTO”, disse o PR

Henrique Monteiro

"A Constituição é vista hoje ou como imutável, ou como velha e desajustada. Mas não é uma coisa nem outra. Passaram-se quinta-feira 50 anos sobre a aprovação da Constituição, o texto fundamental da nossa democracia. Na verdade, ela já não é o que foi, após sete revisões, das quais as de 1982 e 1989 foram as mais importantes. Mas está enraizada no nosso sistema político e quem pretende revê-la tem de ser muito explícito a dizer ao que vem."

sábado, 4 de abril de 2026

As estratégias em curso para destruir a democracia por dentro

Pacheco Pereira, in Público, 04/04/2026

«O que se passou esta semana no Parlamento, feito onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto.

Transformar a Assembleia da República num local de provocações que obrigam a respostas é uma estratégia que ataca um dos fundamentos da democracia, o papel do Parlamento como pilar de um dos poderes legítimos do sistema democrático, tal como ele se encontra definido na Constituição. O Parlamento sempre foi um dos alvos preferenciais dos extremos políticos, quer à direita, quer à esquerda, com argumentos muitas vezes semelhantes, centrados em regalias reais ou imaginárias dos deputados, no seu número, na qualidade do seu trabalho, e nos casos de abusos de influência e corrupção que um corpo tão largo de “políticos” inevitavelmente suscita.

Embora falemos aqui de uma estratégia, ou seja, de um plano mais ou menos deliberado, “sentimental” e racional, com consciência ou sem ela, isso não significa que ele não esteja hoje muito facilitado pela própria degradação da instituição parlamentar. Mais do que qualquer outro corpo em democracia, o Parlamento tem sido vítima do fechamento dos partidos à sociedade, com escolhas cujo único critério é o poder interno, sem prestígio social, nem profissional, nem político, ou seja, gente muito pouco preparada para exercer um poder num local com a visibilidade de um Parlamento. Essa degradação facilita e muito o ataque ao Parlamento, aumentando as características de proximidade negativa que os deputados têm com o homem “comum”. Essa proximidade sempre tornou, em todo o mundo, os parlamentos mais susceptíveis à crítica, enquanto senados e governos parecem mais distantes.

Acresce que os parlamentos não são lugares olímpicos, são lugares onde a luta política, a dureza do confronto entre pessoas e grupos, se aproximam muitas vezes de excessos –​ têm vida a mais e ainda bem. Se forem lugares de salamaleques, estão mais mortos do que vivos, e reflectem –​ e, insisto, bem – aquilo que as democracias têm e que as ditaduras eliminam, a vida democrática onde o “consenso” é uma excepção. É por isso que estão lá maiorias e minorias, reflectindo as “partes” da sociedade, interesses, ideias, mundovisões, que são escolhas que se fazem em eleições. Uma das heranças malditas de 48 anos de censura foi a demonização da política e da ideologia, que em democracia são naturais porque os governos não são nem de “salvação nacional” nem tecnocracias. A democracia é feita de ruído e não de silêncio, mas os procedimentos democráticos tornam esse ruído num sentido comum, superando o caos, mas não o eliminam.

Outro factor que caracteriza a vida parlamentar em democracia é que eles são lugares onde a liberdade de expressão vai mais longe, e é especialmente protegida pela imunidade parlamentar. É por isso que a mesa da Assembleia tem nestes dias uma especial e, às vezes, difícil responsabilidade, que é distinguir entre o que é a liberdade de expressão na sua mais ampla dimensão, do que é provocação, insulto, pura má educação, violência verbal e, acima de tudo, perturbação do processo parlamentar. Ou, pior ainda, do que é ataque ao Parlamento feito dentro dele.

Estamos longe dos tempos em que a mesa da Assembleia admoestou um deputado, que se dirigiu ao primeiro-ministro de então, dizendo “o senhor está grávido do interesse nacional”. Agora, perante a turbulência deliberada, tudo é mais complicado, mas a mesa da Assembleia, com raras excepções, está longe de ajudar a uma condução dos trabalhos minimamente aceitável. Ao permitir o que não devia permitir, quer no plenário, quer fora dele, torna-se cúmplice do ataque ao Parlamento como instituição.

O que se passa hoje no plenário e nos corredores é de outra natureza. E nada tem a ver com liberdade de expressão, tem a ver com violência em múltiplas formas. Insultar as deputadas, que são, como mulheres, um dos alvos do machismo do homem branco e da multidão de forcados em potência que lá está, com mugidos de vaca e beijos obscenos, no passado teria uma resposta dada por um gesto amplo da mão e um encontro imediato do terceiro grau com uma face, gesto cujo nome me abstenho de dar.

