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segunda-feira, 14 de junho de 2021

O arraial da descredibilização

Via Jornal Público

"No dia em que Lisboa voltou a registar um número alarmante de infecções de casos de covid-19, a Iniciativa Liberal decidiu organizar um arraial em homenagem a Santo António sob a capa de evento político. 
Percebe-se que um partido que sempre mostrou relutância em relação aos confinamentos quisesse aproveitar a festa popular para tornar pública a sua defesa de um regresso ainda mais rápido à normalidade. Mas, em vez de uma mensagem política, o que sobrou do arraial liberal foi a incoerência do partido, a sua incapacidade de cumprir as regras sanitárias e a promoção da política da boçalidade e do insulto. Mais do que uma manifestação liberal, o arraial foi um festival de libertinagem que desvaloriza a credibilidade da IL e dos seus líderes. 
Este evento de pertinência discutível começa antes do Santo António. Começa na Festa do Avante! de 2020, quando a IL questionava a suposta condescendência das autoridades para com a concentração de pessoas no evento, quando se proibia que “uma pessoa tomasse banho de mar” ou que houvesse “mais de cinco pessoas num areal”. 
Na altura, quando havia “provavelmente centenas de eventos culturais cancelados ou profundamente alterados”, era legítimo perguntar, como o fez a IL, se “os partidos políticos têm nesta matéria prerrogativas que outras instituições ou cidadãos não têm”. 
Mas no dia em que os lisboetas cumpriram com as determinações que impediam até o uso de fogareiros na rua, a IL decidiu esquecer esses princípios. Primeiro, desrespeitou as recomendações da DGS e instalou 20 barracas; depois, não verificou distâncias de segurança; como corolário, tornou o arraial um acto de desobediência deliberado. 
Enquanto a festa do PCP que tanto criticaram se revelou um exemplo de organização e de cumprimento das regras, o arraial liberal deu origem a um festim que só foi diferente da festa do Sporting na escala. Neste capítulo, as setas disparadas para figuras com rostos de ministros ou das autoridades sanitárias não passaram de um lamentável episódio de arrogância, intolerância e mau gosto. Tudo muito pouco liberal, portanto. 
Se a Festa do Avante! punha em causa “os sacrifícios dos últimos meses”, como dizia então João Cotrim Figueiredo, não se percebe como o arraial não fez exactamente o mesmo agora. E não se percebendo, o que sobra da festa é a incoerência e a irresponsabilidade. 
Fazer política diferente, com irreverência e criatividade, como a IL já fez, não dispensa o empenho no interesse geral, a finalidade última dos partidos, nem o respeito pelas regras sanitárias. Dar o dito por não dito sobre grandes eventos num momento preocupante em Lisboa, desobedecer à DGS, ser incapaz de gerir a multidão ou alinhar com a graçola das setas está muito longe dessa finalidade."

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