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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Clarificação natural...

 Imagem via O Jornal Económico


"Mas alguém ainda tinha dúvidas sobre o que estes tipos querem para o país? 
Preocupado com os jovens que têm salários miseráveis e que fogem do país? 
Que tal perguntar ao gestor João Cotrim Figueiredo quanto é que pagava aos operários fabris da Compal quando fazia de patrão? 
Podem exigir que explique quanto recebiam os jornalistas (em especial, os jovens) e os outros trabalhadores da TVI quando este era gestor da Media Capital? 
Não falo no Goucha, nem na Cristina Ferreira, claro. Nem na Manuela Moura Guedes. 
Defensor da iniciativa privada e do mérito e crítico do sistema de tachos? Então, explique lá porque é que foi o seu antigo patrão na Compal, Pires de Lima que o levou para Presidente do Instituto de Turismo de Portugal, enquanto o governo da Troika esmifrava quem vivia do seu trabalho? 
Ir enganar idosas/os aos lares enquanto dança com elas, a ver se leva mais uns votos? E que tal explicar-lhes o que é aconteceria às suas pensões se o seu modelo de governo vingasse e pegassem no dinheiro da Segurança Social para jogar no casino dos fundos de investimento e para lhes entregar, de bandeja, as contribuições dos que mais ganham e mais descontam? 
Preocupado com a baixa natalidade e a dificuldade dos jovens se emanciparem, terem filhos e uma casa? Que tal explicar porque quer uma legislação laboral que lhes tira direitos e os condena à precariedade eterna e subserviência ao patrão? 
Ou, então, reconhecer que foi a liberalização do mercado de arrendamento, a desregulação do turismo local e da especulação imobiliária que fez o preço das casas crescer mais 4 vezes do que os salários. 
Tenham dó. 
Hipocrisia, não. Estes privilegiados das elites que transitam entre conselhos de administração de empresas que vivem de mão estendida para o Estado construíram a economia que temos. Viveram de dependência estatal. Promoveram a endogamia. Exploraram os que vivem do seu esforço. Pagaram salários de miséria. 
E, agora, têm a distinta lata de enganar as pessoas, dizendo que só não pagaram melhores salários porque os impostos eram muito altos. 
Só se deixa enganar quem anda mesmo a viver no mundo da Lua. Vá lá ter com os seus "manos". 
Menos. Muito menos."

domingo, 21 de dezembro de 2025

A folha em branco...

O momento da folha em branco de António Filipe,  “Está aqui a minha lista de clientes”.

Comentário de Rui Pereira.

«Com a questão das revelações do interesses privados -empresariais, clientelares, etc.- dos candidatos a entrar em força na luta eleitoral, António Filipe, o candidato comunista à Presidência da República, exibiu ontem, no seu último debate televisivo, uma folha em branco: “Esta é a lista dos meus clientes. Nenhum”.

Décadas como deputado e professor universitário não impediram que, em seguida, uma comentadora proclamasse com a estúpida arrogância da "civilização" burguesa que aquela folha em branco representa o que Filipe e os comunistas querem para Portugal: - que todos sejamos “funcionários”, porque, prosseguiu a barbaridade disparando como se de uma acusação se tratasse, “é o que ele é, um funcionário do partido”.
De um modo mais interessante, outro comentador reagiu contra o que chamou o “striptease” das exigências de revelação por parte dos candidatos e dos políticos sobre os respetivos negócios privados e vidas profissionais. Se passar a ser assim “isto nunca mais acaba”, disse e com razão.
A questão consiste em saber porquê. E o motivo não é complicado. É que a corrupção - não como suspeita, mas como certeza - é a substância mesma do sistema do capital. Porque, muito simplesmente, o capitalismo consiste na apropriação privada, pelas classes que dominam o sistema, da riqueza e do trabalho socialmente produzidos. Esta é a sua essência e substância e, nesse sentido, como dizia Chomsky, é a máquina de extorsão mais perfeita que a exploração de uns homens por outros homens jamais criou.
O termo “corrupção” tem, porém, algo mais que se lhe diga. A corrupção pode ser entendida num sentido estritamente jurídico e, nesse caso, é um crime previsto e punido pela legislação. Mas, o seu sentido aqui mais interessante é um outro, o da corrupção como desvio da finalidade de qualquer criação humana que, posta ao serviço de um propósito diferente, por vezes até contrário àquele a que se destinava, inevitavelmente se corrompe.
Nesta acepção, é fácil compreender porque não há candidatos do “arco do poder”, do “consenso neoliberal”, como António Filipe lhe chama com muita precisão, para os quais a chamada a revelar as suas atividades privadas e profissionais não possa senão transformar-se num infindável “striptease”.
Não pela normatividade serôdia do moralismo declarativo (sem esquecer como por trás de todo o moralismo há sempre uma enorme dose de perversão), mas pela imoralidade estrutural do sistema do capital que os comentadores tão cuidadosamente omitem, quando apedrejam aqueles que, sobre negócios e negociatas, o que têm para mostrar é tão liso e tão limpo quanto uma folha em branco.»

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco

"Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução."

Via Maio. 

Para continuar a ler clicar aqui.

A prenda de Natal

Eduardo Dâmaso, jornalista

"Algumas ideias sobre o desfecho da Spinumviva, para lá das cabalas. A primeira é a de que dificilmente seria diferente. A recolha de informação depende só da vontade dos próprios. As averiguações preventivas, criadas por Cavaco Silva, são uma investigação administrativa, sem buscas, sem vigilâncias, sem inquirições. A segunda é a de que se tratava de um caso exclusivo de faturação e contratos. Se a verdade formal dos papéis estiver bem construída, mesmo que longe da verdade material, não se chega lá. A terceira é a de que abrir um eventual inquérito, nesta fase, seria facilmente atacado pela desproporção entre o arsenal a utilizar e indícios pouco densos. Deveria ter sido aberto no início e abranger a casa de Espinho.

A quarta é a de que as explicações de Montenegro não são agora escrutináveis. As averiguações não se podem consultar. Não poderemos avaliar a informação prestada, se pode haver censura ética e política, nem os fundamentos do arquivamento. A quinta é a de que o tema não tem de morrer aqui. Numa democracia com real separação de poderes, tanto a Justiça como o jornalismo têm obrigação de não se deixar intimidar por proclamações de vitimização. Neste caso, apurando os fundamentos do despacho, apesar das limitações formais, e determinar a sua solidez. Se fosse só uma prenda de Natal, seria um desastre para a República e para o Ministério Público. Acreditamos que não será, mas temos de fazer o nosso trabalho."

