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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Isto até 2029 vai ser cá uma animação: "Figueira da Foz poderá ligar-se a Coimbra por Metrobus"

Via Campeão das Províncias

"A Figueira da Foz poderá vir a ligar-se a Coimbra através do sistema de transporte Metrobus, anunciou ontem o presidente da Câmara, Pedro Santana Lopes, após uma reunião de câmara, realizada com o ministro das Infra-estruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz.  

O autarca figueirense revelou que, no encontro com o governante, ficou garantido o desenvolvimento do projecto de ligação Metrobus entre a Figueira da Foz e Coimbra.

Segundo Pedro Santana Lopes trata-se de um projecto que deverá começar a ser trabalhado e desenvolvido desde já

Na reunião, o presidente da Câmara analisou também com o ministro a questão ferroviária, considerando, no entanto, que a electrificação e duplicação da linha para assegurar uma ligação rápida entre as duas cidades demoraria mais tempo e implicaria um investimento financeiro maior. 

De acordo com o autarca, a solução em Metrobus representa 20% do investimento necessário para a electrificação da linha ferroviária e poderá ser executada num prazo significativamente inferior. 

Pedro Santana Lopes adiantou, por isso, que será esta a solução a desenvolver, considerando que a actual ligação entre a Figueira da Foz e Coimbra não deve permanecer nas condições existentes.  

O autarca salientou ainda que o projecto não poderá ter um prazo de execução semelhante ao do Metrobus instalado no antigo ramal da Lousã e referiu que o processo deverá articular-se com o projecto da linha ferroviária de alta velocidade, que atravessará a região de Coimbra."

Nota de rodapé-

Passado que está o "querido mês de Agosto", seria a hora da silly season ter chegado ao fim na Figueira.
Com a ausência de reuniões de câmara e da assembleia municipal, politicamente falando, no passado mês, politicamente, só existiu na Figueira Pedro Santana Lopes.
Na Figueira não é só a praia que é um deserto.
Infelizmente a moda veio para ficar. Estende-se por muito lado. Também à política local.
É triste, para não dizer patético, mas a política por aqui, tirando as lutas intestinas, por lugares nas listas, é um deserto.
Sejamos claros: a indigência política é uma realidade.
Não apenas do lado do Poder, mas também do lado das Oposições.
Alguém conhece uma ideia, vinda do PS ou PSD, ou de qualquer outro Partido na Figueira, alternativa à actual gestão?
Alguns, de vez em quando, tentam colocar-se em bicos de pés, mostrando que continuam vivos, aproveitando tudo aquilo que julgam ser uma boa ocasião para aparecer.
Infelizmente, normalmente, não têm é tempo para pensar.
A questão não é fácil de resolver - e é um problema nacional.
Para se estar na política, não sendo rico, não tendo um pai ou avô rico, é muito difícil estar a sério sem "ir ao Totta".
Objectivamente, temos o que temos na Figueira, pois estão criadas as condições: existe cada vez mais uma maior funcionalização da política autárquica, com danos para o desenvolvimento do concelho cada vez mais evidentes.
Só não vê quem não quer o miserabilismo funcional do sistema político local.
Daqui a uns anos veremos o habitual: tudo à paulada no Chega, no PS e no PSD, pela procura dos lugares elegíveis nas listas, pois é isso que move os protagonistas.
Não ver isto - que é o óbvio - é de tal maneira grosseiro e redutor que dispensa mais comentários.
Fica uma garantia: em 2029, na Figueira, a silly season vai ser muito animada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Figueira, o "turismo do espectáculo", o poder local, os empreendedores e o que está por planear e realizar.....

Diário as Beiras: "em jeito de balanço, a hotelaria e a restauração figueirenses fecharam o mês de julho com resultados superiores ao habitual, devido aos concertos de Sting e Lewis Capaldi, na Praia do Relógio, e ao habitual fim de semana prolongado do festival de música eletrónica RFM SOMNII, no mesmo local
Se a meteorologia não interferir com as estatísticas, Agosto será um mês perto da lotação esgotada.
A hotelaria e a restauração da Figueira da Foz, para além do verão, têm outras duas épocas altas intercalares – a passagem de ano e a Semana Santa, a segunda com elevada quantidade de turistas espanhóis, como manda a tradição."
A Figueira está a assumir cada vez com mais clareza que o turismo é o motor da economia local.
É assim em Cabo Verde, Angola, Brasil e Portugal. E também na Figueira.
Problemas locais.
1. Será que o poder político conhece de facto, na óptica do orgão decisor, quais são os verdadeiros problemas do turismo na Figueira?
2. Será que o poder político figueirense tem capacidade para resolver os problemas que o desenvolvimento do sector acarreta? 

