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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Mondego não mente. Nós é que não quisemos ouvir

"A cheia de fevereiro de 2026 não foi uma surpresa para quem conhece o rio. Foi a consequência previsível de décadas de ilusões, de má manutenção e de construções onde nunca deveriam ter sido feitas. Está na hora de dizer o que a ciência sabe há muito.

Pedro Proença Cunha

 Prof. Catedrático de Geologia Sedimentar da Univ. de Coimbra e investigador no MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) Expresso

A 11 de fevereiro de 2026, no Baixo Mondego, o dique marginal direito do canal principal do Mondego, cedeu por baixo da autoestrada A1. O tabuleiro da mais importante autoestrada do país abateu horas depois. A água alastrou pelos campos. Portugal ficou em choque. Mas há uma pergunta que poucos pensaram naqueles dias de lama e sirenes: roturas de diques e alagamento das planícies de inundação, já tinham acontecido antes; e voltarão a acontecer.

Há 827 anos que a documentação escrita sobre as cheias do Mondego, nos avisa. Já em 1199 — quando uma cheia catastrófica inundou a Baixa de Coimbra "em menos de uma hora" e alagou o Mosteiro de Santa Cruz — que este rio demonstra, com brutal regularidade, o que é capaz de fazer. As crónicas medievais, os registos eclesiásticos, as gazetas do século XIX, os dados horários do século XX: tudo diz o mesmo. E nós continuámos, inconscientemente e imprudentemente, a edificar nas planícies de inundação.

Escrevo este artigo com base no relatório técnico-científico que elaborei a pedido da Agência Portuguesa do Ambiente, no seguimento da solicitação da Exma. ministra do Ambiente e Energia. Tive 100 dias para o elaborar e acesso a dados que, anteriormente, nunca tinham sido sistematizados e interpretados desta forma. O que encontrei confirmou os piores receios e também revelou erros que não podem voltar a ser tolerados.

O escasso valor estatístico que tem causado colossais prejuízos

Durante décadas, o caudal considerado "de cheia centenária, em regime natural" no Mondego — aquele que serviu de referência para o Projeto Hidráulico do Mondego, os Planos Diretores Municipais (PDMs) e para os Planos de Proteção Civil (PPCs) dos municípios com territórios na planície aluvial — foi de 3660 m³/s. Foi obtido a partir de 50 anos (1915-1965) de registos em Coimbra. Depois, com base em 63-80 anos, foi estimado em 4100 a 4500 m³/s. Para um rio com grande variabilidade interanual de caudal, isto equivale a calcular a probabilidade de um caudal com muito fraco valor estatístico.

Com base na análise de 805 fontes documentais ao longo de 827 anos — das crónicas de Santa Cruz às séries hidrométricas modernas —, obtive uma estimativa de provável caudal centenário de ~4500 a 5200 m³/s (respetivamente, com base nas distribuições pelo Empírico ou pelo Gumbel). Note-se que apenas as cheias ordinárias a catastróficas foram documentadas antes de 1915.

Um caudal desse nível, provocaria o colapso da obra hidráulica do Baixo Mondego e o alagamento total das planícies de inundação, incluindo as baixas de Coimbra e Sta. Clara. É isso que está em risco.

A análise histórica é ainda mais dramática: de 1199 a 2026, ocorreram em média cerca de 5 cheias por século com caudal >3000 m³/s, e 3 cheias com caudal >4000 m³/s (caudais naturais). Oitenta e três por cento das grandes cheias acontecem entre dezembro e fevereiro. O período crítico é, exatamente, o inverno. Nada disto é novidade para a ciência. Mas parece continuar a ser desconhecido por quem licenciou e por quem continua a licenciar bairros nas planícies de inundação.

As barragens fizeram o que podiam. Mas não fizeram milagres

O sistema de regularização hidráulica do Mondego — as barragens da Aguieira (1981), Raiva (1983) e Fronhas (1987), o Canal Principal do Mondego com diques marginais e o Açude de Coimbra — é uma obra de engenharia notável, com um investimento de 516 milhões de euros a preços atuais. Durante 19 anos, de 1981 a 2000, não ocorreram eventos de elevada precipitação e as barragens conseguiram encaixar afluências de pequenas cheias.

Este aparente sucesso criou a ilusão de que o problema estava definitivamente resolvido.

Através da gestão hídrica assegurada pelas barragens, o projeto prometia que um caudal atenuado de 2000 m³/s (equivalente a um natural de 3000 m³/s) em Coimbra seria um evento raro, decorrente de uma precipitação extraordinária. Mas, na realidade, de 1987 a 2026, esse valor foi atingido quatro vezes em 39 anos: em 2001, em 2016, em 2019, em 2026. Em alguns anos, a gestão de caudal pelas barragens podia ter sido melhor. Mas, principalmente, houve uma subestimação do rio.

A A1 foi construída em cima do dique. Literalmente

A causa principal da rotura de fevereiro de 2026 não foi a chuva, não foram as barragens, não foi o rio. Foi uma decisão de engenharia tomada em 1991: uma linha de pilares do tabuleiro da A1 foi implantada no dique direito do Canal Principal do Mondego, construído dez anos antes, em 1981.

Os pilares penetraram em profundidade no aterro arenoso do dique, criando transmissão de vibração, diferenças mecânicas, zonas de fragilidade e facilitação da percolação; além disso, a queda dos tubos de escoamento de água pluvial da A1 faz-se diretamente sobre a areia do dique. Com um caudal extremo, a pressão hidráulica lateral fez o resto. A consequência negativa da opção de 1991 foi potenciada pela falta de uma fiscalização moderna.

Em imagem de satélite de outubro de 2025 — quatro meses antes da rotura —, era já visível um abatimento significativo no coroamento desse dique. O descarregador em sifão imediatamente a montante da A1, que deveria ter aliviado parte do caudal para os campos agrícolas adjacentes, tal como desde 2021, praticamente não funcionou.

Há ainda uma causa secundária que merece atenção. Entre 2017 e 2018, fez-se deposição de areia proveniente do desassoreamento do Açude de Coimbra diretamente no leito do Canal, a montante e a jusante, exatamente, do cruzamento com a A1. Este excesso local de areia elevou artificialmente o nível do leito, o que subiu localmente o nível de água, aumentou a pressão lateral no dique, galgou-o, rompeu-o e levou a que imensa areia ficasse a cobrir os campos agrícolas vizinhos (com 1 m de espessura). A ciência não adivinha. Mas quando os dados estão disponíveis, alguém tem de lê-los, percebê-los e atuar em conformidade.