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Agora é tudo por gosto

"Não é só a caligrafia que resiste. Fala-se muito nas redes sociais, mas foi graças às redes sociais que conhecemos o trabalho de Paul António - e aprendemos com ele. A Internet é maravilhosa, mas tapa a vista. Pense-se nas fortunas que hoje se ganham com a rádio, com a televisão, como vinil, com o teatro, e tudo o mais que se diz ultrapassado, condenado, pronto para os museus,
Vejam-se as bicicletas. As motas iam dar cabo delas, mal ficassem mais baratas. A revolução dos transportes não passava pela bicicleta. Mas hoje há bicicletas magníficas, mais caras do que as motorizadas. E diz quem sabe que ainda há alguns ciclistas por aí. 
A caligrafia dá um grande prazer: o traço, a tinta, a resistência do papel, a autoria, a unicidade, o progresso, a expressão, a rapidez da aprendizagem, a maneira como transparece a personalidade. 
Os meios são baratos e o resultado é impressionante. Dantes era necessário escrever assim. Hoje é um gosto. Dantes só havia vinil. Hoje é um gosto. Dantes só havia a rádio para ouvir. Hoje é um gosto. Os gostos são escolhas. Libertadas da necessidade e da obrigação, estas actividades tornaram-se prazeres. Ficando como gostos minoritários, revelaram-se como deliciosas intimidades. E assim é melhor."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

No dia seguinte será que Montenegro já viu que havia razões para a greve geral?..

No dia seguinte já se começa a ver que, ao contrário do que Montenegro dizia, havia boas razões para a greve geral! 
E ela existiu
O Governo desvalorizou a paralisação e ficou sozinho.
Ventura recuou e pôs em causa medidas chave da reforma. Na manhã do  dia de greve, pela manhã, Ventura - o único parceiro que restava para negociar o pacote laboral - deu uma entrevista à Antena 1.
Nessa entrevista, Ventura (que começou por criticar a greve geral quando foi anunciada) fez um recuo estratégico, criticando Luís Montenegro por ter sido “casmurro, teimoso e quis desrespeitar quem trabalha”. E, de caminho, foi pondo em causa três das quatro traves mestras que a ministra do Trabalho Maria do Rosário Palma Ramalho definiu na pedra. O mais explícito foi o da abertura à contratação por outsourcing para as áreas das empresas onde houver despedimentos: “Se alguém despediu quase todos os trabalhadores, é porque vai pagar menos, dar menos direitos às pessoas e gerar mais precariedade”, apontou André Ventura. Mas a lista de medidas que criticou alargou-se às "questões de precariedade" (o Governo quer aumentar a duração dos contratos), assim como à permeabilidade aos “despedimentos” (cuja reintegração deixa de ser obrigatória em caso de ilegalidade), outra das críticas maiores das centrais sindicais. Em síntese, rematou Ventura, “o Governo optou por uma linha liberal que dá ideia a quem trabalha que pode ser despedido a qualquer altura, que vai perder direitos e que só interessa quem manda”.
Entretanto, em sede de concertação social: encontro com parceiros adiado.
Será que Montenegro ainda não compreendeu as razões da realização da greve geral?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Safra Justa: quem não transcreveu as escutas dos militares da GNR e do agente da PSP?

Ana Sá Lopes

"O Ministério Público tem que explicar aos portugueses porque é que as escutas dos militares da GNR e de um elemento da PSP suspeitos de estarem implicados num esquema de imigração ilegal no Alentejo não foram transcritas. Houve tempo para isso: aparentemente, estavam a ser escutados há um ano. O que é que aconteceu para não terem sido transcritas? Durante um ano não houve funcionários capazes para o fazer? Os procuradores esqueceram-se? 
No Expresso da Meia-Noite da SIC-Notícias, na passada sexta-feira, o advogado Manuel Magalhães e Silva chegou a dizer que as escutas não foram transcritas "de propósito". 
Isto é particularmente grave porque se está a falar de crimes de quase escravatura contra imigrantes. Eu sei que a opinião pública inflama-se com mais virulência relativamente às escutas algo irrelevantes em que António Costa foi "apanhado" (não era o primeiro-ministro que estava sob escuta) publicadas pela revista Sábado. Sabe-se que o procurador-geral da República, Amadeu Guerra, pôs um processo aos jornalistas e que a Procuradoria sugeriu que teria sido a defesa dos arguidos a quebrarem o segredo de justiça
Mais grave do que as escutas de Costa, está a ausência de escutas por falta de transcrição- que permite que os militares da GNR e um membro da PSP, que teriam alegadamente o papel de "capatazes" junto dos empresários traficantes de imigrantes, tenham voltado esta semana ao trabalho
Como as provas do envolvimento das forças de segurança no crime eram essencialmente escutas e as escutas não foram transcritas como manda a lei, os 10 militantes da GNR e um elemento da PSP saíram sob termo de identidade e residência (a menor das medidas de coacção) e estão de novo nos seus postos
Repare-se no absurdo: estas pessoas suspeitas de terem violado a lei de forma vil neste momento são os defensores da autoridade do Estado perante violações de lei
Felizmente, não moro no Alentejo senão estaria seriamente assustada. O Pedro Candeias já fez um editorial sobre este assunto - de facto, "escutado ninguém acredita". Mas exige-se uma resposta do Ministério Público. Houve aqui um erro clamoroso que pode permitir, inclusivamente, a continuação da actividade criminosa
Estamos a falar de pessoas extremamente vulneráveis, como são os imigrantes sem papéis, que eram "controlados e vigiados" e inclusivamente "ameaçados" pelas forças de segurança ao serviço do empregador. 
No comunicado de 25 de Novembro, a GNR diz que "tudo fará para que os autores sejam criminalmente responsabilizados" e que na Guarda Nacional Republicana "não há lugar para  pessoas cujo comportamento possa corromper o compromisso de honra e exemplaridade ética" que os militares assumiram "perante a sociedade e os cidadãos"
A IGAI - Inspecção Geral da Administração Interna já abriu um inquérito aos suspeitos. Só que, por causa de uma indesculpável acção do Ministério Público, afinal na GNR "há lugar para pessoas cujo comportamento possa corromper o compromisso de honra"O regresso ao trabalho destes militares sob suspeita é de uma imensa gravidade e põe em causa a confiança dos cidadãos nas forças de segurança. 
Agora, a ideia de que o Ministério Público não tem que dar justificações sobre a Operação Safra Justa e a inconcebível não transcricão das escutas não é aceitável num Estado de direito democrático. O perfil de Amadeu Guerra inicialmente contrastou com o da sua antecessora. Parecia disposto a explicar melhor o trabalho do Ministério Público de que é a figura cimeira. A ideia parece ter-se desvanecido."