O que se passou esta semana na comemoração do aniversário da Constituição da democracia tem um significado político que ultrapassa a dimensão parlamentar. Não me refiro às mentiras, omissões da verdade e sugestões de falsidade, a panóplia total das formas de mentir, proferidas no púlpito. Aí, ainda estamos no domínio da liberdade de expressão, mas essa liberdade tem consequências quando faz parte de uma espécie de guerra civil contra o 25 de Abril e a democracia. Feita onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto. Nessa liberdade diz-se alguma coisa que está para além do Parlamento: o que se diz é que a luta dos portugueses já não só pela liberdade conquistada em 25 de Abril, mas na construção posterior da democracia, foi uma “traição” aos portugueses de lei que gostavam de Salazar, das prisões políticas e da guerra colonial, cujo número de mortos nunca se refere como se não tivesse nada a ver connosco.

O Chega e o toureiro de novilhos do CDS comportaram-se como se fossem uma delegação de santos que descessem do paraíso “patriótico” aos infernos “democráticos” para aumentar ainda mais as penas dos malditos. Estes não gostaram e fizeram o mínimo, viraram-lhes as costas.

Que sorte que eles têm em estarmos em 2026, em terem à sua frente gente com princípios e educação, gente que já demonstrou a sua coragem, e que lhes deu uma lição, mesmo assim muito “limpa” face à sujidade que lhes atiraram.»

Ensinar a reparar, a quem já se sabe ver

Via Diário as Beiras

"José Saramago pode deixar de ser um escritor de leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário em Portugal. Esta é uma das propostas de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, em consulta pública pelo Ministério da Educação até ao dia 28 de abril. Se a proposta for aprovada, a partir do ano letivo 2027/28, as escolas deixam de ser obrigadas a escolher entre o “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, como leitura obrigatória do 12.º ano, passando a poder optar por outras obras, de outros escritores. 
Segundo os mentores da ideia, o objetivo é ter maior flexibilidade na escolha de obras literárias, aumentando a diversidade de autores e de temas estudados nas escolas. O Ministro da Educação garante que a proposta resulta de uma “avaliação absolutamente técnica” e, em audição na Assembleia da República, afirmou não achar a alteração “problemática”: “acho que José Saramago não tem de ser obrigatório. Aliás, olhando para outros autores portugueses, consigo identificar vários que poderiam estar lá como opcionais”. 
Não me parece que esteja em risco a presença de Saramago nos currículos escolares. Estamos a falar não apenas do único português Nobel da Literatura mas, também, do único Nobel de Literatura de Língua Portuguesa. Acredito – quero acreditar, porque seria muito mau sinal se assim não fosse – que a maioria dos docentes vai continuar a optar por estudar Saramago. Mas há aqui outras coisas importantes em risco e esta proposta parece-me ser um sintoma disso mesmo. Saramago é um escritor exigente? Muito. É difícil de ler? Também. Já sabemos, pouca pontuação. É incómodo? É. Questionou dogmas e escreveu livros que obrigam o leitor a pensar, que rejeitam uma visão acrítica do mundo, que nos incomodam, desafiam e interpelam. Escreveu sobre o que somos – individual e coletivamente – os poderes, a justiça social, a Igreja, a cegueira moral, a morte, a identidade, a memória. As suas obras são complexas e, por isso mesmo, não têm enquadramento num ensino asséptico, leve e fresco, feito de testes de escolha múltipla e poucas perguntas de desenvolvimento, que poupam os meninos ao desconforto do pensamento e das ideias. 
Numa altura em que o Governo pondera – e bem – criar novos requisitos para admissão aos cursos superiores, com exigência de níveis mínimos de numeracia e Inglês, era importante assumirmos a urgência de resolver, antes de qualquer outra coisa, a iliteracia generalizada de muitos dos alunos que chegam hoje à universidade – e até dos que de lá saem, já com formação superior. Educar para a Literatura é educar para o pensamento, e é por isso que esta é uma questão fundamental. Eu também consigo identificar vários autores que podiam estar na lista de opcionais e até acho que o caminho é por aí: apresentar bons escritores aos alunos – quantos mais melhor – reforça o papel da Escola de deixar pistas para a descoberta do mundo (e, sim, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho, é um belíssimo livro, que todos deviam ler). Mas discordamos quanto à obrigatoriedade de ler Saramago. José Saramago é um dos nossos escritores fundamentais – e, sim, obrigatórios. Por vários motivos mas, acima de tudo, porque nos abre os olhos para o que não pode ser ignorado e, tantas vezes, ignoramos. Ou como nos diz o autor, no “Ensaio sobre a Cegueira”: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”. Num mundo cada vez mais cego, a Escola não se pode demitir de um dos seus papéis obrigatórios: ensinar a ver a quem ainda só olha; Ensinar a reparar, a quem já se sabe ver."