A Figueira foi considerada a partir do início do século 20, um paraíso,  principalmente por turistas espanhóis. Um pouco mais tarde, nos anos 50, para além da Figueira as grandes estâncias turísticas eram as praias de Cascais e Estoril. O Algarve era ainda um deserto inexplorado com poucos habitantes residentes e que tinha nas actividades ligadas ao mar a sua fonte de sustentação - pesca, indústria conserveira e exploração das salinas. No interior a agricultura e a pecuária ditavam a dimensão do escasso orçamento familiar.
Aos poucos a região começou graças às suas excelentes condições naturais e climáticas a entrar no roteiro de viajantes e turistas do mundo inteiro. Começam a surgir hóteis de luxo para a época e inicia-se um fluxo migratório do Norte do País para o Algarve com vista a estabelecerem-se na região, quer na abertura de restaurantes, quer na exploração de hóteis. 
Aos poucos a região vai percebendo que o turismo é uma actividade com retorno económico. Com base nesta percepção vai-se adaptando à actividade. 
É nesta altura que acontece o primeiro erro histórico: a região deixou desde muito cedo que fosse o turismo a ditar o desenvolvimento e não o desenvolvimento da região a potenciar a actividade turística. Aos poucos a região foi-se internacionalizando e copiando alguns dos piores exemplos em matéria de urbanismo e ordenamento do território, quintiplicando a sua capacidade hoteleira e de restauração, mas começando a diminuir os padrões de qualidade que caracterizaram a região nos anos 50. Locais inóspitos como Armação de Pera ou Quarteira ficaram transformados em autênticas urbes sem qualidade e esteticamente reprováveis. Começa a surgir o fenómeno do time-sharing e das vendas de apartamentos, a construção civil apoiada pela expansão da capacidade hoteleira torna-se na segunda actividade da região superando o comércio. É precisamente na década de 80 que se cometem os maiores atentados a sustentabilidade do meio ambiente.
Se, por um lado, a região recebia milhares de turistas, por outro lado era ponto assente que não tinha criado as infra estruturas de base consentâneas com uma actividade motor de toda uma região. Pela primeira vez, o termo sazonalidade entra nos dicionários económicos e nem mesmo a entrada de Portugal para a CEE com consequente aumento da exploração da actividade em 1986 foi capaz de o eliminar.
A região fica perto do pleno emprego no Verão, contudo o número de pedidos de subsídio de desemprego dispara no Outuno. 

Voltando à Figueira.
O tecido empresarial do concelho continua a mostrar a forte influência do turismo no desenvolvimento local. 
Contudo, ainda estarão por aproveitar algumas vantagens que a Figueira possui. 
Por isso, apostar demasiado no "turismo do espectáculo", mostra que a Figueira é uma urbe pouco planeada, desorganizada, sem sustentabilidade e com fracas noções de estratégia de desenvolvimento.
Numa altura em que até o Algarve sofre concorrência de mercados mais atraentes, por um lado, e, ao mesmo tempo, recebe visitantes que outrora preferiam países hoje marcados pelo terrorismo, é importante pensar – algo difícil – na estratégia que a Figueira quer para o futuro, mas, sobretudo nos meios que se vão utilizar para alcançar os fins desejados. 
Torna-se decisivo definir se os empresários ligados ao turismo figueirense querem continuar a apostar no turismo da forma que está a ser feita, ou se querem em sintonia com o poder político, introduzir algo inovador - Planeamento.