domingo, 7 de dezembro de 2025

Esta greve geral e a esquerda

"A adesão à greve geral vai ser um teste tanto para o Governo como para a oposição.
Até a vice-presidente do PSD Lucinda Dâmaso, que é simultaneamente presidente da UGT, vê razões para uma greve geral, devido, por exemplo, ao alargamento dos contratos aprazo, à simplificação de despedimentos ou à criação do banco de horas individual. 
Para o Governo, pode ser um amargo de boca, quando ainda tem a sua popularidade em alta, de acordo com as sondagens, mas já se percebeu que Luís Montenegro não quer desperdiçar a oportunidade única de aprovar com os partidos à sua direita (Chega e Iniciativa Liberal) aquilo que entende ser a modernização das relações de trabalho, indo ao encontro, como respondeu ontem ao líder do PS, José Luís Carneiro, da legislação de vários países europeus, incluindo países onde os socialistas têm influência. 
Dizer-se, porém, que a greve geral é "o último reduto" da esquerda, como foi dito ontem no debate quinzenal na Assembleia da República, é insinuar que não há mais nenhumas razões para se criticar o Governo e fazer oposição, porque está tudo bem no país."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Quando polícias corruptos exploram imigrantes, André Ventura fica aflito

Via Jornal Público

«O que se passou no Alentejo é gravíssimo. Estamos perante uma situação de escravatura de pessoas em que elementos das forças de segurança estão envolvidos. Infelizmente, este caso dá-nos o sinal do que poderá acontecer com as novas leis de imigração. Se existir trabalho, virá imigração – como acontecia em França nos anos 60 que se encheu de portugueses que “iam a salto”, pagando à pessoa que os conseguia fazer chegar a França.

Aquele debate da TVI tem história e não é a “lama”: é a incapacidade de André Ventura falar sobre a exploração de imigrantes se meter membros das forças de segurança. Já se tinha assistido à defesa do Chega do polícia que assassinou Odair Moniz, sem qualquer compaixão pelo morto.

Este país ainda tem um regular funcionamento das instituições. Mas ninguém tenha dúvidas de que, caso a revisão constitucional para dar mais poderes ao Presidente da República que Ventura defende fosse avante, íamos ter outro país. Estas são mesmo as eleições presidenciais mais importantes da democracia.»
Para ler melhor clicar na imagem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O que precisam saber mais sobre de que lado está está este governo?

Via Jornal Público

Proposta laboral beneficia empresas?
Ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho: “Lei em vigor é que tem algum desequilíbrio em favor dos trabalhadores”.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Troika 2.0

«Enquanto Lisboa exibe ao mundo o brilho do Web Summit, fingindo ser o palco do futuro digital, o país está a ser empurrado para a economia do século XIX — uma economia de salários de miséria, turnos intermináveis e gente exausta a sustentar os lucros dos poucos que chegam de Ferrari. 
Chamam-lhe “Trabalho XXI”, mas é a Troika 2.0, e nem sequer precisou de chegar de avião. 
A AD escreve, a IL aplaude, o Chega distrai — e juntos compõem a mais violenta ofensiva contra quem trabalha desde o tempo da troika. 
Prometem “modernizar”, mas o que trazem é exploração:

 


«– 50 horas por semana, disfarçadas de “banco de horas individual”; 
 – contratos a prazo até 5 anos, para eternizar a precariedade; 
 – menos formação, para garantir uma mão-de-obra dócil e barata; 
 – despedimento livre pela porta do cavalo, onde até quem ganha em tribunal perde o direito de voltar ao trabalho; 
 – greves esvaziadas por serviços mínimos automáticos;
– outsourcing sem regras, para trocar trabalhadores com direitos por subcontratados descartáveis. 
Tudo isto num país que cresce acima da média europeia, mas onde o crescimento foi para Ferraris, não para salários. O trabalhador ficou com a inflação, a renda impossível, a casa vendida a fundos, a escola degradada, o hospital sem médicos. E quando o povo acorda e protesta, chamam-lhe “incompreensível”. Quando os sindicatos unem forças, chamam-lhe “greve política”. Quando o povo se defende, dizem-lhe que “a precariedade não é má”. Claro — a precariedade não é má para quem ganha 4000 € e troca de emprego com indemnizações douradas. Mas é destruidora para a mãe que trabalha no retalho, para o operário, para a enfermeira, para o motorista. 
O Chega cumpre a função de sempre: atira pobres contra pobres. Inventam “invasões islâmicas”, “ciganos subsidiodependentes”, “imigrantes criminosos”. Mas o objetivo é claro: primeiro precarizaram os imigrantes, impedindo-os de se legalizar para ficarem presos a intermediários e patrões sem escrúpulos; agora vêm precarizar os portugueses. 
A Iniciativa Liberal embala o discurso com palavras bonitas: “flexibilização”, “escolha do trabalhador”. Mas sem sindicatos, sem rede, sem alternativas, não há escolha — há chantagem. Aceita ou és substituído. E a “flexibilidade” de uns é a servidão dos outros. 
E no meio, a AD — que dizia querer “a economia a crescer como nunca” — apresenta um pacote que destrói tudo o que fez o país resistir à crise: reduz direitos, agrava desigualdades e abre portas a despedimentos em massa. 
CGTP e UGT, unidas — até os sindicatos mais próximos do PSD — chamaram-lhe o que é: a lei final, o fim do trabalho com dignidade. 
E enquanto o Governo legisla o retrocesso, o país distrai-se com eleições de clubes de futebol, reality shows e os espetáculos do populismo. Cada vez que o Chega fala em “burqas”, em “criminalidade”, em “corrupção socialista”, um novo artigo da lei é aprovado para tirar direitos a quem trabalha. Cada vez que a IL fala em “produtividade”, um novo trabalhador é despedido e recontratado como precário. Cada vez que a AD fala em “modernização”, é mais um turno de 12 horas disfarçado de “escolha”. 
Esta é a nova Troika. Não vem da Alemanha. Vem das bancadas da Assembleia da República. E não pensem que isto fica pelo privado. Depois de destroçarem o sector privado, irão atrás dos funcionários públicos, dos professores, dos médicos, dos enfermeiros. Quem trabalha é o alvo. O projeto é claro: um país obediente, cansado, barato, onde o Estado serve os poderosos — nunca os que trabalham.
Um ano e meio bastou. Sem pandemias e sem guerras, rebentaram as finanças, travaram a economia, destruíram a coesão social, pioraram o SNS. 
Um Governo de ilusões e diversões: o que estava mal, piorou; o que estava bem, mal ficou… só ganharam os que já estavam a ganhar. 
Meus caros, votaram com medo de imigrantes, ciganos e burcas? 
Agora que lhes deram o poder que queriam, o alvo são vocês.»
Eduardo Maltez Silva, in Facebook,10/11/2025. 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