Esta coincidência perturbante pode ter uma explicação geológica: identificámos neste local um lineamento tectónico, com direção NNW-SSE, alinhado com o raro vale retilíneo ao longo da ribeira de Frades. O traçado desta provável falha tectónica ativa atravessa o canal principal do Mondego muito junto à A1. Uma eventual movimentação desta falha contribuiria para a fragilização local de ambos os diques. É uma hipótese remota que precisa de investigação pormenorizada — mas que não pode ser ignorada dada a surpreendente e, aparentemente inexplicável, posição das duas roturas.

A barragem da Aguieira e o sismo que ninguém ainda quis discutir

A falha de Vérin-Penacova é uma das maiores falhas sismicamente ativas de Portugal continental. Tem muito mais de 800 km de extensão total e situa-se a apenas 6 km da barragem da Aguieira. Um sismo de magnitude 7,1 nesta falha — com período de retorno estimado de 14300 anos portanto, improvável, mas não impossível — provocaria, no percentil 95%, acelerações entre 0,6g e 0,8g. A barragem foi, aparentemente, projetada para suportar 0,4g.

O muito improvável colapso (natural ou antrópico) da Aguieira geraria uma gigantesca e rápida onda de água, que chegaria a Coimbra 1 h depois. O alagamento atingiria, provavelmente, 8 m de altura de água nas planícies de inundação, alagando-as completamente — incluindo as baixas de Coimbra e de Santa Clara, bem como todo o Baixo Mondego.

A probabilidade é muitíssimo baixa, atendendo à robustez da estrutura e cálculos feitos. Contudo, as diferenças no comportamento mecânico nos encostos da barragem ao maciço de rochas metamórficas pouco resistentes poderá gerar rotura. As consequências de uma rotura seriam devastadoras.

É recomendável fazer a reavaliação do risco sísmico acompanhada de eventual manutenção da barragem. Não porque o colapso seja provável, mas porque a prudência assim o exige dado que ainda não conseguimos prever sismos. Note-se que as consequências deste raríssimo evento não estão consideradas nas Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI, PDMs e PPCs dos municípios do Mondego.

Girabolhos: uma resposta política a um problema de gestão

Dias depois da cheia do passado fevereiro, o Governo anunciou o relançamento da barragem de Girabolhos como solução para o problema das inundações a jusante. A intenção é compreensível. Mas a análise de fundamentação técnica e científica obriga a uma muito grande prudência na decisão política.

A sub-bacia que Girabolhos controlaria representa apenas 15% da bacia do Mondego. Em fevereiro de 2026, o volume de precipitação na sua área de influência teria enchido completamente a albufeira em apenas sete dias — e depois continuaria a transbordar. O rio Ceira, que trouxe mais de 1000 m³/s nas cheias de 2019 e 2026, entra no Mondego a junto a Coimbra, completamente fora do sistema de controlo.

Girabolhos não resolve, nem muito parcialmente, as cheias extraordinárias ou catastróficas. Poderia constituir uma nova fonte de energia renovável e complementar a gestão de pequenas ou moderadas cheias, bem como de secas. Mas os impactos ambientais no rio Mondego seriam muito altos. Entre eles encontram-se a diminuição da qualidade e da oxigenação da água, desaparecimento de habitats essenciais às espécies aquáticas, perda de conectividade longitudinal essencial para espécies migradoras, perda de vegetação ripária essencial à manutenção de uma temperatura da água mais baixa no verão e limitação dos blooms de cianobactérias, entre outros.

O Estudo de Impacto Ambiental existente é de 2016 — e está, no mínimo, desatualizado. Num momento de crise emocional não se tomam as melhores decisões de engenharia.

O que é preciso fazer — e o que não pode continuar a acontecer

Há medidas urgentes que não exigem estudos, nem licitações, nem anos de espera. Exigem rigor técnico-científico na fundamentação e a consequente vontade e decisão política:

Primeiro: Proibição imediata de implantação de novas edificações nas planícies de inundação. Não é uma medida impopular: é a única medida racional. Se não houver edifícios nas planícies de inundação, não há risco fluvial. É tão simples quanto isso.

Segundo: Gestão dinâmica das cotas de espera nas barragens da Aguieira e Fronhas, com base em previsões meteorológicas a 15 dias — disponíveis e fiáveis, hoje, com tecnologia existente. Durante dezembro, janeiro e fevereiro, as albufeiras devem estar o mais vazias possível.

Terceiro: Manutenção preventiva e regular dos diques do canal principal do Mondego. Desassoreamento da albufeira do Açude de 3 em 3 anos, mas dependente de cada montante extraído e transferido, bem como tendo em conta a época de reprodução das espécies piscícolas e outras. Remoção da vegetação arbórea nos diques. Inspeção geotécnica anual. Não é glamoroso. Não dá títulos nos jornais. Mas evita que um dique que, segundo a moderna engenharia hidráulica foi construído para ser “não galgável e intransponível”, rompa numa tarde de fevereiro.

Quarto: O caudal natural correspondente a uma recorrência de 100 anos agora determinado é muito superior ao que foi estimado no projeto da Obra Hidráulica do Mondego, bem como o correspondente caudal amortecido pelas barragens. Assim, é necessária uma revisão urgente das Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI. Consequentemente, também dos PDMs e dos PPCs dos municípios do Mondego.

Quinto: Criação de uma entidade de Gestão Integrada da Bacia do Mondego, com: competências reais, amplas e claras; recursos humanos qualificados e em número adequado; recursos financeiros necessários aos objetivos a atingir; e ser usado um modelo de cogestão participada. A gestão hídrica de uma bacia hidrográfica não pode continuar a ser feita em silos — a APA de um lado, a EDP de outro, os municípios de um terceiro, os agricultores a reclamar e a Proteção Civil a apagar fogos, bem como as populações ribeirinhas em desespero…

A lição do Mondego é muito antiga

Em Coimbra ocorreram muitas cheias catastróficas, nomeadamente: 1788 (4800 m³/s); 1331 (4500 m³/s); 1764 e 1843 e 1948 (4200 m³/s); 1411, 1739 e 1821 (4100 m³/s). Mesmo após a construção da gigantesca barragem da Aguieira (1981) ocorreram grandes cheias: em 2001, cedeu um dique junto à A1 e ocorreram mais 15 roturas em diques; em 2019 ocorreram 2 roturas em diques; em 2026, cedeu o dique do outro lado, exatamente, na mesma seção transversal onde a A1 abateu.

De cada vez que o Mondego transbordava, dizia-se que tinha sido excecional. Que não voltaria a acontecer. E era feito mais um pormenorizado relatório a listar as eventuais causas. Mas, depois, voltava a ocorrer mais um grande caudal de cheia, que o projeto hidráulico preconizava não poder vir a acontecer!

E de cada vez que o dizíamos, construíamos mais um pouco nas planícies de inundação, aprovávamos mais um PDM otimista, mantínhamos mais uns anos os diques sem manutenção adequada ou mesmo uma Câmara Municipal chegava a suspender o seu PDM para poder edificar extensivamente, nas planícies de inundação!

