O mundo que temos é este em que vivemos. Portanto: «não importa para onde tentamos fugir, as injustiças existem em todo o lado, o melhor é encarar essa realidade de frente e tentar mudar alguma coisa.» Por pouco que seja, sempre há-de contribuir para aliviar...
Um partido como o nosso não. Se fosse assim, nem sequer existíamos, pois se durante 48 anos não pudemos participar em eleições, já viu se vivêssemos dos votos? Essa questão é que é a questão verdadeiramente decisiva: nós não vivemos nem dependemos de votos para viver. O nosso partido vive e sobrevive, sobretudo, da relação e ligação direta aos trabalhadores e às suas necessidades.
...enquanto partido político, temos um papel que não é o papel dos sindicatos. Acho que não vale a pena sequer ninguém viver amedrontado com isso. Repare que, cinco anos depois de termos sido criados, houve um golpe militar que instaurou o fascismo em Portugal. E logo nessa altura uma das grandes orientações do golpe que permitiu implantar o fascismo em Portugal era acabar com a ameaça comunista. Pela experiência que já temos destes quase 100 anos, temos bagagem que nos permite encontrar soluções para evitar que isso aconteça. Ao longo dos anos, o PCP foi sofrendo golpes duríssimos e em alguns momentos até com a prisão de quase todos os dirigentes. Houve circunstâncias durante o período da ditadura em que os principais dirigentes do PCP estiveram encarcerados. Por tudo isto, não vivemos desesperados com aquilo que são os resultados eleitorais.
Porque é que é comunista?
Porque continuo a achar que não podemos viver na sociedade em que estamos e que a humanidade tem condições para dar a todos os seres humanos outras condições mais próximas das suas realizações enquanto seres humanos.
Isso é ser comunista?
Sim, é lutar pela transformação da sociedade para garantir que as condições que existem no mundo devem ser postas ao serviço de todos os seres humanos, e não apenas de alguns. Portanto, a minha conceção dessa sociedade nova é esta, que se encaixa na perspetiva com que o PCP continua a intervir."
Das bombas de 75 a “vice” do Parlamento? Via Filipe Tourais, fica o Curriculum de Diogo Pacheco de Amorim, o número dois do Chega e seu ideólogo, que Ventura indicou como candidato a Vice-presidente da Assembleia da República. «Tem mais de ex-presidiário do que qualquer outra coisa, mas nunca cumpriu pena nem nunca foi julgado como devia apesar de ter militado no MDLP.
Para quem não saiba, e como se verá adiante é perfeitamente natural que a maioria não saiba, o MDLP foi um grupo terrorista armado liderado por António de Spínola. Este não teve dificuldade em ser escolhido para Presidente da Junta de Salvação Nacional logo a seguir ao 25 de Abril e, de seguida, ser designado Presidente da República.
Teve que fugir para o Brasil depois de liderar um golpe de Estado fracassado em 11 de Março de 75. Ainda assim, apesar do golpe e apesar dos mais de 600 atentados à bomba do MDLP que mataram tantos inocentes, entre eles, porventura os mais conhecidos, o padre Max e a sua acompanhante, crimes que ficaram por julgar, o aclamadíssimo pai da democracia Mário Soares encheu-o de condecorações e honrarias em 1987 pelos seus “feitos de heroísmo militar e cívico e por ter sido símbolo da Revolução de Abril e o primeiro Presidente da República após a ditadura”.
DiogoPacheco de Amorim é um dos muitos filhos da contra-revolução que foi feita pelos seus partidos. Gosto imenso de lhes ouvir aqueles “como é possível”, "fascismo nunca mais" e “ao que isto chegou” que se vão esforçando por dizer para a câmara e para o microfone com a mais profunda indignação. Acho bonito. Comovo-me sempre quando os vejo de cravo ao peito no 25 de Abril, a data da revolução que eles foram convertendo na sua oligarquia abrileira. Os cravos também não comemoram todos exactamente o mesmo Abril.»
Com perto de metade do território continental em seca severa e extrema, a agricultura e a pecuária estão em risco.
Podemos ter “um problema muito sério”.
Situação “ainda não é dramática, mas para lá caminhamos”.
A situação é mais severa no sul, mas atinge todo o território nacional e traz consequências para sectores como a agricultura, que já pede apoios.
Ao tempo que não sentimos o que é ter de volta o inverno e a nossa amiga chuva. Depois de meses de seca, ansiamos começar a repôr os níveis de água nas barragens e albufeiras nacionais.
Para muitos isto pode parecer uma observação banal, mas para mim não é.
Durante o ano passado, com especial incidência no Verão, muitos portugueses sentiram na pele o que é querer abrir uma torneira e não ter água. Ou ter água mas esta estar imprópria para consumo.