PROPOSTA DE ORÇAMENTO DO ESTADO PARA 2026 E OS INTERESSES QUE DEFENDE

"PARA COMPREENDER A PROPOSTA DE ORÇAMENTO DO ESTADO PARA 2026 E SABER QUE INTERESSE DEFENDE - A Proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2026 e os relatórios que a acompanham têm 813 paginas. É difícil, para não dizer mesmo impossível, para quem não esteja habituado a fazer a análise deste tipo de documentos, identificar o que é essencial para os trabalhadores e pensionistas. Num primeiro estudo que divulguei, e que está disponível gratuitamente para todos os interessados em www.eugeniorosa.com, fiz uma primeira analise e mesmo essa poderá não ser facilmente entendível para muitos leitores dos efeitos deste orçamento. No entanto como existe uma campanha muito forte por parte de muitos órgãos de comunicação social e do governo para que a opinião publica acredite que este orçamento é diferente dos anteriores e é um orçamento pacifico para todos os portugueses, o que não é verdade, decidi elaborar este vídeo, que é um vídeo pedagógico, onde de uma forma pausada procuro esclarecer o impacto que este orçamento, se for aprovado, terá nos trabalhadores e pensionistas. Espero, que este acréscimo de trabalho possa ser útil a todos aqueles que se interessam pelas consequências das decisões dos governos nas nossas vidas, como simples cidadãos interessados."

domingo, 2 de novembro de 2025

Que esperar do ciclo autárquico 2025/2029 na Figueira?

Imagem sacada daqui

Não sei se todos  os autarcas eleitos no concelho da Figueira da Foz para o mandato que decorrerá entre 2025 e 2029 já tomaram posse, mas a maioria certamente que sim.
No início de Novembro de 2025, todos estes homens e mulheres têm pela frente um desafio difícil, mas ao mesmo tempo aliciante, para 4 anos..

Este novo ciclo autárquico tem início no meio de uma enorme incerteza. 
Em Portugal e no Mundo.
O crescimento da economia portuguesa (ver os números das últimas estatísticas divulgadas), mesmo que frágil e assente no turismo, anima,  mas os munícipes  aprenderam da pior forma possível que, se não for pelos eleitos locais, as regiões não avançam. As câmaras municipais vivem hoje num conflituoso equilibrismo entre a necessidade de continuarem a beber das receitas fiscais, esmagadoramente provenientes da venda de casas e do IMI, e a urgência de disponibilizarem habitação a preços decentes, retendo, com isso, população e potencial económico. Na primeira metade do ano, as autarquias encaixaram 11 milhões de euros por dia em impostos. Só o ganho com o IMT representa mais de metade dessa generosa receita.
Nenhum autarca terá a coragem de o confessar publicamente,  "mas a especulação imobiliária foi das melhores coisas que aconteceram às contas municipais."

Perante este cenário, o que esperar do novo ciclo autárquico na Figueira.
No nosso concelho, por maioria de razões, dede logo por termos como Presidente do Município, uma figura com larga experiência política ao mais alto nível (falta-lhe ser Presidente da República) e de indiscutível relevância nacional, esperemos  que o trabalho se concentre na procura das  soluções que, ao nível local, possam ajudar a mitigar vários problemas nacionais.
Desde logo (sem esquecer o trabalho que tem vindo a ser feito), nos sectores básicos em que assenta um estado democrático e de direito: a educação, a saúde e a habitação. 

Como escrevi neste OUTRA MARGEM em 15 de Setembro de 2006 (já lá vão mais de 19 anos), «com a “Revolução dos Cravos”, o poder local passou a ser encarado de outra maneira. As populações desejaram que, nas autarquias, o poder político se aproximasse dos cidadãos. Muitos de nós, nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974, chegamos a acreditar que passaria por aí o incremento de uma cultura política de cidadania activa, capaz de neutralizar a cultura de submissão e de autoritarismo. 
Para se ter transformado este desejo em realidade, teria sido condição inadiável, que o novo país democrático tivesse descentralizado e regionalizado o poder político e administrativo. O que não aconteceu.»
O equilíbrio financeiro é essencial na gestão de uma autarquia.  Sabemos nós e sabe o Dr. Pedro Santana Lopes, presidente eleito confortavelmente por maioria absoluta.
Na Figueira, no início deste novo ciclo autárquico, sente-se um ligeiro "cheiro a mudança". Espero que seja no melhor sentido. Bom trabalho. É na força dos autarcas que reside o poder da mudança. 
A Figueira precisa mesmo da consolidação da mudança e de um novo ciclo.
O importante é a construção da NOVA FIGUEIRA. A FIGUEIRA DE SEMPRE tem muito a melhorar. Bom trabalho, pois desse bom trabalho beneficiaremos todos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

5 de Outubro de 1910, a Figueira e os Homens de bem

Quem sempre determina o rumo do mundo, são duas espécies de seres humanos.
Os que fazem da sua vida uma inspiração a luta pela esperança, pela democracia e pelo futuro. 
E os outros.
É por isso, que quando desaparece alguém que deu exemplo de generosidade e dedicação, que olhou para diferentes como semelhantes ou para semelhantes como iguais, ficamos abandonados à sorte de uma humanidade que continua a revelar-se animalesca, verificando-se, nos últimos tempos, uma  revalorização do ódio, uma perseguição do outro, a obsessão da identidade nacional como desculpa para a agressão.
É por isso que Portugal em 2025 está a ficar tão perigoso.

A implantação da República em Portugal, aconteceu como um golpe inevitável dado o clima que se vivia no país.
Nos últimos anos de monarquia a situação sócio- económica do país agravava-se de dia para dia, a crise tinha-se instalado, o povo vivia na miséria em contraste com a abundância em que viviam a classe política, a burguesia e a nobreza. Esta situação agravou-se com a questão do Ultimato Inglês, onde era exigido que Portugal se retirasse do território entre Angola e Moçambique (zona do Mapa cor-de-rosa), perdendo os benefícios de que usufruía nessa região. O descontentamento foi geral, tanto mais que ainda reforçava o poder do Rei, e os ânimos exaltaram-se. A partir de 1906 conjurava-se já o derrube da monarquia constitucional. Em 1908 deu-se, efectivamente, uma primeira tentativa de destituição da monarquia, mas falhou, tendo sido, no entanto, morto o Rei D. Carlos I e o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe. O regicídio deu-se no Terreiro de Paço, onde foram ambos abatidos a tiro. D. Manuel foi o seu sucessor. Nos anos seguintes o clima foi-se agravando e, em 1910 o país vivia num caos com conspirações dos republicanos de um lado, conspirações dos monárquicos do outro, os operários faziam greve reclamando melhores condições de trabalho e de vida e a classe média, mostrava-se tão furiosa como o operariado, pois perdiam com a falência do banco Crédito Predial Português, dirigido por chefes políticos da monarquia. Os republicanos reclamavam, acima de tudo, com a ordem forçada em que se vivia, reclamavam uma “greve geral” e a ideia, por muito disparatada que parecesse, começou a soar bem. As operações que levaram à queda da monarquia revelaram-se fáceis face à desorganização das forças monárquicas.