A ciência, nomeadamente, os especialistas de investigação científica, têm a obrigação de dizer a verdade, mesmo quando é incómoda. A verdade é esta: o Mondego não está a comportar-se de forma anómala. Está a comportar-se exatamente como sempre se comportou. O que mudou foi a quantidade de casas, estradas e infraestruturas que pusemos no caminho da sua água.

O Ordenamento do Território fundamenta-se nos dados científicos recolhidos e estudados, aplicando as regras da prevenção face à salvaguarda de pessoas e bens.

Portugal vai voltar a ter grandes cheias no Mondego. Nos últimos 102 anos a frequência de cheias em regime natural de 3000 m³/s (equivalente a 2000 m³/s com controlo por barragens) é de 20 anos (5 cheias por 100 anos, valor igual nos últimos 827 anos). A questão não é se o rio vai transbordar.

A questão é se da próxima vez haverá mesmo muita gente nas planícies de inundação a perder a sua casa, o seu carro, todos os seus outros bens ou a sua vida... Isso não depende do rio. Depende de nós."

24 anos de CAE

Se recuarmos à segunda década dos anos 80 do século passado, verificamos que durante cerca de 10 anos (1986 a 1995) houve em Portugal um acentuado  investimento em recintos culturais, por parte das autarquias  locais. 
A Figueira, como tem sido habitual, apanhou também esta onda com alguns anos de atraso. O Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz abriu em 2002. 
Comemorou no passado dia 1 de Junho 24 anos.
Em 1999, com Santana Lopes como presidente, a Câmara Municipal da Figueira da Foz adquiriu a Quinta da Olaias, um espaço junto ao edifício do Museu e Biblioteca e ao Parque das Abadias, por 1 500 000 €. O objectivo era construir um centro de artes e espectáculos. Santana Lopes, sabia que  a Figueira da Foz precisava de um espaço capaz de receber com dignidade grandes produções, grandes espectáculos e concertos. 
A primeira “pedra” foi lançada a 5 de Novembro de 2000. 
Todavia, o processo que levou à construção do CAE não foi pacífico, por questões políticas e financeiras. A aprovação do CAE, prevista no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio, foi suspensa durante um mês, por intervenção directa do Secretário de Estado do Planeamento. Porém, Santana Lopes nunca desistiu. A sua determinação na defesa da candidatura da construção do CAE, levou o Governo a criar um Programa de Valorização Territorial, uma novidade do III QCA, para poder enquadrar nesse programa o investimento do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.
O processo de construção do CAE, depois de submetido ao III Quadro Comunitário de Apoio, lá se candidatou a fundos comunitários. O projecto foi aprovado. O investimento foi de 10 milhões de euros, comparticipado em 50% pelos fundos comunitários. Os outros 50 %, vieram da Administração Central (25 %) e do Município figueirense(25%).
Foi assim, depois de mais algumas peripécias que aconteceram pelo meio, que foi possível inaugurar o CAE no dia 1 de Junho de 2002, já com o  falecido eng. Duarte Silva como presidente da autarquia figueirense.
No início, a gestão do CAE esteve a cargo da Câmara Municipal. Entretanto, também para tornear  dificuldades que tinham ver com a dependência do orçamento camarário, a autarquia figueirense passou o CAE para a gestão da Figueira Grande Turismo EM. 
Depois da extinção da FGT voltou para a tutela da CMFF, que é a quem compete a manutenção deste equipamento cultural de forma a permitir que o seu funcionamento decorra com todas as condições de segurança.
Um equipamento cultural, como o CAE, assume papel insubstituível na promoção do desenvolvimento do nosso concelho. A cultura é fundamental no desenvolvimento  local.
Passados todos estes anos, a oferta de serviços culturais proporcionada pelo CAE, continua a contribuir para melhorar a qualidade de vida dos figueirenses e assume-se como um elemento de reforço da competitividade do concelho da Figueira, ao  promover a sua imagem e a sua visibilidade no exterior?


segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Central de Lares com aumento de 215% de poluição"

A preocupante conjuntura geopolítica actual, aliada à necessidade de enfrentar a tripla crise planetária, alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição, responsabiliza todos, Estado Central, Poder Local e sociedade civil, para agir em conjunto, em prol das gerações actuais e futuras.

Via Diário as Beiras: "Ranking anual elaborado pela associação Zero aponta um aumento de emissões de 215%, o que projeta a unidade de Lares da 8ª posição, em 2024, para a 3ª, em 2025".

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Figueira continua a não ter dinheiro e precisa de investimento...

A Figueira continua a não ter dinheiro e precisa de investimento. 
E não existem, ou pelo menos não têm expressão, a nível local, investidores. 
Por isso, porque cá não há empresários com dinheiro que se veja, em princípio, é uma boa política que se faça captação de investimento e que haja qualquer coisa de atractivo para que isso aconteça. 
Ressalvando, porém, que não se acolherão foragidos e que a Figueira não será transformada numa lavandaria de dinheiro sujo.
O investimento de que a Figueira precisa é de investimento reprodutivo. 
Um bom investimento é aquele em que há criação de riqueza, criação de postos de trabalho, pagamento de impostos.
Como vimos no passado recente, vender casas a estrangeiros não foi um investimento do tipo dos que são necessários para ajudar o País a elevar-se. 
Neste caso, admitindo que se está a falar de gente honesta e que o dinheiro é limpo, recuperar património edificado pode ser positivo.
Recorde-se, porém, que o "visto gold" foi uma criação que fugiu ao controlo do criador -  Paulo Portas.
Por isso, a vinda desses "novos portugueses" só interessa se o que vier não for gente obscura, com dinheiro em notas dentro de malas, que usará o "visto gold" para poder circular livremente na Europa.

As doações à Cultura para obter vistos gold dispararam quase 300% e atingiram 46 milhões de euros em 2025.
Há milionários estrangeiros que estão a comprar a autorização de residência em Portugal doando dinheiro à Cultura. Em 2025, o montante que entrou no país cresceu quase cinco vezes. São sobretudo norte-americanos e chineses que recorrem a este expediente legal que garante o chamado "passaporte dourado".

É o maior investimento desde que o programa foi criado há seis anos. Trata-se de um crescimento de 298% em comparação com 2024. No ano passado, as doações de cidadãos estrangeiros para projetos culturais ultrapassaram os 46 milhões de euros, face aos 11 milhões do ano anterior.

Os dados são do Ministério da Cultura e revelam também que, devido a estas doações, foram emitidas 211 autorizações de residência para investimento. Em 2024 tinham sido 50. Na prática, basta doar 250 mil euros ou mais para poder ter acesso a estes “vistos gold”Segundo o Diário de Notícias, os cidadãos norte-americanos são os que mais recorreram a este regime, com 120. Os chineses ocupam o segundo lugar, com 70 doações. Seguem-se os indianos, com 30 vistos. Sete britânicos também fizeram transferências para a cultura portuguesa. Os paquistaneses, cinco. Turcos e iraquianos, quatro. O pódio termina com a obtenção de visto por cidadãos do Bangladesh, Irão e Jordânia.

