"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha." - Confúcio

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Para meditar...

Os desastres naturais em sítios com uma população (ou parte dela) pobre, são sempre um maná para os fotógrafos de ocasião - e para os outros. Há sempre algures uma criança orfã ou desalojada com olhos tristes e cara suja cujo desalento sobressai por entre os escombros. Sob a capa do "fotojornalismo" dito sério, na onda World Press Photo, o sofrimento humano extremo transforma-se, através da câmara, num evento triste mas delicodoce - tristezinho, vá -, que suscita por um lado a piedade alheia, mas, por outro lado, a admiração pela sensibilidade e sentido de oportunidade do fotógrafo em questão. Que, com um bocado de sorte, ganhará um prémio qualquer e o concomitantereconhecimento público. E, embora qualquer imagem comovente que se preste a metáforas lamechas seja de todo preferível à brutalidade frontal da última capa da Visão - Madeira (que mostra em grande plano um corpo enlameado em posição fetal - um pai, uma mãe, um filho de alguém - a ser retirado dos escombros), ambos os modos de "olhar" a tragédia debitam um exibicionismo pornográfico e um pressuposto venal que me repugnam. Ao invés de prazer, falamos de sofrimento, mas o princípio é o mesmo: descontextualizar, mostrar... e vender."



3 comentários:

dilita disse...

Não é só nas grandes catástrofes que acontecem estes abusos; num atropelamento por exemplo,a fografia a exibir terá de mostrar a vitima com o pior dos aspectos.Passam por cima da privacidade que o caso devia merecer,ignoram o respeito,e só pensam no "chamariz para a noticia".Estamos numa época em que sobressai já sem decôro o negócio,o "êxito" a qualquer preço.

frederico disse...

ainda esta fotografia não está manipulada, com o corpo composto à maneira do fotógrafo. já vi piores

Olímpio disse...

Quem vive e sente a imformação,só deseja comunicar aos outros,é um sentimento muito proximo do eu,mas tambem compreendo a outra parte sensivel das pessoas e de facto há que respeitar esse sentimento da não aceitação.Mas o profissionalismo e "fome" da noticia porque vende melhor o produto,está nesta morbida manifestação e divulgação.