A Figueira também viveu os acontecimentos de Outubro de 1910.
Manuel Gaspar de Barros, Memórias
"Nos anos que precederam a proclamação da República, os republicanos organizavam conferências de propaganda em todo o país. Na Figueira isso acontecia frequentemente, com numerosos vultos políticos. Só quero agora referir que conhecei então o Prof. Miguel Bombarda. Veio uma vez fazer umas dessas conferências no Teatro Príncipe, que mais tarde ardeu.
Em 1910 eu tinha 9 anos. A nossa habitação era na rua da Lomba e o meu pai tinha um pequeno escritório no rés-do-chão. No dia 3 de Outubro à noitinha o meu pai disse-me: “Vais ser um homenzinho e quero-te dizer uma coisa. Rebentou em Lisboa uma revolução para proclamar a República. Hoje aqui não sabemos mais nada”. Mas no dia seguinte, 4 de Outubro, o meu pai não veio almoçar e à noite não veio jantar. Não sabíamos dele e, ao entrar da noite, minha Mãe começou a ficar inquieta, não sabia o que havia de fazer. A cidade estava agitada, corriam muitos boatos, na madrugada do dia 5, perante a inquietação de minha mãe a minha avó, que tinha grande ascendente sobre meu Pai, resolveu-se afazer alguma coisa. Mandou um empregado procurá-lo pela cidade e dizer-lhe que ela lhe queria falar; ele não apareceu à hora matutina do primeiro almoço, e contou que, de pé, dum banco da praça Nova, tinha conseguido pelo seu prestígio político, manter ordeira toda a população agitadíssima pela vitória da República em Lisboa.
Nos dias seguintes, talvez nos dias 5 e 6 de Outubro, eram manifestações e cortejos por toda a cidade. Vivas, discursos, a cada paragem, homens roucos de tanto gritar. Meu pai seguia nessas manifestações e eu acompanhava-o. Um dos tribunos mais em evidencia era o Snr. António Lino Franco, farmacêutico na Praça Velha. Nas manifestações as filarmónicas tocavam incessantemente a “Portuguesa”, o nosso hino. Em seguida foi a mudança da bandeira azul e branca, da Monarquia, pela verde rubra da República, nos edifícios públicos. No forte de Santa Catarina deixaram-me puxar a adriça para içar a bandeira verde-encarnada. Possuo uma fotografia da cerimónia."

Na foto da comemoração do 5 de Outubro de 1971 na Figueira, (obtida via Mário Bertô Ribeiro) é visível o Homem e  o Mestre da política e da escrita, de seu nome José Fernandes Martins.
Morreu em 28 de Abril de 2000. Tinha nascido a 17 de Fevereiro de 1941. Nome completo: José Alberto de Castro Fernandes Martins. Para os Amigos, simplesmente o ZÉ. 
Purista do verbo e do enredo no dissertar da pena, concebia o jornalismo como uma arte e uma missão nobre. “Também a lança pode ser uma pena/também a pena pode ser chicote!” 
Andarilho e contador de histórias vividas, passou em palavras escritas pelo Notícias da Figueira, Diário de Coimbra, Diário Popular, Jornal de Notícias, Diário de Lisboa, República, Opinião, Vértice, Mar Alto (de que foi co-fundador), Barca Nova (de que foi fundador e Director) e Linha do Oeste. 
No associativismo passou pelo Ginásio Clube Figueirense e Sociedade Boa União Alhadense. 
Lutador contra o regime deposto pelo 25 de Abril de 1974, teve ficha na PIDE. Foi membro da Comissão Nacional do 3º. Congresso da Oposição Democrática que se realizou em 1969 em Aveiro. Chegou a ser preso pela polícia política. 
Com a sua morte, a Figueira perdeu uma parte do seu rosto. Não a visível, mas a essencial. Era crítico e exigente. Mas, ao mesmo tempo, bom, tolerante e solidário. 
Mais de 25 anos depois da sua morte, a Figueira, a cidade que amou toda a vida, continua a ignorá-lo.
Zé Martins, de costas e em primeiro plano, é o terceiro a contar da direita

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Ministro Fernando Alexandre, um exemplo que «poder não é brilhantismo, embora brilhe»...

"Professores em manifestações perdem “aura” da profissão, diz ministro da Educação."
Foto: daqui

Para o ministro da Educação, os professores que se manifestam nas ruas por melhores condições de trabalho — embora com razões para isso — perdem "toda a aura" da profissão, a autoridade na sala de aula e o respeito de gerações de alunos. "Não consigo perceber como é que se desvalorizou tanto, socialmente, os professores. Os professores, durante muitos anos, andaram em manifestações, com razões para isso, mas o professor é alguém que é respeitado na sociedade por ser alguém que sabe, que tem autoridade, que é respeitado por gerações e gerações de alunos. Alguém que anda em manifestações perde toda essa aura", argumentou Fernando Alexandre esta terça-feira, perante mais de duas centenas de alunos da escola secundária Dr. Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz, — a mesma que frequentou entre 1984 e 1990."

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

"Isto é gozar com quem trabalha", mas somos o país que andamos a construir desde 1975...

"Foram recebido separados, mas à saída dos encontros com o Presidente da República, os líderes das centrais sindicais convergiram tanto na recusa do anteprojeto de revisão da legislação laboral, como ao admitirem todas as formas de luta, incluindo um greve geral. Neste momento, a posição que a UGT tem é a de rejeição deste anteprojeto", afirmou o secretário-geral da União Geral de Trabalhadores (UGT), Mário Mourão, após a audiência com o Presidente da República, no Palácio de Belém, em Lisboa.

Para Mário Mourão o anteprojeto do Governo "não é uma reforma, mas uma rutura". E, se o Governo "continuar intransigente", não exclui uma greve geral. "Estamos perante um pacote laboral que é um verdadeiro retrocesso no mundo do trabalho", afirmou, ainda antes dele, o secretário-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional (CGTP), Tiago Oliveira, o primeiro a ser recebido por Marcelo Rebelo de Sousa na tarde desta segunda-feira.

Questionado sobre se a CGTP admite juntar-se à União Geral de Trabalhadores (UGT) para se oporem à reforma laboral, tal como defendido pelos ex-líderes da CGTP e da UGT Carvalho da Silva e Torres Couto, o secretário-geral da CGTP refere que para já a "unidade" se faz "nos locais de trabalho" e apela a que os trabalhadores participem na manifestação convocada para 20 de setembro por esta central sindical."

Via Expresso

Nota de rodapé.