Foram ainda feitas 36 doações, mas sem indicação da nacionalidade. Os "vistos gold" no imobiliário acabaram em 2023, ainda no governo de António Costa, mas permaneceram na cultura e na economiaÉ possível obter "vistos gold" através da criação de empresas que criem no mínimo 10 postos de trabalho ou transferências de capital de valor igual ou superior a meio milhão de euros. A investigação científica também está abrangida.

"O projeto elaborado pelo Município da Figueira da Foz para a reabilitação da Casa da Criança Infanta D. Maria tem por finalidade voltar a instalar no imóvel um jardim-de-infância, com capacidade para 75 crianças. A obra tem um orçamento inicial de 1,2 milhões de euros, que será candidatado aos Vistos Gold da Cultura. Segundo adiantou Santana Lopes ao DIÁRIO AS BEIRAS, a autarquia também pretende candidatar a reabilitação do Paço de Maiorca e do Palácio Conselheiro Branco àquela fonte de financiamento. São dois imóveis históricos municipais situados na zona histórica da vila de Maiorca."

Imagem via Diário as Beiras (para ler melhor clicar na imagem)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quinto Molhe: depois de décadas um inverno tranquilo

A ocupação desordenada do litoral contribuiu para situações de desequilíbrios e fenómenos de erosão costeira que têm vindo a pôr em causa a segurança de pessoas e bens.

Foi o que aconteceu  a sul do porto da Figueira da Foz,  depois das obras do prolongamento do molhe norte em 400 metros,  onde nos últimos anos se agravaram os efeitos erosivos a sul do "Quinto Molhe".
Por aqui, nesta outra margem, a protecção da Orla Costeira Portuguesa foi uma necessidade de primeira ordem, desde que conheceu a luz do dia - já lá vão quase 20 anos.

Neste blogue, já em 2006, andávamos a fazer alertas para o estado em que se encontrava a duna logo a seguir ao chamado “Quinto Molhe”, a sul da Praia da Cova.
Escrevemos, então que, "por vezes, ao centrar-se a atenção sobre o acessório, perdia-se a oportunidade de resolver o essencial..."
Foi o que aconteceu.

Hoje, depois de anos e anos de alertas e preocupações sinto-me mais aliviado: as dunas a sul do quinto molhe, desfeitas pela natureza e pelos erros cometidos pelos homens, foram refeitas.
Só é vencido quem desiste de lutar por aquilo em que acredita. 

A Liberdade é isto - mesmo que a justiça não seja realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e ainda pode contribuir para salvar a Aldeia...

sábado, 4 de abril de 2026

As estratégias em curso para destruir a democracia por dentro

Pacheco Pereira, in Público, 04/04/2026

«O que se passou esta semana no Parlamento, feito onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto.

Transformar a Assembleia da República num local de provocações que obrigam a respostas é uma estratégia que ataca um dos fundamentos da democracia, o papel do Parlamento como pilar de um dos poderes legítimos do sistema democrático, tal como ele se encontra definido na Constituição. O Parlamento sempre foi um dos alvos preferenciais dos extremos políticos, quer à direita, quer à esquerda, com argumentos muitas vezes semelhantes, centrados em regalias reais ou imaginárias dos deputados, no seu número, na qualidade do seu trabalho, e nos casos de abusos de influência e corrupção que um corpo tão largo de “políticos” inevitavelmente suscita.

Embora falemos aqui de uma estratégia, ou seja, de um plano mais ou menos deliberado, “sentimental” e racional, com consciência ou sem ela, isso não significa que ele não esteja hoje muito facilitado pela própria degradação da instituição parlamentar. Mais do que qualquer outro corpo em democracia, o Parlamento tem sido vítima do fechamento dos partidos à sociedade, com escolhas cujo único critério é o poder interno, sem prestígio social, nem profissional, nem político, ou seja, gente muito pouco preparada para exercer um poder num local com a visibilidade de um Parlamento. Essa degradação facilita e muito o ataque ao Parlamento, aumentando as características de proximidade negativa que os deputados têm com o homem “comum”. Essa proximidade sempre tornou, em todo o mundo, os parlamentos mais susceptíveis à crítica, enquanto senados e governos parecem mais distantes.

Acresce que os parlamentos não são lugares olímpicos, são lugares onde a luta política, a dureza do confronto entre pessoas e grupos, se aproximam muitas vezes de excessos –​ têm vida a mais e ainda bem. Se forem lugares de salamaleques, estão mais mortos do que vivos, e reflectem –​ e, insisto, bem – aquilo que as democracias têm e que as ditaduras eliminam, a vida democrática onde o “consenso” é uma excepção. É por isso que estão lá maiorias e minorias, reflectindo as “partes” da sociedade, interesses, ideias, mundovisões, que são escolhas que se fazem em eleições. Uma das heranças malditas de 48 anos de censura foi a demonização da política e da ideologia, que em democracia são naturais porque os governos não são nem de “salvação nacional” nem tecnocracias. A democracia é feita de ruído e não de silêncio, mas os procedimentos democráticos tornam esse ruído num sentido comum, superando o caos, mas não o eliminam.

Outro factor que caracteriza a vida parlamentar em democracia é que eles são lugares onde a liberdade de expressão vai mais longe, e é especialmente protegida pela imunidade parlamentar. É por isso que a mesa da Assembleia tem nestes dias uma especial e, às vezes, difícil responsabilidade, que é distinguir entre o que é a liberdade de expressão na sua mais ampla dimensão, do que é provocação, insulto, pura má educação, violência verbal e, acima de tudo, perturbação do processo parlamentar. Ou, pior ainda, do que é ataque ao Parlamento feito dentro dele.

Estamos longe dos tempos em que a mesa da Assembleia admoestou um deputado, que se dirigiu ao primeiro-ministro de então, dizendo “o senhor está grávido do interesse nacional”. Agora, perante a turbulência deliberada, tudo é mais complicado, mas a mesa da Assembleia, com raras excepções, está longe de ajudar a uma condução dos trabalhos minimamente aceitável. Ao permitir o que não devia permitir, quer no plenário, quer fora dele, torna-se cúmplice do ataque ao Parlamento como instituição.

O que se passa hoje no plenário e nos corredores é de outra natureza. E nada tem a ver com liberdade de expressão, tem a ver com violência em múltiplas formas. Insultar as deputadas, que são, como mulheres, um dos alvos do machismo do homem branco e da multidão de forcados em potência que lá está, com mugidos de vaca e beijos obscenos, no passado teria uma resposta dada por um gesto amplo da mão e um encontro imediato do terceiro grau com uma face, gesto cujo nome me abstenho de dar.