Muito há a disciplinar.
As autarquias, como sabemos, são os verdadeiros responsáveis pelo desordenamento do território - os orçamentos municipais são equilibrados através da cobrança do IMI (Imposto Municipal de Imóveis), daí terem sido autorizadas construções em altura, em locais onde nos respectivos PDM´s constavam áreas para moradias ou espaços verdes. 
Muito está por ser feito.
Por exemplo, definir algumas linhas do sector, nomeadamente fazer um levantamento da qualidade e da quantidade da oferta turística existente. Se a região recebe x de visitantes por ano, faz algum sentido ter uma oferta de x mais y de camas? 
Na Figueira, alguém sabe quais os sectores económicos que mais teriam a ganhar com uma colagem ao turismo? 
Se forem produzidos produtos ou serviços para o turismo, se os mesmos forem de qualidade, seriam certamente utilizados por consumidores fora da região e durante todo o ano.
E aí sim, o Multiusus teria um papel fulcral.

A Figueira tem de se convencer de uma coisa: o produto turístico que tem para vender não é único no mundo.
O sol nasce em todo o lado.
Portanto, o factor decisivo é outro: aquilo que a Figueira for capaz de oferecer, para além do sol, para atrair o turista. 
Será o "turismo do espectáculo"?
Na Figueira, em 2026, quem tem poder para intervir nestas questões, se não puder ou souber estar ao alcance dos desafios, limite-se a deixar fazer aquilo que sempre se fez: Turismo.

domingo, 12 de julho de 2026

41 anos de Freguesia de São Pedro

São Pedro passou a freguesia há 41 anos.
Porém, a luta já vinha de trás.
Em 1974, os habitantes destas povoações apresentaram uma petição ao Ministro da Administração Interna solicitando a criação de uma nova Freguesia, fazendo, assim, eco de velhas aspirações anteriores ao 25 de Abril.
A 11 de Julho de 1985, em reunião plenária, a Assembleia da República decretou a criação da actual freguesia de São Pedro. O primeiro executivo eleito honrou para sempre a data na toponímia da Aldeia, dando o nome da Avenida 12 de Julho à antiga 109, uma vez que a publicação em Diário da República aconteceu em 12 de Junho de 1985.
O primeiro executivo tomou posse em 5 de Janeiro de 1986.
Na foto sacada daqui, a partir da esquerda, está António Agostinho, Manuel Capote e Domingos Laureano - os três formaram o primeiro executivo da Junta de Freguesia de S. Pedro. Nas costas do Manuel Capote, está o José Elísio, presidente da Comissão Instaladora da então nova freguesia. Do lado direito está Carlos Lima, que foi o primeiro Presidente da Assembleia de Freguesia de S. Pedro. Esta foto é de 5 de janeiro de 1986.
Nas eleições de 1985, já com a freguesia de S. Pedro criada por desanexação de territórios de Lavos e São Julião, fiz parte da Lista Independente de S. Pedro. Por um mero acaso (ou talvez não...), eu, que sempre pertenci a listas perdedoras, em 1985, fui o número dois da LISP às primeiras eleições locais para a escolha do primeiro executivo da então novel freguesia de São Pedro. Os Independentes ganharam, na única vez em que senti "o gosto da vitória" numas eleições políticas. Como consequência, Domingos São Marcos Laureano, 1º. nome da lista, foi o primeiro Presidente da Freguesia de São Pedro. Eu, 2º. nome da lista, fui o primeiro (e primeiro) Secretário. Manuel Capote, foi o primeiro Tesoureiro. 
Esta foi a composição do primeiro executivo da Freguesia de São Pedro. Dos três, vivo, só resto eu. 


Os povoados da Cova e da Gala pertenceram, administrativamente, à freguesia de Lavos, até ao ano de 1985.
São Pedro, freguesia, desde 1985 cresceu muito. Tenho acompanhado esse crescimento.
A Cova e Gala da minha infância foi sempre a das casas térreas e pobres de madeira, cheias de aberturas nas paredes, por onde no inverno o ar gélido passava como cão por vinha vindimada .
Quando, mais tarde, as circunstâncias me permitiram viver noutros ambientes, a memória que prefiro guardar é a da Cova e Gala dos meus primeiros anos, a Cova e Gala “da gente de pouco ter e de muito sentir”, a Terra pequena e modesta nos costumes e nos horizontes da compreensão do resto do País e do mundo.
São Pedro, entretanto, transformou-se muito por fora nos últimos anos.
Em nome do chamado progresso, alterou-se o perfil e o panorama da Cova e Gala, colocaram-se toneladas de betão onde outrora existiu a madeira das casas antigas.
Gostaria de poder continuar a acreditar que, apesar de tudo, “o espírito da Cova e Gala sobrevive”, pois “é o espírito que faz eternas terras”.
Para mim, chegava que a Cova e Gala fosse uma Terra culta, moderna, limpa e organizada – e, se possível, sem perder nada da sua alma.
Como comprova a realidade em Julho de 2026, isso é desejar demais.
Hoje, 12 de Julho de 2026 passa o 41º ano da elevação a Freguesia. 
Fica o programa elaborado pela autarquia local para comemorar o evento.
Para ler melhor clicar em cima da imagem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Mondego não mente. Nós é que não quisemos ouvir