"Pergunte-se a um sindicalista mesmo sindicalista se encontra na legislação laboral proposta pelo Governo uma medida, uma só, com a qual concorde. Pergunte-se a um patrão do tipo Saraiva se encontra uma, uma só, com a qual discorde. Não encontram. Desta vez, as posições extremaram-se como não há memória. Aquilo é tão mau, tão mau, tão mau que até os camaradas da UGT dão sinais de que vão fazer o inimaginável, comportar-se como sindicalistas e representar trabalhadores. Não sei se vão. Seria a primeira vez. A pressa demonstrada e a pressão colocada pelo Governo também sugerem que sim. A Ministra diz que não são obrigados a esperar por um sim obtido na concertação social, que também podem obtê-lo no Parlamento com os votos da coligação PSD/Chega. O PSD volta a assumir que “sim é sim”, que Governa em maioria absoluta sem ter maioria absoluta. E rega a fogueira da conflitualidade com gasolina.

O Governo quer desafiar o país do Trabalho. Pergunte-se a cada português se está disposto a fazer greve, por quantos dias, a ocupar a escadaria do Parlamento, a ir para a rua exigir que matem o monstro. Desta vez, não há margem para hesitações. Tudo, rigorosamente tudo o que é proposto é demasiado mau, uma viagem ao inferno sem caminho de regresso. Se o monstro triunfar, nunca mais ninguém irá para a rua como até aqui. Todos continuarão a poder contar com 52 Domingos por ano para exercerem o seu direito à greve. Nós somos o país que fizermos."

sábado, 6 de setembro de 2025

O «acidente» do Elevador da Glória é, de facto, o «acidente» da Lisboa neoliberal

Pedro Levi Bismarck

"Seria preciso encontrar um termo apropriado para o momento exacto em que um sistema deixa de ser capaz de dissimular e ocultar as suas próprias contradições. O «acidente» não é apenas o «milagre invertido», como dizia Paul Virilio, que expõe as fragilidades da tecnologia e do desenvolvimento: ele é o momento que expõe, na forma mais trágica possível, as contradições de todo um sistema político-económico. Está ainda, certamente, por fazer toda uma história do «acidente».

Deste ponto de vista, o «acidente» com o elevador da Glória não tem apenas um sentido simbólico, não é simplesmente uma metáfora, mas tem uma materialidade própria. É uma espécie de ponto de condensação onde se reúnem de forma catastrófica as consequências e os resultados das políticas económicas neoliberais que uma cidade como Lisboa tem seguido nos últimos anos: (1) externalização dos serviços de manutenção, isto é, privatização da manutenção da Carris e dos serviços públicos, isto é, precarização das condições de trabalho e obliteração das cadeias de transmissão de saber técnico (como realçava Paula Godinho num texto publicado no Facebook); (2) corte de financiamento da Carris (no ano de 2024) e a aparente transferência de uma considerável verba do orçamento desta empresa para apoiar esse megaevento que é a Web Summit e, portanto, a degradação dos serviços públicos essenciais, da infra-estrutura básica da cidade, à custa do nacional-deslumbramento dos grandes eventos unicórnicos e da grande epopeia do marketing das cidades-marca e das best destinations.

A idealidade absurda do neoliberalismo financeiro que Moedas representa é a cidade-Potemkin: puro fachadismo, pura encenação de si mesma. Cidade sem conteúdo, cidade reduzida a forma pura da sua rentabilidade económica. E, por isso, a política da privatização (neoliberal) é, antes de mais, a política de externalização sine die dos custos políticos e sociais (e, por isso, pode Moedas não se demitir, ao contrário do que fez Jorge Coelho aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios).

O «acidente» do Elevador da Glória é, de facto, o «acidente» da Lisboa neoliberal: mas este deve ser visto, igualmente, como sintoma de burnout, sintoma de uma cidade em burnout, porque há, paralelamente à falta de manutenção, a questão da intensidade e da violência do uso de uma infra-estrutura que deixou de conseguir responder ao uso massivo que dela é exigido: justamente, o uso massivo de uma actividade turística que hoje tomou conta do centro da cidade de Lisboa, que devora e coloniza inteiramente a cidade. E, portanto, o «acidente» dá-se no centro, numa das zonas fundamentais de confluência e concentração do turismo de massas e atinge, justamente, um dos «ícones», uma das «representações» fundamentais da Lisboa-turística e da sua ideologia.

O «acidente» revela, assim, de forma tão abrupta, a materialidade social e económica que suporta a frágil encenação fachadista da Lisboa requalificada, da Lisboa cosmopolita, da Lisboa alegre, para expor a condição de uma cidade (como tantas outras) reduzida à pura condição de Luna Park, constituída por infra-estruturas degradadas e sobrecarregadas, uma cidade explorada intensivamente até ao ponto do seu colapso por uma especulação imobiliária animada pela utopia do crescimento sem fim do turismo e da reprodução mágica do capital financeiro. Neste sentido, devemos ver a impecável cor amarela dos elevadores como a superfície-ideológica que dissimula a degradação absoluta dos componentes que constituem a infra-estrutura oculta do funicular. A importância catastrófica do «acidente» na política moderna é justamente essa: o «acidente» é o momento em que o reprimido (a infra-estrutura) aparece de forma violenta na linguagem dissimulada da ideologia política (a superestrutura).

O «acidente» do Elevador da Glória é o «acidente» do neoliberalismo e das suas instituições: externalização, privatização, rentabilidade absoluta de tudo e todos até ao ponto iminente do colapso. Dizia alguém que a arte da política é a mentira. Ora, o «acidente» é o ponto trágico em que a verdade aparece enquanto tal. Todas as políticas têm custos e o «acidente» é, justamente, a forma política em que o custo aparece. Para a lógica política da contemporaneidade a fórmula só pode ser uma: quanto maior o «acidente», maior a mentira."

domingo, 24 de agosto de 2025

A realidade de merda que temos....

Citando Margarida Davim.
«Eduardo Lourenço dizia que “não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza”, o trabalho, dizia, era “para o preto”. Por muito que os portugueses se tenham matado sempre a trabalhar, as elites nacionais fugiam como o Diabo da cruz da ética protestante do trabalho. Hoje, essa fuga ao trabalho é incutida nos filhos pelas classes a quem o 25 de Abril deu instrumentos de mobilidade social. Aqueles que sabem o que era amargar no campo, nem que seja pela memória da avó de lenço na cabeça e pés descalços, querem poupar os filhos a isso. É perfeitamente compreensível. Só não se entende quem, afinal, virá fazer o trabalho, se não o queremos feito por nós nem pelos nossos filhos e também não queremos que cá venham os de fora fazê-lo.»
O que valeu na agricultura, passou-se na pesca, acrescento eu que conheço bem essa realidade.

