José Pacheco Pereira: Destruir uma civilização é possível? É
«Todos estes “destruidores de civilizações” destruíram muita coisa mas, como todos os “destruidores” antigos, deixaram muitas ruínas para serem reconstruídas.
A
civilização, neste caso a
milenária civilização persa,
que, aliás, verdadeiramente
não existe nos nossos dias.
levanta um conjunto de problemas que
revelam tendências profundas do grupo que
está à frente dos EUA.Digo isso em primeiro
lugar porque duvido muito que tenha sido
Trump a escrevê-lo por sua iniciativa. Mas
ouviu alguém dizer isso, achou graça, e
reproduziu-o. Duvido que Trump saiba
alguma coisa da civilização persa antiga e,
mesmo apesar da sua loucura, não deve
saber nada para se apresentar como um
herói moderno da batalha de Maratona. Mas
quem falou à sua frente da civilização persa
pode pertencer a um grupo de "trumpistas"
evangélicos que tomam à letra a ideia de que
uma espécie de Armagedão, lá para as terras
do Médio Oriente, pode tero efeito de um
regresso de Cristo envolto em chamas
purificadoras, ou para fazer uma nova
Jerusalém divina, ou para abrir portas ao
Juízo Final.
Seja como for, Trump, no que diz, não vai
além da ideia de "obliterar" o Irão, e ele
gosta disso. Mas pode uma civilização ser
"obliterada"? Até meados do século XX a
resposta é não. Na Bíblia e nos relatos
históricos da antiguidade greco-latina, isso
significava a destruição da cidade, a matança
do seu povo ou a sua redução à escravidão.
Babilónia, Jerusalém e um melhor exemplo,
Cartago, conheceram esse destino real ou
mítico, ou destruídas ou "renascidas". Mas
Cartago foi arrasada e a sua terra salgada, na
última Guerra Púnica, o modelo desta
destruição civilizacional. Outros
"destruidores de civilizações” existem, como
Átila e Gengis Khan. O primeiro devastou o
que sobrava dos Impérios Romanos do
Oriente e do Ocidente e foi até França.
Gengis Khan, do mesmo modo, da China à
Europa, varreu tudo com uma destruição
épica. Se falarem nisto a Trump, ele vai
pensar nestes homens como modelos.
Todos estes "destruidores de civilizações"
destruíram muita coisa, mas, como todos os
"destruidores" antigos, deixaram muitas
ruínas para serem reconstruídas. Destruíram
no sentido antigo, o que vem na Bíblia por exemplo, "cidades”, o mundo dos que lhe
eram contemporâneos e não o mundo.
Surge então um problema filosófico novo
que faz parte daqueles problemas que os
gregos não enunciaram. É, assim, falsa a
afirmação de que todos os problemas
filosóficos clássicos tinham sido colocados
pelos gregos. Nesse sentido, a tradição
judaico-cristã foi mais longe e pensou não
apenas na destruição das "cidades", mas na
destruição da humanidade.
Este problema surgiu nos anos 50 do
século XX, quando se percebeu que a bomba
termonuclear tinha o potencial de extinguir
a humanidade.
Na literatura e no cinema
popular, com o seu Godzila, como na ficção
científica, o cenário do apocalipse tornou a
aparecer, não só como possível mas como
provável. Não é por acaso que, quando
Trump falou em aniquilar a civilização persa,
houve quem perguntasse se ele ia usar a
arma nuclear.
Eu sei que é um pouco inútil atribuir
dimensão histórica ou de qualquer
milenarismo religioso às acções de Trump,
mas há uma crescente tendência para fazer
um upgrade das intenções dos americanos,
associando-as a um discurso religioso que
inclui uma interpretação apocalíptica das
guerras. Até então havia o petróleo,
terrorismo, a procura da arma nuclear, que eram o pretexto para a guerra. Agora
acrescenta-se Deus, que está presente nas
sessões de Peter Hegseth ou de Trump,
ungido por uma influencer evangélica de
fusão que grita sons guturais e põe a mão
sobre o Presidente.
A grande resposta tem vindo do Papa
americano Leão XIV, que não poupa as
palavras para condenar este uso de Deus
para legitimar e ser mais um soldado na
guerra contra os "infiéis". Esta manipulação
teológica coloca Trump num plano muito
próximo dos clérigos iranianos, que têm
sobre ele a vantagem de serem não só mais
tradicionais no sentido histórico da palavra,
como menos dados, na sua invocação de Alá,
a usá-lo da forma patética que Trump usao
seu Deus peculiar.
Nisto tudo, a pergunta é como chegámos
aqui e, mais importante, como saímos daqui.
Trump um dia vai mostrar de forma
inequívoca a sua loucura, de tal maneira
que, para os seus sicofantas, se vai colocar a
hipótese de disporem dele, "obliterando-o",
com alguma coisa que possam sempre
atribuir a outros. Trump vai cair de cima,
mais cedo do que se pensa, e são os "seus"
que lhe vão mostrar como se destrói uma
civilização.»

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