"A cheia de fevereiro de 2026 não foi uma surpresa para quem conhece o rio. Foi a consequência previsível de décadas de ilusões, de má manutenção e de construções onde nunca deveriam ter sido feitas. Está na hora de dizer o que a ciência sabe há muito.

Pedro Proença Cunha

 Prof. Catedrático de Geologia Sedimentar da Univ. de Coimbra e investigador no MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) Expresso

A 11 de fevereiro de 2026, no Baixo Mondego, o dique marginal direito do canal principal do Mondego, cedeu por baixo da autoestrada A1. O tabuleiro da mais importante autoestrada do país abateu horas depois. A água alastrou pelos campos. Portugal ficou em choque. Mas há uma pergunta que poucos pensaram naqueles dias de lama e sirenes: roturas de diques e alagamento das planícies de inundação, já tinham acontecido antes; e voltarão a acontecer.

Há 827 anos que a documentação escrita sobre as cheias do Mondego, nos avisa. Já em 1199 — quando uma cheia catastrófica inundou a Baixa de Coimbra "em menos de uma hora" e alagou o Mosteiro de Santa Cruz — que este rio demonstra, com brutal regularidade, o que é capaz de fazer. As crónicas medievais, os registos eclesiásticos, as gazetas do século XIX, os dados horários do século XX: tudo diz o mesmo. E nós continuámos, inconscientemente e imprudentemente, a edificar nas planícies de inundação.

Escrevo este artigo com base no relatório técnico-científico que elaborei a pedido da Agência Portuguesa do Ambiente, no seguimento da solicitação da Exma. ministra do Ambiente e Energia. Tive 100 dias para o elaborar e acesso a dados que, anteriormente, nunca tinham sido sistematizados e interpretados desta forma. O que encontrei confirmou os piores receios e também revelou erros que não podem voltar a ser tolerados.

O escasso valor estatístico que tem causado colossais prejuízos

Durante décadas, o caudal considerado "de cheia centenária, em regime natural" no Mondego — aquele que serviu de referência para o Projeto Hidráulico do Mondego, os Planos Diretores Municipais (PDMs) e para os Planos de Proteção Civil (PPCs) dos municípios com territórios na planície aluvial — foi de 3660 m³/s. Foi obtido a partir de 50 anos (1915-1965) de registos em Coimbra. Depois, com base em 63-80 anos, foi estimado em 4100 a 4500 m³/s. Para um rio com grande variabilidade interanual de caudal, isto equivale a calcular a probabilidade de um caudal com muito fraco valor estatístico.

Com base na análise de 805 fontes documentais ao longo de 827 anos — das crónicas de Santa Cruz às séries hidrométricas modernas —, obtive uma estimativa de provável caudal centenário de ~4500 a 5200 m³/s (respetivamente, com base nas distribuições pelo Empírico ou pelo Gumbel). Note-se que apenas as cheias ordinárias a catastróficas foram documentadas antes de 1915.

Um caudal desse nível, provocaria o colapso da obra hidráulica do Baixo Mondego e o alagamento total das planícies de inundação, incluindo as baixas de Coimbra e Sta. Clara. É isso que está em risco.

A análise histórica é ainda mais dramática: de 1199 a 2026, ocorreram em média cerca de 5 cheias por século com caudal >3000 m³/s, e 3 cheias com caudal >4000 m³/s (caudais naturais). Oitenta e três por cento das grandes cheias acontecem entre dezembro e fevereiro. O período crítico é, exatamente, o inverno. Nada disto é novidade para a ciência. Mas parece continuar a ser desconhecido por quem licenciou e por quem continua a licenciar bairros nas planícies de inundação.

