domingo, 12 de abril de 2026

Os poderosos são sempre uma ameaça para a segurança da sociedade

José Pacheco PereiraDestruir uma civilização é possível? É
«Todos estes “destruidores de civilizações” destruíram muita coisa mas, como todos os “destruidores” antigos, deixaram muitas ruínas para serem reconstruídas.
A civilização, neste caso a milenária civilização persa, que, aliás, verdadeiramente não existe nos nossos dias. levanta um conjunto de problemas que revelam tendências profundas do grupo que está à frente dos EUA.Digo isso em primeiro lugar porque duvido muito que tenha sido Trump a escrevê-lo por sua iniciativa. Mas ouviu alguém dizer isso, achou graça, e reproduziu-o. Duvido que Trump saiba alguma coisa da civilização persa antiga e, mesmo apesar da sua loucura, não deve saber nada para se apresentar como um herói moderno da batalha de Maratona. Mas quem falou à sua frente da civilização persa pode pertencer a um grupo de "trumpistas" evangélicos que tomam à letra a ideia de que uma espécie de Armagedão, lá para as terras do Médio Oriente, pode tero efeito de um regresso de Cristo envolto em chamas purificadoras, ou para fazer uma nova Jerusalém divina, ou para abrir portas ao Juízo Final. 
Seja como for, Trump, no que diz, não vai além da ideia de "obliterar" o Irão, e ele gosta disso. Mas pode uma civilização ser "obliterada"? Até meados do século XX a resposta é não. Na Bíblia e nos relatos históricos da antiguidade greco-latina, isso significava a destruição da cidade, a matança do seu povo ou a sua redução à escravidão. Babilónia, Jerusalém e um melhor exemplo, Cartago, conheceram esse destino real ou mítico, ou destruídas ou "renascidas". Mas Cartago foi arrasada e a sua terra salgada, na última Guerra Púnica, o modelo desta destruição civilizacional. Outros "destruidores de civilizações” existem, como Átila e Gengis Khan. O primeiro devastou o que sobrava dos Impérios Romanos do Oriente e do Ocidente e foi até França. Gengis Khan, do mesmo modo, da China à Europa, varreu tudo com uma destruição épica. Se falarem nisto a Trump, ele vai pensar nestes homens como modelos. Todos estes "destruidores de civilizações" destruíram muita coisa, mas, como todos os "destruidores" antigos, deixaram muitas ruínas para serem reconstruídas. Destruíram no sentido antigo, o que vem na Bíblia por exemplo, "cidades”, o mundo dos que lhe eram contemporâneos e não o mundo. 
Surge então um problema filosófico novo que faz parte daqueles problemas que os gregos não enunciaram. É, assim, falsa a afirmação de que todos os problemas filosóficos clássicos tinham sido colocados pelos gregos. Nesse sentido, a tradição judaico-cristã foi mais longe e pensou não apenas na destruição das "cidades", mas na destruição da humanidade. Este problema surgiu nos anos 50 do século XX, quando se percebeu que a bomba termonuclear tinha o potencial de extinguir a humanidade. 
Na literatura e no cinema popular, com o seu Godzila, como na ficção científica, o cenário do apocalipse tornou a aparecer, não só como possível mas como provável. Não é por acaso que, quando Trump falou em aniquilar a civilização persa, houve quem perguntasse se ele ia usar a arma nuclear. 
Eu sei que é um pouco inútil atribuir dimensão histórica ou de qualquer milenarismo religioso às acções de Trump, mas há uma crescente tendência para fazer um upgrade das intenções dos americanos, associando-as a um discurso religioso que inclui uma interpretação apocalíptica das guerras. Até então havia o petróleo, terrorismo, a procura da arma nuclear, que eram o pretexto para a guerra. Agora acrescenta-se Deus, que está presente nas sessões de Peter Hegseth ou de Trump, ungido por uma influencer evangélica de fusão que grita sons guturais e põe a mão sobre o Presidente. 
A grande resposta tem vindo do Papa americano Leão XIV, que não poupa as palavras para condenar este uso de Deus para legitimar e ser mais um soldado na guerra contra os "infiéis". Esta manipulação teológica coloca Trump num plano muito próximo dos clérigos iranianos, que têm sobre ele a vantagem de serem não só mais tradicionais no sentido histórico da palavra, como menos dados, na sua invocação de Alá, a usá-lo da forma patética que Trump usao seu Deus peculiar. 
Nisto tudo, a pergunta é como chegámos aqui e, mais importante, como saímos daqui. Trump um dia vai mostrar de forma inequívoca a sua loucura, de tal maneira que, para os seus sicofantas, se vai colocar a hipótese de disporem dele, "obliterando-o", com alguma coisa que possam sempre atribuir a outros. Trump vai cair de cima, mais cedo do que se pensa, e são os "seus" que lhe vão mostrar como se destrói uma civilização.»

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