Enquanto povo demitimo-nos e esquecemos os limites da decência e da competência. 
Duvidam. Os sinais estão aí e não enganam.
Citando novamente Margarida Davim.
«“As pessoas conseguem ser muito más”, diz a minha sobrinha, 9 anos acabados de fazer, enquanto falamos sobre as notícias acerca de um grupo de pessoas que deram à costa no Algarve e lhe explico que elas terão de abandonar o País. Quando se tem 9 anos, o difícil é entender por que motivo não se acolhem aqueles que arriscaram a vida, dias a fio numa casca de noz, a tentar fugir da miséria. “As pessoas são burras”, acrescenta a minha filha, de 7 anos, indignada, enquanto explica à prima que quem vem para cá só está à procura de um trabalho e de viver num país em paz. “Se houvesse uma guerra, eu também fugia”, diz ela, olhando para o mar, talvez à procura de vestígios de outras embarcações que pudesse salvar. Faz uma pausa. E começa a explicar à prima que as bolas de Berlim que acabaram de me pedir na praia foram trazidas para Portugal por judeus que fugiam à guerra “e a um mau mesmo muito mau”

Temos corruptos e apontados corruptos a candidatarem-se a eleições. E as sondagens colocam alguns no poder.
O regime democrático está transformado numa partidocracia. Os partidos políticos foram tomados de assalto por grupos de interesses.
Os políticos, na sua esmagadora maioria, são verdadeiros vendedores de banha-da-cobra.
Os homens bons da terra, foram substituídos pelos padrinhos, por políticos de aviário, os chamados jotinhas.
A merda da realidade (ou melhor, a realidade de merda) está aí.
Continuando a citar Margarida Davim: «Suponho que a empatia seja uma coisa que se gasta. Parecemos bastante dotados dela quando ainda não chegámos à puberdade e entendemos facilmente a ideia de ajudar quem precisa. Depois, começamos a ficar enterrados dentro do próprio umbigo, assustados com um conceito que as crianças não dominam: a escassez. Quanto mais nos convencemos de que o que existe é limitado, mais ameaçadora nos parece a ideia de partilhar o que temos. A questão é que existe, muitas vezes, uma manipulação da ideia de escassez: apresentam-nos como escassos bens que poderíamos facilmente partilhar, ao mesmo tempo que se ocultam as possibilidades multiplicadoras que têm certas ações. Uma fila de gente com turbante à porta de um Centro de Saúde no litoral alentejano parece uma ameaça à possibilidade de ter uma consulta, num local onde há cada vez menos médicos. Uma fila dessa mesma gente no campo, apanhando fruta sob um sol escaldante, pelo contrário, não parece suscitar qualquer ideia sobre os benefícios desse trabalho. Porquê? Porque, muito provavelmente, os benefícios desse trabalho sofrido e mal pago vão quase exclusivamente para os bolsos de quem explora aqueles campos agrícolas e não é obrigado a dar nada (ou quase nada) em troca à população que ali vive.
Quando um produtor de vinho desespera porque não consegue contratar pessoal para a vindima, apesar de oferecer boas condições, oiço-o a explicar-me que os jovens lá da terra se recusam a trabalhar e nem lhe atendem o telefone. São portugueses e não vivem de outro subsídio que não seja a mesada paga pelos pais, que lhes garantem telefones topo de gama e um verão sem responsabilidades, entre os ecrãs e as praias fluviais da zona. Os mesmos pais que se incomodam com a presença cada vez mais visível de africanos e indostânicos nas ruas da terra, onde nunca antes se tinha visto gente tão escura, vindos precisamente para aceitar os trabalhos que que os seus filhos recusam.»

O interesse público foi metido na gaveta e os interesses partidários e clientelares norteiam a malta governante.
O princípio da legalidade, é elástico e moldado aos interesses dos grupos de pressão.
As estruturas do Estado sugadas até ao amago. Veja-se o que acontece aos biliões dos fundos europeus, o que acontece nos Institutos públicos, nas enpresas públicas por onde se passeiam regularmente os cães de fila, os homens de mão dos partidos, sugando milhões aos cofres do Estado, directa e indirectamente, enquanto o povo sua as estopinhas para pagar a factura.
O compadrio, a cunha e a informação privilegiada, tornaram-se a forma habitual e banalizada de gerir a coisa pública.
Temos o negócio admitido (quando não fomentado) dos incêndios.
Os projectos megalómanos decididos sem estudos prévios mas que certamente servem interesses clientelares ávidos destes ElDorados, destes paraísos da corrupção, capazes de transformar orçamentos de milhões em despesa de biliões. Para a sua barriguinha, para a barriguinha dos senhores políticos e quejandos e dos respectivos partidos políticos.

A terminar, citando Margarida Davim.
“Vocês não vão expulsar ninguém, ninguém. E muito menos milhões de pessoas. Primeiro, porque se expulsam tanta gente, no final vai ter de trabalhar até o Abascal. E, segundo, porque não representam os imigrantes. Representam os empresários que os exploram. E se os empresários exploradores perceberem o que querem fazer, até vos comem”.
Não podendo andar a distribuir enxadas ou luvas de trabalho entre os apoiantes dos partidos que querem criminalizar a imigração, talvez seja importante voltar à ideia do trabalho como fonte de dignidade. Não o dinheiro. Não o sucesso. O trabalho. Aquilo que se consegue fazer usando as mãos e a cabeça. Aquilo que produz alguma coisa.»

domingo, 17 de agosto de 2025

O que fazer quando tudo arde?

"O Governo espanhol ativou esta quarta-feira o mecanismo europeu de proteção civil devido aos grandes incêndios que assolam o país."
Área ardida já é 17 vezes superior à de 2024. Entretanto, os incêndios continuam a assolar Portugal continental.  Ao 13º dia consecutivo de fogos de grandes dimensões Portugal pediu ajuda à união europeia.

João Rodrigues

«O que fazer quando tudo arde? O que escrever quando tudo arde? É fraco consolo saber que está tudo limpo à volta da casa cercada por castanheiros, árvore resistente, árvore protetora. É só um lugar, ainda que seja o nosso lugar familiar, mas e o resto? A Presidente da Câmara Municipal de Penedono, do PSD, denunciou: fomos deixados ao abandono


Socorro-me de outros para escrever, dependemos sempre de outros. “A resposta que pode ser dada à degradação por vezes violenta do estado da natureza depende, em última instância, da natureza do Estado”, esclarece Pierre Blanc em Géopolitique et Climat

Portugal já não é bem um Estado. Sem instrumentos de política económica decentes, carcomido pela austeridade permanente, dominado por interesses de classe predadores, de resto apoiantes do processo de fascização em curso, o Estado nem uma frota robusta de aviões de combate a incêndios detém. 

É claro que podemos ter todos os aviões, mas o território ou é ocupado por gente e pelo seu trabalho, na terra e outro, ou haverá sempre, e cada vez mais, combustível em vez de território nacional. 

O Governo acabou de inscrever mais mil milhões de euros no Orçamento este ano para o desperdício armamentista, note-se. Luís Montenegro, um videirinho, anunciou em plena catástrofe o regresso de carros a fazer barulho, vulgo Fórmula 1, essa expressão cultural do capitalismo fóssil que nos conduziu a este estado da natureza. 