O que se passou esta semana na comemoração do aniversário da Constituição da democracia tem um significado político que ultrapassa a dimensão parlamentar. Não me refiro às mentiras, omissões da verdade e sugestões de falsidade, a panóplia total das formas de mentir, proferidas no púlpito. Aí, ainda estamos no domínio da liberdade de expressão, mas essa liberdade tem consequências quando faz parte de uma espécie de guerra civil contra o 25 de Abril e a democracia. Feita onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto. Nessa liberdade diz-se alguma coisa que está para além do Parlamento: o que se diz é que a luta dos portugueses já não só pela liberdade conquistada em 25 de Abril, mas na construção posterior da democracia, foi uma “traição” aos portugueses de lei que gostavam de Salazar, das prisões políticas e da guerra colonial, cujo número de mortos nunca se refere como se não tivesse nada a ver connosco.

O Chega e o toureiro de novilhos do CDS comportaram-se como se fossem uma delegação de santos que descessem do paraíso “patriótico” aos infernos “democráticos” para aumentar ainda mais as penas dos malditos. Estes não gostaram e fizeram o mínimo, viraram-lhes as costas.

Que sorte que eles têm em estarmos em 2026, em terem à sua frente gente com princípios e educação, gente que já demonstrou a sua coragem, e que lhes deu uma lição, mesmo assim muito “limpa” face à sujidade que lhes atiraram.»

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Pedro Rodrigues vai apresentar o seu novo livro

O autor Figueirense Pedro Rodrigues, vai apresentar amanhã, sábado, 21 de Fevereiro, pelas 17h00, na Magenta - Associação dos Artistas pela Arte, o seu novo livro.
O autor nasceu em 1987 na Cova-Gala, Figueira da Foz.
Conhecido com o blogue "Os Filhos do Mondego".
Obras publicadas: "Alice do lado Errado do Espelho", "Amor de Pechis-Beque, " A Mar", entre outros.

Conheço a escrita do Pedro Rodrigues
Sou leitor e admirador do seu blogue Os Filhos do Mondego, desde 2010,  um blogue que foi "criado com o intuito de expor textos da sua autoria"
Presumo que li todos os livros do Pedro Rodrigues. 
Desde o início que gostei da maneira como escreve. Da maneira como se expõe. Da maneira como é capaz de contar a sua verdade... 
"Detesto as pessoas que pregam a originalidade. A falta de originalidade está aí, algures. Todas as grandes ideias já têm patente registada. Todas as outras são o reflexo delas. Gostava de ter descoberto a roda. Pensando bem: quem se lembra do inventor da roda? Que coisa banal. Todos querem ser originais. Ninguém quer ser mais uma gota no oceano. Mas, na verdade, não há oceano sem gotas. Eu não sou original. Sou uma gota. No entanto, não sou igual a ninguém." 
São poucos - ou se calhar nenhum - os escritores de quem li a obra completa - ou pelo menos tudo o que existe publicado... 
Amanhã vou comprar o livro mais recente do Pedro, para poder continuar a dizer que li tudo sobre este jovem escritor que já está publicado... 
Depois, tenho de estar atento, pois o Pedro ainda vai publicar muitos livros!...
Talento é talento. Nacional e local - talento é, apenas, talento.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Viver na Figueira é uma benção...

Uma pessoa, por mais que se tente alhear, anda cá com uma angústia tão grande, tão grande, que medida em quilómetros, dava para percorrer várias vezes Portugal, indo pelas autoestradas nacionais. 
Assim houvesse dinheiro para o combustível e para as portagens e era o que faria já hoje: ia arejar...
Que fique claro, porém: é uma benção viver  na Figueira, uma "cidade à beira-mar e à beira rio-plantada"!..

"Sempre que o assunto é a chegada ou a espera dos Reis Magos na Figueira da Foz, torna-se inevitável referir que, nesta cidade à beira-mar e à beira-rio plantada, não são três, mas seis os soberanos que, na noite do dia 5 de janeiro, visitam o Menino Jesus, naquela que é  uma tradição sustentada, há várias décadas, pela Sociedade Filarmónica Figueirense e pela Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, cada uma com o seu cortejo de Reis Magos, com diferentes pontos de partida e chegada ao mesmo local - a lapinha instalada na praça 8 de Maio."
Mas isto vai mudar: o presidente do executivo, Manuel Rascão Marques, adiantou ao DIÁRIO AS BEIRAS que, no próximo ano, serão introduzi das mudanças. “Entendemos que tínhamos de ser nós a organizar o evento, e aqui estamos com força”, vincou o autarca. E aquelas duas coletividades da cidade concordaram.
Este ano o tempo foi curto, já que o executivo entrou em funções em novembro de 2025. “Esperamos voltar a organizar a Chegada dos Reis Magos também no próximo ano, com mais tempo. Iremos tentar fazer algumas alterações, mas mantendo a tradição”, adiantou Manuel Rascão Marques. “Vamos todos, em conjunto, falar sobre isso”.
Questionado acerca das mudanças, o autarca respondeu assim: “Ainda não vou dizer nada, porque ainda estão em estudo. Vamos ver como vai correr o evento de hoje [segunda-feira]. O que nós queremos é que corra tudo bem”. Apesar do frio, uma multidão assistiu ao evento, que inclui distribuição de guloseimas pelas crianças e animação musical ao vivo. Este ano, no entanto, apenas a Dez de Agosto realizou o cortejo a cavalo, enquanto os Reis Magos da congénere Figueirense desfilaram a pé, decisão alheia à organização. Por outro lado, só a Filarmónica Figueirense levou à cena a peça de teatro “Autos pastoris”.
Chegados aqui, como diria o outro, a maior parte dos problemas que temos vêm, não do facto de o poder ser demasiado forte, mas de o poder ser demasiado fraco.
É pena que na melhor, mais enérgica e mais criativa fase da vida se opte por fazer da realidade um mero parque de diversões. 
Que saudades de Grândola, terra da fraternidade...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Tornar visível o que se perdeu no jornalismo local

Naíde Muller

"O jornalismo local não é um adorno do ecossistema mediático, é o seu alicerce mais discreto e, talvez, o mais fragilizado. A acumulação de funções, as horas prolongadas e as redações caseiras que sobrevivem precariamente, muitas vezes apenas por sentido de missão dos jornalistas, são, no jornalismo local, uma realidade ainda mais preocupante. São estes profissionais e projetos que mantêm viva a ponte entre o poder local e a vida quotidiana. Quando esses espelhos se embaciam, o que se perde não é apenas notícia: é a visibilidade pública das regras que nos governam.