As barragens fizeram o que podiam. Mas não fizeram milagres

O sistema de regularização hidráulica do Mondego — as barragens da Aguieira (1981), Raiva (1983) e Fronhas (1987), o Canal Principal do Mondego com diques marginais e o Açude de Coimbra — é uma obra de engenharia notável, com um investimento de 516 milhões de euros a preços atuais. Durante 19 anos, de 1981 a 2000, não ocorreram eventos de elevada precipitação e as barragens conseguiram encaixar afluências de pequenas cheias.

Este aparente sucesso criou a ilusão de que o problema estava definitivamente resolvido.

Através da gestão hídrica assegurada pelas barragens, o projeto prometia que um caudal atenuado de 2000 m³/s (equivalente a um natural de 3000 m³/s) em Coimbra seria um evento raro, decorrente de uma precipitação extraordinária. Mas, na realidade, de 1987 a 2026, esse valor foi atingido quatro vezes em 39 anos: em 2001, em 2016, em 2019, em 2026. Em alguns anos, a gestão de caudal pelas barragens podia ter sido melhor. Mas, principalmente, houve uma subestimação do rio.

A A1 foi construída em cima do dique. Literalmente

A causa principal da rotura de fevereiro de 2026 não foi a chuva, não foram as barragens, não foi o rio. Foi uma decisão de engenharia tomada em 1991: uma linha de pilares do tabuleiro da A1 foi implantada no dique direito do Canal Principal do Mondego, construído dez anos antes, em 1981.

Os pilares penetraram em profundidade no aterro arenoso do dique, criando transmissão de vibração, diferenças mecânicas, zonas de fragilidade e facilitação da percolação; além disso, a queda dos tubos de escoamento de água pluvial da A1 faz-se diretamente sobre a areia do dique. Com um caudal extremo, a pressão hidráulica lateral fez o resto. A consequência negativa da opção de 1991 foi potenciada pela falta de uma fiscalização moderna.

Em imagem de satélite de outubro de 2025 — quatro meses antes da rotura —, era já visível um abatimento significativo no coroamento desse dique. O descarregador em sifão imediatamente a montante da A1, que deveria ter aliviado parte do caudal para os campos agrícolas adjacentes, tal como desde 2021, praticamente não funcionou.

Há ainda uma causa secundária que merece atenção. Entre 2017 e 2018, fez-se deposição de areia proveniente do desassoreamento do Açude de Coimbra diretamente no leito do Canal, a montante e a jusante, exatamente, do cruzamento com a A1. Este excesso local de areia elevou artificialmente o nível do leito, o que subiu localmente o nível de água, aumentou a pressão lateral no dique, galgou-o, rompeu-o e levou a que imensa areia ficasse a cobrir os campos agrícolas vizinhos (com 1 m de espessura). A ciência não adivinha. Mas quando os dados estão disponíveis, alguém tem de lê-los, percebê-los e atuar em conformidade.

Esta coincidência perturbante pode ter uma explicação geológica: identificámos neste local um lineamento tectónico, com direção NNW-SSE, alinhado com o raro vale retilíneo ao longo da ribeira de Frades. O traçado desta provável falha tectónica ativa atravessa o canal principal do Mondego muito junto à A1. Uma eventual movimentação desta falha contribuiria para a fragilização local de ambos os diques. É uma hipótese remota que precisa de investigação pormenorizada — mas que não pode ser ignorada dada a surpreendente e, aparentemente inexplicável, posição das duas roturas.

A barragem da Aguieira e o sismo que ninguém ainda quis discutir

A falha de Vérin-Penacova é uma das maiores falhas sismicamente ativas de Portugal continental. Tem muito mais de 800 km de extensão total e situa-se a apenas 6 km da barragem da Aguieira. Um sismo de magnitude 7,1 nesta falha — com período de retorno estimado de 14300 anos portanto, improvável, mas não impossível — provocaria, no percentil 95%, acelerações entre 0,6g e 0,8g. A barragem foi, aparentemente, projetada para suportar 0,4g.

