Extracto do texto de opinião, "A vontade do povo: 100 anos de regressão", de Miguel Sousa Tavares, publicado esta semana no Expresso
«A menos que
um milagre
nos salve a todos, e
não apenas
aos americanos, na quarta-feira
acordaremos com Donald J.
Trump eleito de novo como
Presidente dos Estados Unidos. É natural que num país
que se divide ao meio entre
uma elite que representa o
melhor da espécie humana
em termos de inteligência, investigação, empreendedorismo e criação artística e outra
metade que é orgulhosamente ignorante e hostil a tudo o
que não entende nem quer
entender, o absurdo sistema
eleitoral produza alternadamente Presidentes capazes e
Presidentes que são um embaraço ou um retrocesso para
o mundo. Mas nunca, nunca nos piores pesadelos da
gente de bom senso alguém
tão boçal, tão alarve, tão perigoso para o mundo como
o Trump 2ª versão esteve à
beira de chegar ao poder na
“nação indispensável”. E se já
é sinistro imaginar à solta um
animal vingativo e desprovido
de quaisquer limites éticos
como ele, mais sinistro é pensar que quem o elege é o povo
contra a elite. É na terra de
referência do capitalismo que
a derrota final das teses marxistas se torna mais evidente:
são as massas, o sector mais
desprotegido de uma sociedade de abundância, que não só
não se revoltam contra quem
lhes quer tirar um mínimo
de apoios sociais — o Medicare, as bolsas de estudo universitárias, as ajudas contra
a pobreza extrema — como
ainda elegem ou deixam eleger como líder alguém que
ostenta a sua exuberante riqueza como um dom, que não
paga impostos e que tem no
cadastro de sucesso milhares
de despedimentos. E, se perder a eleição, Kamala Harris,
símbolo do american dream,
de quem se fez por si e a pulso
erguendo-se de um destino de
miséria pré-traçado, tê-la-á
perdido porque não conseguiu o número suficiente de
votos entre os mais fracos e desprotegidos: os negros, os
latinos, os pobres. Em contrapartida, tem garantido o
apoio maioritário dos brancos educados, da inteligência,
das universidades e do mundo
artístico. Mas o povo é quem
mais ordena. Bem podem gritar-lhe — até os antigos colaboradores de Trump — que o
homem venera ditadores, que
tem mentalidade de fascista e
inclinações nazis. Que não lê
nada nem escuta informação
ou conselho algum, fiando-se
apenas no seu desmesurado
ego. Que é uma ameaça real
à economia e à democracia,
à paz interna e às relações
com os aliados de sempre.
Que irá demitir, silenciar,
perseguir todos os “inimigos
internos” como nem no tempo de McCarthy. O povo não
quer saber, o povo não acha
isso importante. Um estudo
de há dias revelou que 40%
dos americanos entre os 16
e os 29 anos, a nova geração,
recolhiam toda a informação
de que dispunham do TikTok: têm as melhores universidades do mundo, uma imprensa
de referência, museus espantosos, um cinema e uma literatura de vanguarda, mas,
para metade deles, basta-lhes
as redes sociais para saberem
do mundo. Por isso, os milionários entre os milionários,
como Musk ou Zuckerberg,
controlam as redes sociais e
metade dos jovens que votam
escolhem Trump.»