Fabian Figueiredo, no Público

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O que passou pela cabeça de Fernando Alexandre?
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«Há uma palavra que o ministro da Educação devia riscar do vocabulário: "imprudentes". Foi assim que classificou os pais que marcaram férias confiando no calendário de exames que o próprio ministério publicou em dezembro. Ou seja: para Fernando Alexandre, a imprudência, agora, é acreditar no Estado.
Esta história não começa num erro de software. Começa numa obsessão liberal.
Portugal tinha um sistema de exames a funcionar de forma estável há décadas. O aluno respondia às questões da prova, a prova era tornada anónima através da atribuição de um código, um professor corrigia-a inteira e as delegações do Júri Nacional de Exames resolviam os problemas na hora. Governos com diferentes orientações políticas geriram o sistema de exames sem o pôr em causa. Este Governo decidiu desmontá-lo, não por necessidade, mas por preconceito ideológico. Em nome do Estado mínimo, extinguiu 18 organismos e substituiu-os por sete, devolveu às escolas metade dos professores dos serviços centrais e gabou-se de ter feito poupanças orçamentais. [Notícia, Público, 10/07/26:” Ministro autoriza novos gastos de 500 mil euros com classificação digital de exames”] Chamou-lhe modernização. A comunidade educativa chamou-lhe desmantelamento. Os factos encarregaram-se de arbitrar.
Porque o ministro não pode dizer que não sabia. Em 2025, o exame de Filosofia serviu de ensaio à correção digital, com 23 mil alunos. Os professores classificadores relataram então, com precisão, tudo o que hoje se repete: provas que desapareciam, folhas em branco, respostas cortadas a meio, respostas trocadas. O ministério classificou o ensaio como "muito positivo" e generalizou o sistema a 300 mil provas. Confrontado agora, respondeu que "os erros serviram para aprender". Aprendeu-se o quê, exatamente? E fez mais: mudou o próprio modelo, centralizando toda a digitalização num único armazém: uma arquitetura que nunca tinha sido testada, nem sequer no ensaio. Onde o bom senso pedia gradualismo, alargar disciplina a disciplina, com rede de segurança, Fernando Alexandre escolheu, irresponsavelmente, o salto no escuro à escala máxima, com o futuro de 166 mil alunos lá dentro.
O resto conhece-se. Professores convocados para disciplinas que nunca lecionaram; uma docente já falecida convocada para classificar. Classificadores que entram na plataforma e encontram o perfil de outra pessoa. Respostas classificadas que desaparecem; respostas que aparecem classificadas por terceiros. Folhas de continuação em falta, deixando raciocínios a meio e o classificador perante um dilema impossível: adivinhar ou dar zero.
O próprio manual oficial admitia, desde junho, que o contador de respostas podia apresentar valores negativos, instruindo os professores a ignorá-lo. Um sistema que não sabe contar as respostas que tem por classificar.
Perante isto, o ministro seguiu um guião em três atos: negar ("a digitalização está a decorrer sem grandes problemas"), desmentir os mensageiros ("a maioria das denúncias é falsa"), transferir culpas: para os agrafos, para os diretores, para os professores, por fim, para os pais e as suas férias imprudentes. Na quarta-feira, garantiu no Parlamento que o calendário se cumpria e que "nunca nenhum aluno será prejudicado". Na sexta-feira, o Governo desmentiu-se a si próprio e adiou tudo.
E depois soube-se o resto. A plataforma teve de ser suspensa por falhas graves de segurança: encontrou-se "uma janela aberta", nas palavras do ministro, num sistema que guarda as provas e os dados de 166 mil alunos. Quem a encontrou não foi o Estado: foi a Deloitte, consultora contratada de urgência porque o EduQA admitiu precisar de mais recursos. É ela que constrói agora, a dias do prazo, a ferramenta que permite saber quantas provas cada professor corrigiu, porque isso "não tinha sido programado". E soube-se ainda que a plataforma de classificação pertence a uma empresa privada externa e é, reconhece o Governo, transitória: a substituta, financiada pelo PRR, não está pronta. Generalizou-se tudo, de uma vez, sobre um sistema de empréstimo. Pergunto, francamente, o que passou pela cabeça de Fernando Alexandre?
O que se exige agora é simples. Primeiro: nenhuma pauta sem fiabilidade demonstrada, verificar oficiosamente a integridade de todas as provas antes do dia 17, e corrigir em papel onde o digital não dê garantias. Segundo: gratuitidade da consulta e da reapreciação. Historicamente, cerca de 2% dos alunos pedem revisão; tudo indica que este ano será um recurso massivo, provocado por falhas do Ministério da Educação. Não pode custar 25 euros contestá-la: as famílias não podem pagar duplamente, agora com a carteira. Terceiro: remunerar extraordinariamente os professores que vão carregar essa vaga de reapreciações por agosto adentro; no secundário, hoje, classificam de graça.
E um pedido final, em nome da escola pública: parem. Não espalhem mais confusão. O país tem um problema gravíssimo de falta de professores, que este ano voltou a agravar-se; julho é o mês das matrículas, das turmas, da preparação do ano letivo, tudo agora em risco na cascata dos adiamentos. Não é o momento de mais experimentalismos: a revisão da carreira à pressa, o estatuto do diretor, novos modelos de gestão e educação inclusiva. Quem não conseguiu garantir a correção dos exames devia ter a humildade de não mudar tudo ao mesmo tempo.
Durante décadas, o sistema de anonimização de provas, de correção e de eventual pedido de reapreciação funcionou sem problemas e com confiança geral sobre a integridade do processo. Essa confiança destruiu-se num verão. É por isso que isto não é uma polémica de época: é a confiança pública no Estado. E é por isso que a responsabilidade tem nome. Não foi o software. Foi quem decidiu, avisado, contra o mais elementar bom senso. Chama-se a isto, com rigor, imprudência.»
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