O quotidiano da integridade joga-se perto de casa: na contratação municipal, nas obras públicas, nas decisões de urbanismo ou nos apoios às associações locais.

É neste território que o jornalismo de proximidade cumpre a sua função mais silenciosa: traduzir políticas em histórias compreensíveis, dar rosto às decisões e contexto às dúvidas. O jornalismo local não serve apenas para informar, é uma infraestrutura de cidadania. Permite que os cidadãos vejam reconhecidas as suas preocupações e saibam que existem olhos atentos ao que acontece na sua comunidade. Quando essa mediação desaparece, o espaço é ocupado por percepções fragmentadas, rumores e interpretações políticas que facilmente distorcem o sentido do real. As percepções moldam a forma como avaliamos a justiça e a ética pública. Em sociedades saturadas de mensagens, o que as pessoas acreditam ser verdadeiro influencia tanto a confiança nas instituições como os factos em si. Quando as histórias locais deixam de ser contadas com rigor, instala-se a sensação de que os problemas não têm solução ou de que "tudo é igual". Essa percepção de impunidade corrói silenciosamente o contrato social. A ausência de relatos comunitários de escrutínio fragiliza o sentido de pertença cívica e alimenta o afastamento das pessoas em relação à vida pública. Desembaciar o espelho não é fazer mais ruído, é devolver sentido ao que se vê."

domingo, 2 de novembro de 2025

Que esperar do ciclo autárquico 2025/2029 na Figueira?

Imagem sacada daqui

Não sei se todos  os autarcas eleitos no concelho da Figueira da Foz para o mandato que decorrerá entre 2025 e 2029 já tomaram posse, mas a maioria certamente que sim.
No início de Novembro de 2025, todos estes homens e mulheres têm pela frente um desafio difícil, mas ao mesmo tempo aliciante, para 4 anos..

Este novo ciclo autárquico tem início no meio de uma enorme incerteza. 
Em Portugal e no Mundo.
O crescimento da economia portuguesa (ver os números das últimas estatísticas divulgadas), mesmo que frágil e assente no turismo, anima,  mas os munícipes  aprenderam da pior forma possível que, se não for pelos eleitos locais, as regiões não avançam. As câmaras municipais vivem hoje num conflituoso equilibrismo entre a necessidade de continuarem a beber das receitas fiscais, esmagadoramente provenientes da venda de casas e do IMI, e a urgência de disponibilizarem habitação a preços decentes, retendo, com isso, população e potencial económico. Na primeira metade do ano, as autarquias encaixaram 11 milhões de euros por dia em impostos. Só o ganho com o IMT representa mais de metade dessa generosa receita.
Nenhum autarca terá a coragem de o confessar publicamente,  "mas a especulação imobiliária foi das melhores coisas que aconteceram às contas municipais."

Perante este cenário, o que esperar do novo ciclo autárquico na Figueira.
No nosso concelho, por maioria de razões, dede logo por termos como Presidente do Município, uma figura com larga experiência política ao mais alto nível (falta-lhe ser Presidente da República) e de indiscutível relevância nacional, esperemos  que o trabalho se concentre na procura das  soluções que, ao nível local, possam ajudar a mitigar vários problemas nacionais.
Desde logo (sem esquecer o trabalho que tem vindo a ser feito), nos sectores básicos em que assenta um estado democrático e de direito: a educação, a saúde e a habitação. 

Como escrevi neste OUTRA MARGEM em 15 de Setembro de 2006 (já lá vão mais de 19 anos), «com a “Revolução dos Cravos”, o poder local passou a ser encarado de outra maneira. As populações desejaram que, nas autarquias, o poder político se aproximasse dos cidadãos. Muitos de nós, nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974, chegamos a acreditar que passaria por aí o incremento de uma cultura política de cidadania activa, capaz de neutralizar a cultura de submissão e de autoritarismo. 
Para se ter transformado este desejo em realidade, teria sido condição inadiável, que o novo país democrático tivesse descentralizado e regionalizado o poder político e administrativo. O que não aconteceu.»
O equilíbrio financeiro é essencial na gestão de uma autarquia.  Sabemos nós e sabe o Dr. Pedro Santana Lopes, presidente eleito confortavelmente por maioria absoluta.
Na Figueira, no início deste novo ciclo autárquico, sente-se um ligeiro "cheiro a mudança". Espero que seja no melhor sentido. Bom trabalho. É na força dos autarcas que reside o poder da mudança. 
A Figueira precisa mesmo da consolidação da mudança e de um novo ciclo.
O importante é a construção da NOVA FIGUEIRA. A FIGUEIRA DE SEMPRE tem muito a melhorar. Bom trabalho, pois desse bom trabalho beneficiaremos todos.

domingo, 5 de outubro de 2025

Como é que as pessoas votam se Portugal é um deserto de notícias?

«A expressão "deserto de notícias" terá nascido no Canadá e ganhou força nos Estados Unidos quando centenas de jornais começaram a fechar a partir de 2000 e picos. Hoje, nos EUA, haverá 1300 comunidades que são desertos de notícias, ou seja, 55 milhões de pessoas.

....dos 308 municípios portugueses, 166 (54%) estavam em deserto de notícias, semideserto ou ameaçados de virem a ser um deserto. Lembro: isto inclui jornais que não são jornais verdadeiros. 

Nova lupa: 78 municípios (25,3%) não tinham nenhum órgão de comunicação social com sede nos municípios sobre os quais produziam informação e, desses, 54 (17,5%) estavam num deserto total. Isto em 2022. Como é hojе? Pior. Em 2024, havia 83 municípios em deserto de notícias total (26%), ou seja, sem um único registo de jornal (em papel ou online); e havia 74 municípios sem uma rádio local. Fiz a conta no Excel: estamos a falar de 627.045 pessoas. Este mais de meio milhão de cidadãos vive em cidades, vilas e aldeias onde não há um único jornalista que faça perguntas aos políticos no poder, à oposição ou a quem quer que seja. Cruzando os dois dados: 28 municípios portugueses não têm um único jornal ou rádio que faça cobertura jornalística do seu território. Aqui, estamos a falar de 125.309 pessoas. Sem surpresa, o Norte, o Centroeo Alentejo concentram mais de 80% dos desertos e semidesertos de notícias: 63 dos 78 municípios são desertos e semidesertos. Os distritos de Beja, Bragança, Évora, Portalegre e Vila Real têm a maior parte dos municípios com algum tipo de deserto de notícias. Em Bragança e Portalegre, mais de metade dos municípios está em deserto oп semideserto. No distrito de Portalegre, dos 15 municípios, nove (60%) estão em deserto e, em Bragança, em sete (58,3%) dos 12 municípios é o mesmo.»

domingo, 7 de setembro de 2025

As autárquicas e a normalização do Chega

Ângela Silva

«Vivi umas férias abusivamente longas cercada por cartazes de André Ventura. Dispenso sair da toca no querido mês de agosto, vivi Castro Marim e Moledo, Carrapateira e Sintra, Odeceixe e Aveiro (luxos à mão num país pequeno) e Ventura perseguiu-me. Ele tinha avisado – o Chega vai ter candidatos às autárquicas de 12 de outubro em todos os municípios do país – e como a matéria prima, pobre e escassa a nível nacional, é ainda mais pobre e escassa a nível local, Ventura tirou o coelho da cartola, clonou-se a si próprio, criou a ilusão de que o candidato às 308 câmaras é ele, e basta ir para fora cá dentro para ter uma experiência alucinante. O André está em todo o lado. Vai limpar isto tudo. E supera-se na arte de enganar o pagode.