Acredito que no futuro não haverá "guerras" pelo petróleo, pelo ouro, pelas influências, mas sim pela água potável. Um bem cada vez mais escasso e tão essencial à vida na Terra. Janeiro, o primeiro mês de 2022, foi um dos três janeiros mais secos dos últimos 20 anos.
Embora em nítidas manobras de aproximação ao partido da sua família política natural, Pedro Santana Lopes é independente, desde 2021. Foi nessa condição que, 20 anos depois, através do movimento Figueira A Primeira
(FAP), regressou ao lugar onde já fora feliz. Ganhou a Câmara da Figueira da Foz, com maioria relativa. Nesta entrevista (texto Jot’Alves /fotografia Pedro Agostinho Cruz), a propósito
dos primeiros 100 dias de mandato, não poupa nas críticas à oposição e manifesta
determinação para cumprir o programa eleitoral com que se apresentou ao acto eleitoral realizado em 26 de Setembro de 2021.
Uma entrevista a não perder na edição de hoje do Diário as Beiras.
Quem tem acompanhado as reuniões de câmara sabe que estes primeiros 100 dias não têm sido fáceis para Santana Lopes e a sua equipa de vereadores. Citando Pedro Santana Lopes: "ter na oposição
o ex-presidente
da câmara, mais a
equipa que estava,
é uma coisa muito
complicada, porque estão, a toda a
hora, porque ainda
não digeriram [a
derrota], a ver se o
que nós estamos a
fazer é aquilo que
eles queriam que
fosse feito."
A maioria absoluta do PS surpreendeu. Foi mais bem recebida, porém, do que qualquer acordo à direita que envolvesse o Chega, um cenário“tenebroso”, para quase todos, incluindo o presidente Marcelo.
Ao contrário do falecido Jorge Sampaio, em 2004, a dissolução da Assembleia da República em 2022 não foi um acto reactivo nem emocional de Marcelo Rebelo de Sousa. O que estava em causa em 2004 era, como aconteceu, a remoção do líder do PPD-PSD, Santana Lopes.
Agora, a onda foi surfada pelo Presidente Marcelo com calculismo e frieza: o objectivo era afastar a esquerda da esquerda da esfera de influência do poder. Só que não contou com um pormenor inesperado: a maioria absoluta alcançada por António Costa.
Em circunstâncias normais tal não seria possível. O PS não merecia ganhar com maioria absoluta. O papão do Chega foi decisivo. Dadas as actuais circunstâncias, a exigência é máxima ao futuro governo de maioria absoluta. Esta maioria absoluta obrigou o PS a vir a ter de governar. As desculpas acabaram. O PS de maioria absoluta não se pode refugiar em subterfúgios disfarçados sob o manto diáfono do diálogo com os pequenos partidos.
Por falar em pequenos partidos: quer o BE, quer a CDU, quer o CDS, mais este último, tiveram uma surpresa desagradável no passado domingo. À esquerda, o eleitorado amedrontado e condicionado pelas sondagens, borrifou-se para a CDU e para o BE, que se apresentaram como caucionadores da moralidade e bons costumes do partido maior - neste caso o PS.
Esta maioria absoluta vai ser um problema, mal tome posse o novo Governo. Desde logo, para o Presidente da República. Viu-se livre do problema da governabilidade, mas ficou com um novo: como irá Marcelo Rebelo de Sousa fiscalizar um governo e um primeiro-ministro com maioria absoluta?
Ainda por cima num tempo em que vamos ter um Plano de Recuperação e Resiliência com 14 mil milhões de euros para executar e reformas estruturais que o País necessita e tem para fazer.
O protesto e agitação nas ruas vai reganhar importância e frequência. Como é que Marcelo Rebelo de Sousa vai gerir "a sua natureza" e utilizar todas as suas prorrogativas constitucionais e também do seu magistério de influência, que certamente contará com novas e criativas soluções, diatribes e estratagemas, próprias daquela "sua natureza" que o fez falar no Dia de Reflexão?
Mário Soares inventou as Presidências Abertas para apoquentar Cavaco Silva. Qual será a criação que Marcelo Rebelo de Sousa encontrará para aborrecer a vida ao "absoluto" António Costa? A vitória de António Costa foi impressionante, mas os efeitos vão ser brutais. A não ser que se venha a provar que António Costa pode fazer a diferença.
Tendo cometido - e permitido - erros no passado, não pode deixar repetir esses erros no futuro. Tem de apresentar um rumo definido. E, sobretudo, deixar claro que tem autoridade e vontade de a exercer, num partido que fechou o socialismo na gaveta e mandou a chave fora há décadas. António Costa tem um desafio gigantesco: fazer frente ao nacional-porreirismo, a ideologia oficial do PS. Gostaria de estar optimista, mas não acredito que o pântano seque tão cedo.