Entretanto, lembro-me de Susana Moreira Marques, da sua definição de patriotismo que falta às elites do poder, as que abandonam o país: 

 “Desiludo-me mais quando é o meu país. A negligência, a desorganização, o abandono, os contrastes entre belo e feio, triste e alegre, pobre e menos pobre, que observo quando ando na estrada, ferem-me como não acontece se viajo em países distantes em que as falhas me podem suscitar curiosidade ou até mesmo emoção, mas não me interpelam directamente. Pergunto-me, inevitavelmente, o que posso fazer. Pergunto-me o que diz sobre mim o facto de amar esta paisagem.”»

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O tempo que passou e que parece esquecido

Os militares de Abril ofereceram-nos a Liberdade. Todavia, construir uma Democracia é muito mais do que Liberdade. Numa Democracia, os governantes são eleitos através de eleições justas e competitivas. Não há Democracia sem liberdades civis e direitos humanos.

A Democracia contrasta com formas de governo em que o poder não é investido na população geral, como acontece em sistemas autoritários.
Para ilustrar algo de que muitos ainda se recordam, publico uma breve passagem da edição municipal “O Dia de Todos os Sonhos do Mundo”, da autoria de António Agostinho, uma reflexão sobre a Revolução dos Cravos, a partir da experiência de vida do Autor, antes e depois de 1974, e insere-se nas comemorações dos 50 anos daquele “dia inicial inteiro e limpo”: A EXPLORAÇÃO DOS PESCADORES NO ESTADO NOVO.


Os armadores, com a protecção e a cumplicidade dos mandantes do regime corporativo, que beneficiavam e dominavam o comércio das pescas nacionais - alguns deles também eram proprietários de alguns desses navios - permitiam que as condições de vida a bordo dos navios de pesca, antes do 25 de Abril de 1974, fossem tão desiguais entre a tripulação, que é muito difícil ao cidadão comum aceitar, nos dias de hoje, esta diferenciação tão absurda e desumana. Enquanto que ao Comandante e restantes oficiais (incluindo especialidades ligadas às máquinas) as refeições diárias eram compostas por sopa, prato de peixe, prato de carne e fruta, aos pescadores era servido ao almoço e jantar apenas sopa e um único prato (geralmente peixe) tendo direito numa das refeições a um prato de carne apenas às quintas-feiras e domingos, composto por chispe com feijão ou carne salgada conservada em barricas de madeira. Aos camarotes dos primeiros (que exibiam alguma comodidade apesar da exiguidade do espaço) eram fornecidos pela Companhia Armadora os colchões, enquanto que aos pescadores era-lhes exigido que os trouxessem de casa, se quisessem ter comodidade mínima no fundo dos porões onde dormiam amontoados, convivendo de braço dado com a insalubridade. A remuneração era constituída por um salário mísero, que não era proporcional à extrema dureza do trabalho que efectuavam.
E, tudo isto, permitido e incentivado pelo regime do Estado Novo. Muitos, onde se inclui o Almirante Henrique Tenreiro, enriqueceram com a epopeia das pescas. Vivendo sempre à sombra dos privilégios que o regime lhes concedia, procuravam ostentar uma pose de beneméritos, quando no fundo se aproveitaram da extrema pobreza e das necessidades dos mais carenciados para fazerem deles os “eternamente agradecidos”, enquanto eles se auto intitulavam os “historicamente benfeitores”.


Sempre foi assim. E, em certos aspectos, continua assim. Continua a haver mandantes no Portugal Europeu e Democrático, pós 25 de Abril.
Para os que acreditam no que por aí se publica nos jornais, fica este texto de Miguel Szymanski.
"Fui dispensado de vários jornais por me recusar a fazer fretes. Na revista Sábado o director, na altura, hoje já reformado do jornalismo, veio ter comigo e disse "lamento mas és persona non grata junto da administração". O empresário André Jordan tinha-se queixado de uma entrevista que lhe fiz e que nunca foi publicada. No grupo do Diário Económico foi Ricardo Espírito Santo Salgado quem se queixou que eu o retratara "como se fosse um gatuno" e ameaçou retirar publicidade do grupo. "Não te posso dar mais trabalhos para escrever, lamento, ordens superiores", disse-me o director do jornal. Na revista GQ (onde publicava crónicas) as queixas vieram numa carta de Jardim Gonçalves. No último artigo que escrevi para o Expresso (o contrato como colaborador nunca foi rescindido) critiquei Sócrates quando ainda era primeiro-ministro. Recusei pedidos de artigos para a revista Up da TAP (sobre a EDP) porque eram fretes. A minha mulher foi despedida da Cofina por se recusar a escrever 'publi-reportagens', textos publicitários mascarados de jornalismo. A directora da revista exigia-o, ela insistiu em recusar-se e o director de recursos humanos, genro do patrão da Cofina, disse-lhe "o salário ao fim do mês também não vem com código deontológico". Despediram-na. Por causa disso a minha mulher e eu tivemos de sair de Portugal e de ir trabalhar para a Alemanha. Fomos de carro, ambos desempregados, com meia dúzia de malas na bagageira e duas crianças no banco de trás. Não foi fácil. Ser jornalista não é fácil."


Na foto, Maria Emília Archer Eyrolles Baltasar Moreira, conhecida como Maria Archer (Lisboa, 4 de Janeiro de 1899 - Lisboa, 23 de Janeiro de 1982). Foi uma escritora portuguesa e uma Mulher mais do nosso tempo do que do seu tempo. Durante a vida, Maria Archer foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em particular, das que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade retrógrada e, como se diria em linguagem actual, "fundamentalista", em que o regime impôs a regressão às doutrinas e práticas de um patriarcalismo ancestral.

A escrita, servida pelos dons de inteligência, de observação e de expressividade foi para Maria Archer uma arma de combate político. Como disse Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante".
Maria Archer, grande escritora, foi homenageada no dia 22 de Agosto de 2015, na Cova-Gala. Em em 1938 na sua novela "Entre Duas Viagens" escrevia assim sobre nós.
"No primeiro domingo de Janeiro faz-se na Cova a romaria anual a São Pedro, padroeiro dos pescadores. No extremo da povoação, num ermo desabrigado, ergue-se a pequena e humilde capela do santo. Em redor alongam-se as dunas cobertas de juncos, enquadradas pelo pinhal e pelo mar. S. Pedro, se viesse dos areais da Judéia, com as suas rústicas sandálias de caminheiro pobre, as suas barbas austeras, a face tostada pelo ar salgado, sentir-se-ia à vontade entre a gente da Cova e no seu agreste cenário de deserto ribeirinho".
Foi um combate em que a sua vida e a sua arte se fundem - norteadas por um ostensivo propósito de valorização dos valores femininos, de libertação da mulher e, com ela, da sociedade como um todo.
Ela é já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um longo exílio ...
Maria Archer é uma grande escritora E pode ser lida apenas como tal. Mas permite também diversas outras leituras.