Há nisto uma fragilidade que o político de que se fala não esconde. No seu predileto registo de vítima, tenta disfarçar a penúria de quadros, diz que “é difícil em muitas zonas do país”, porque “muitos candidatos [do partido] são atacados, ameaçados, condicionados” e “muito boa gente, infelizmente, não quer ou não sente condições de poder dar a cara" (Tadinhos!). Mas também há nisto (e há sobretudo) uma turbina que vai mudar, agora sim, os alicerces do mapa político. Começou nas legislativas, quando o Chega venceu em 60 concelhos. Mas o grande salto na implementação nacional do partido está projetado para outubro e confrontará o sistema com a morte das linhas vermelhas. Pedro Duarte, o ex-ministro que trocou o Governo pela candidatura da AD ao Porto, já perdeu os complexos - “Linhas vermelhas não fazem sentido nas autarquias”. E não tarda até que muita boa gente, da AD, do PS, e até do PCP, esteja em condições de subscrever um abaixo-assinado com esse título.

Imagine uma câmara da margem sul do Tejo ganha pelo PS ou pelo PCP, mas onde os cartazes de Ventura conseguem disputar poder e eleger vereadores. O que faz a esquerda? Diz que não fala com aqueles senhores porque não são gente decente nem confiável e arrisca deixar a autarquia bloqueada? Ou percebe que a paralisia lhe pode ser politicamente fatal e senta-se à mesa com os indecentes? No fundo, o que Montenegro está a viver a nível nacional para grande escândalo de alguma esquerda que ainda não percebeu o que aí está (claro que o segundo maior partido a nível nacional deve poder eleger juízes para o Tribunal Constitucional), é exatamente o que AD, PS e PCP vão ser desafiados a viver a nível local.

"Governar Sintra com o Chega? Não ponho limites, não tenho linhas vermelhas. Escolherei os competentes”, dizia por estes dias o candidato da AD a Sintra. Marco Almeida faz nos arredores de Lisboa o que Pedro Duarte faz no Porto e isto chama-se ceder à realidade. Em Sintra, o segundo município mais populoso do país, a vox populi não acha impossível Rita Matias ganhar. Nas freguesias da costa vicentina pejadas de imigrantes, a conversa de Ventura é manteiga no pão. No Algarve, no Alentejo e na Península de Setúbal estamos conversados, o mapa passou a azul nas legislativas e isso não se reproduz tal qual mas não desaparece em autárquicas. E no Norte, onde a direita conservadora tratou melhor de si, o combate da nova direita vai mais atrasado, mas Pedro Duarte lá saberá porque é que assinou o funeral das linhas vermelhas. O Chega, às costas de Ventura, vai ganhar câmaras mas vai, sobretudo, alargar a malha de norte a sul e o mercado a disputar é imenso. Estão em jogo 308 executivos camarários, mais de 3 mil freguesias, outras tantas assembleias municipais, num puzzle gigantesco a que concorrem milhares de cidadãos e é certinho que, mesmo com o risco de haver larápios na rede, o polvo do Chega vai crescer.

Há autarcas socialistas que viram o filme há muito tempo, quando recusaram deixar a Ventura o monopólio de temas que sabem tocar a vida das pessoas, seja o impacto social de uma imigração mal controlada, sejam os limites do Estado social. E o líder do Chega, mal ganhou as eleições nacionais com a ascensão a segundo maior partido, focou-se no combate que sabe ser decisivo: "Vamos ter bons autarcas para resolver os vossos problemas, de violência, de insegurança, de imigração e de mama do Estado, ao pé das vossas casas". Bons autarcas, nem pagamos para ver. O pessoal político de um partido não se compra no supermercado e há quatro anos foi o que se viu – o Chega elegeu 19 vereadores, que foram caindo como tordos com acusações de falta de democraticidade interna, e o partido falhou a implementação local. Mas isso foi há quatro anos, quando a maratona de Ventura ainda não tinha ultrapassado o PS no ranking nacional. Agora, já sentado à mesa dos grandes, o partido ganha poder de atração, ainda tem que recorrer sobretudo a deputados para se candidatar às eleições locais mas vai descobrindo novos artistas convidados e joga forte com a certeza de que é no poder local que as raízes se consolidam. O político nacional aparece na TV a sair de carros pretos, o político local está próximo, cruza-se na rua e no café, pára para ouvir queixas e passa a mexer cordelinhos, a gerir dinheiros, a mover influências, a ter verdadeiro poder.

Ventura chamou a este combate “o último degrau” e traduziu para quem não tenha percebido: “Antes de conseguirmos mudar este país como tanto queremos a nível nacional, nós temos de o conseguir governar a nível local”. Um partido unipessoal é uma doença ainda sem cura anunciada, não será desta que o Chega conseguirá ultrapassar a poderosa dupla que tem governado a Associação Nacional de Municípios, mas quando não se acha impossível Rita Matias morder os calcanhares à vitória em Sintra, não vale a pena ter ilusões.

PS e PCP ainda disfarçam de papo cheio, mas já não se livram do pão que o Diabo amassou. Há um processo de normalização em curso do venturismo. Seja bem-vindo ao Outono quente.»

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O poder local não pode ficar entregue aos reformados

Ora cá está uma discussão que valeria a pena ter. Contudo, sá a partir do próximo mês de Novembro. Seria uma boa altura para se falar disto a sério, uma vez que depois da realização das eleições os espíritos locais e nacionais deverão estar bem mais calmos que nos próximos 30 e tal dias.

Em 2012, sabemos o que sucedeu, porquê e para quê. Conhecemos as consequências — e as causas — da agregação de freguesias, ocorrida por imposição da troika. Para que a assistência financeira externa entregasse o dinheiro necessário, tínhamos de diminuir o número de autarquias locais. Não havendo qualquer vontade — ou coragem — de suprimir municípios, as freguesias foram as vítimas escolhidas. Se analisarmos a Lei n.º 22/2012 e o que dela resultou, percebemos bem a ligeireza que presidiu a todo o processo e, sobretudo, o desrespeito completo pelas populações residentes. Foi dada a palavra às assembleias de freguesia e às assembleias municipais, mas nada do que disseram foi tido em conta. A sentença estava previamente redigida e a execução determinada. 
Mestres como somos nas artes do engano, aproveitámos uma singularidade nacional: a existência de dois níveis de poder local. Ludibriámos a troika — e lixámos o mexilhão nacional, o mais desprotegido dos mexilhões: as pobres freguesias, nomeadamente as de “territórios de baixa densidade”.  