«A maioria absoluta do Partido Socialista foi obtida com a perda de votação do BE e do PCP. (…)
Esses eleitores terão votado no PS. Fizeram-no na sequência de sondagens que anunciaram a grande proximidade entre PS e PSD e eventualmente um empate técnico. Em paralelo Rui Rio, que nunca tinha dito de forma inequívoca que não faria acordos com o Chega, admitiu, na fase final da campanha, a possibilidade de entendimento parlamentar. Estes eleitores – mais à esquerda que o PS e mesmo sabendo da importância, para o BE e para o PCP, destas eleições – não arriscaram.
A maioria absoluta obtida pelo PS não decorre, como tanto se diz, da análise que esses eleitores fizeram acerca das responsabilidades pela crise política criada por falta de consenso entre os partidos de esquerda. Quando a variável era essa, tudo estava incerto para o Partido Socialista. Ela foi possível sim na sequência das previsões apontadas pelas sondagens, uma vitória de Rui Rio era possível, em articulação com a possibilidade de governação de direita em entendimento com o Chega. Estes dois factores foram determinantes na expressiva vitória. (…)
Há entre os eleitores do Chega o ódio mais profundo à governação de António Costa e é anunciado propósito do partido o pôr termo à governação socialista. Muito bem: ajudaram a obter a maioria absoluta do governo que queriam derrubar. E repare-se que, ao mesmo tempo que favoreceram a vitória do PS, conseguiram a sua própria vitória. (…)
Quando os eleitores votam sob pressão, ou para evitar um perigo, podem estar a abdicar da escolha fundamental: a da força política que melhor defenderá aquilo em que acreditam ou os seus direitos. Mais, os eleitores estão a assinar uma dura sentença aos partidos mais à esquerda. As escolhas políticas devem ser feitas em liberdade e essa liberdade não vai existir enquanto o partido Chega estiver entre nós. Está a ser pedido aos eleitores que assumam responsabilidades que não são suas. Está a ser-lhes pedido que comemorem a sua derrota. O “sistema” mantém o partido “anti-sistema” como possibilidade de voto e a vida política agita-se à volta dessa possibilidade. Diziam que não passará. Mas tem vindo a passar e a fazer-se sentir.
O combate às desigualdades é condição do bem-estar colectivo e do próprio desenvolvimento económico. Não existe crescimento económico assente na miséria de tantas pessoas. O que se passou no domingo não são boas notícias para a urgência deste combate.
A esquerda, à exceção dos que insistem na arqueologia das culpas pela falta de acordo no Orçamento de Estado, desejava e bem a vitória de António Costa. Não acredito que desejasse uma maioria absoluta socialista. Certamente não desejavam que a representação parlamentar do BE e do PCP fosse praticamente dizimada.
Vamos então a essa parte dos resultados: será vantajoso para o país que estes partidos tenham uma representação parlamentar tão diminuta? A história recente ensina que não. Estes são os partidos com a vocação de, em qualquer circunstância, defender primeiro os interesses dos trabalhadores. A sua história é a da luta contra as desigualdades sociais. Não faz sentido, num cenário complexo para tantas famílias, que a voz dos mais desfavorecidas tenha sido assim penalizada. A estratégia não pode passar por baixar a guarda nesta frente. A governação do Partido Socialista, sem o diálogo com esta esquerda, perde valor.
De quem é a responsabilidade? Podemos continuar a insistir nas demissões dos líderes partidários e, à semelhança do que já havia sido feito aquando do desentendimento da esquerda, a atirar culpas. Fala-se especialmente na demissão de Catarina Martins. Vejo uma mulher consistente, incansável e perseverante na luta que trava. Uma líder firme. Não vejo que moral têm as pessoas, sobretudo as que não fazem parte do partido e que não votam nele, de exigir a sua demissão. Com menos intensidade fala-se da liderança do PCP e adivinham-se novos cenários. Serão todos bons; agora que se conhece melhor o João Oliveira, grande revelação nesta campanha para quem esteve atento. Mas dificilmente encontrarão um homem como Jerónimo de Sousa. Há ali uma verdade e uma dignidade que não são comuns. Comparar o Jerónimo com os restantes homens é como comparar uma biblioteca com uma edificação.
É uma boa altura para olhar para dentro e ponderarmos a nossa própria avaliação e as nossas próprias falhas, que são imensas. Parar de sindicar demissões. Já bastam bem os que, entre nós, se demitiram no domingo passado. E, claro, é altura de felicitar o novo governo, de desejar e exigir que faça um bom trabalho e que dialogue de facto com estes partidos. A geringonça nasceu da sua vontade, a maioria absoluta do seu sacrifício. O domingo foi sangrento.
É boa hora para refletir. Refletir sobre domingo; se fomos uma solução ou se fomos um problema. A música costuma ser boa companhia mesmo que seja uma que não se goste muito.»