Impõe-se questionar: numa situação de profunda crise económica, financeira e social, deveria dar-se prioridade a reformas deste tipo? Parece, a meu ver,  que a resposta sensata, é negativa, até porque é muito incerto que a redução do número de freguesias conduza, por si só, a uma redução sensível das despesas públicas. Por esse mesmo motivo, e em coerência, também não parece ser a altura mais adequada para avançar com a regionalização, não obstante os seus méritos potenciais.
É quase surreal que, numa conjuntura como era de 2012, se viesse a forçar esta reforma, que seria sempre difícil e complexa em si mesma, quanto mais quando conduzida sob a batuta coerciva e antidemocrática dos princípios defendidos pelo ministro Relvas em nome da Troika.
No caso concrecto da Figueira colocar a questão em 18, 10 ou apenas uma freguesia, quanto a mim é um falso problema.
Quanto a mim,  a verdadeira questão é: para que servem as freguesias?.. E como servem!..
Num ponto concordo com o antigo autarca José Esteves: "a gestão das juntas de freguesia não pode ficar entregue aos reformados".
Imagem via Diário as Beiras

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Coisas que só um avô nota e recorda: a escassez de zonas verdes...

Temos o magnífico Parque das Abadias.
Mas a Figueira precisa de mais espaços verdes.
Toda a gente sabe, mas talvez só quem tem netos ganhe a noção de quanto são importantes os espaços para os avós e as crianças brincarem.
Não falo apenas de parques infantis (pelo que conheço, poucos…) mas também de espaços apropriados.
No verão temos alguns insufláveis. Mas, passada essa época, voltamos â carência de espaços onde as crianças possam brincar livremente e em segurança.
Na Figueira cidade, durante todo o ano, temos o Jardim Municipal. E no resto do território figueirense?

O concelho não é só a cidade.
Governar para o futuro, é tornar o concelho da Figueira mais verde e amigo das crianças e das famílias.
Um território precisa de adquirir e consolidar espírito comunitário e de participação cidadā. 
Também por isso, há necessidade de mais espaços verdes e lúdicos.
Quem governa uma cidade tem de olhar primeiramente para as pessoas. 
O poder local não pode prioritariamente ter como base das suas preocupações o trânsito individual automóvel e o edificado.

Em 2025, a Várzea de Tavarede, tida como a zona da Figueira com melhores terrenos agrícolas, está betonizada com uma bomba de gasolina e grandes superfícies comerciais – Pingo Doce, AKI,  LIDL e o Continente.
Recorde-se: a Várzea de Tavarede e São Julião começou a ser destruída no consulado de Aguiar de Carvalho aquando da construção das Avenidas em cima de quintas agrícolas, ao invés de construir em terrenos sem uso agrícola, mas já cozinhados, na altura, entre a CMFF e a empreiteira Lurdes Baptista para futuros loteamentos…

Nesta zona da Várzea de Tavarede e São Julião e agora também Buarcos, foi proposto o Parque Verde da Cidade na campanha politiqueira de 2009 (tal como, anteriormente, propôs Santana Lopes na primeira passagem pela Figueira).
Em vez de zona verde, cuja implementação foi nula, os governantes figueirenses, ao contrário do prometido, tiveram foi vontade efectiva e rapidez em legalizar a construção da bomba de gasolina, do Pingo Doce, do AKI LIDL e Continente, no mesmo espaço projectado para o referido Parque Verde…
Duarte Silva, recorde-se, em parceria Aprigiana também tentou betonizar esta zona com um Centro Comercial operacionalizado por um ex. futuro assessor…

Na Assembleia de 12 de Outubro de 2012, que sepultou a freguesia de São Julião (cuja acta nunca foi publicada no site da CMFF), a Freguesia de Tavarede escapou à extinção ou agregação com uma prenuncia justificativa muito “delirante” de que era uma Freguesia somente RURAL… 
Tão rural que detém as maiores urbanizações do concelho da Figueira da Foz e maior concentração de superfícies comerciais!
A saber: Intermarché; L.leclerc; FozPlaza – Jumbo. Na Várzea “tida como a zona da Figueira com melhores terrenos agrícolas” tem o Pingo Doce, AKI , o LIDL e o Continente com 40 mil m2 de impermeabilização de solos.

A revisão do PDM de 2017, feita à pressa antes das eleições desse ano, atacou os corredores verdes.
O corredor verde das Abadias foi posto em causa ao permitir a construção de todo o gaveto que vai desde a frente do Pavilhão Galamba Marques até quase à frente do Centro Escolar, betonizando o corredor das Abadias.
Esse executivo municipal pretendeu alienar o Horto Municipal a uma superfície comercial, não tendo em conta que a construção neste espaço e consequente impermeabilização do solo acarretava problemas noutros pontos da cidade.
Essa revisão do PDM não levou em conta que os terrenos a norte e nascente do Parque de Campismo já deveriam fazer parte integrante do Parque (tal como decidido em reunião de câmara de 19/11/2007). A revisão do PDM de 2017, permitiu que continuassem como zona de construção.
No Corredor Verde da Várzea de Tavarede esse PDM validou o ataque às zonas verdes ao permitir a construção em toda a lateral da Avenida Dom João Alves, reduzindo em cerca de um terço a Várzea, pondo em causa até outros projectos municipais, como são as Hortas Urbanas.
 
A proximidade de  eleições autárquicas têm mostrado o nível em que se encontra a política figueirense.
Acho que chegámos àquele ponto em que é impossível continuarmos a rir da desgraça concelhia. 
A desgraça é que já se ri de nós. 
E  fá-lo descaradamente. 
Até onde mais podemos ir mais?
De parque verde já chegámos a retail park!...
Na imagem, na foto da esquerda, vê-se uma placa que esteve mais de duas dezenas  anos naquele local. Foi lá colocada na primeira passagem do Dr. Santana Lopes como presidente de Câmara da Figueira da Foz. Em 2009, passou a parque verde "virtual" em 3 D!.. E assim continuamos.

No outono do ano da graça de 2016, começou a desenhar-se o futuro retail park figueirense. 
Aos poucos,  as superfícies comerciais começaram a ocupar o espaço.
Sublinhe-se: do último espaço que restava à Figueira para um verdadeiro parque verde.
Mas, isto são coisas de velhos: só um avô nota e recorda...