O muito improvável colapso (natural ou antrópico) da Aguieira geraria uma gigantesca e rápida onda de água, que chegaria a Coimbra 1 h depois. O alagamento atingiria, provavelmente, 8 m de altura de água nas planícies de inundação, alagando-as completamente — incluindo as baixas de Coimbra e de Santa Clara, bem como todo o Baixo Mondego.

A probabilidade é muitíssimo baixa, atendendo à robustez da estrutura e cálculos feitos. Contudo, as diferenças no comportamento mecânico nos encostos da barragem ao maciço de rochas metamórficas pouco resistentes poderá gerar rotura. As consequências de uma rotura seriam devastadoras.

É recomendável fazer a reavaliação do risco sísmico acompanhada de eventual manutenção da barragem. Não porque o colapso seja provável, mas porque a prudência assim o exige dado que ainda não conseguimos prever sismos. Note-se que as consequências deste raríssimo evento não estão consideradas nas Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI, PDMs e PPCs dos municípios do Mondego.

Girabolhos: uma resposta política a um problema de gestão

Dias depois da cheia do passado fevereiro, o Governo anunciou o relançamento da barragem de Girabolhos como solução para o problema das inundações a jusante. A intenção é compreensível. Mas a análise de fundamentação técnica e científica obriga a uma muito grande prudência na decisão política.

A sub-bacia que Girabolhos controlaria representa apenas 15% da bacia do Mondego. Em fevereiro de 2026, o volume de precipitação na sua área de influência teria enchido completamente a albufeira em apenas sete dias — e depois continuaria a transbordar. O rio Ceira, que trouxe mais de 1000 m³/s nas cheias de 2019 e 2026, entra no Mondego a junto a Coimbra, completamente fora do sistema de controlo.

Girabolhos não resolve, nem muito parcialmente, as cheias extraordinárias ou catastróficas. Poderia constituir uma nova fonte de energia renovável e complementar a gestão de pequenas ou moderadas cheias, bem como de secas. Mas os impactos ambientais no rio Mondego seriam muito altos. Entre eles encontram-se a diminuição da qualidade e da oxigenação da água, desaparecimento de habitats essenciais às espécies aquáticas, perda de conectividade longitudinal essencial para espécies migradoras, perda de vegetação ripária essencial à manutenção de uma temperatura da água mais baixa no verão e limitação dos blooms de cianobactérias, entre outros.

O Estudo de Impacto Ambiental existente é de 2016 — e está, no mínimo, desatualizado. Num momento de crise emocional não se tomam as melhores decisões de engenharia.

O que é preciso fazer — e o que não pode continuar a acontecer

Há medidas urgentes que não exigem estudos, nem licitações, nem anos de espera. Exigem rigor técnico-científico na fundamentação e a consequente vontade e decisão política:

Primeiro: Proibição imediata de implantação de novas edificações nas planícies de inundação. Não é uma medida impopular: é a única medida racional. Se não houver edifícios nas planícies de inundação, não há risco fluvial. É tão simples quanto isso.

Segundo: Gestão dinâmica das cotas de espera nas barragens da Aguieira e Fronhas, com base em previsões meteorológicas a 15 dias — disponíveis e fiáveis, hoje, com tecnologia existente. Durante dezembro, janeiro e fevereiro, as albufeiras devem estar o mais vazias possível.

Terceiro: Manutenção preventiva e regular dos diques do canal principal do Mondego. Desassoreamento da albufeira do Açude de 3 em 3 anos, mas dependente de cada montante extraído e transferido, bem como tendo em conta a época de reprodução das espécies piscícolas e outras. Remoção da vegetação arbórea nos diques. Inspeção geotécnica anual. Não é glamoroso. Não dá títulos nos jornais. Mas evita que um dique que, segundo a moderna engenharia hidráulica foi construído para ser “não galgável e intransponível”, rompa numa tarde de fevereiro.

Quarto: O caudal natural correspondente a uma recorrência de 100 anos agora determinado é muito superior ao que foi estimado no projeto da Obra Hidráulica do Mondego, bem como o correspondente caudal amortecido pelas barragens. Assim, é necessária uma revisão urgente das Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI. Consequentemente, também dos PDMs e dos PPCs dos municípios do Mondego.

Quinto: Criação de uma entidade de Gestão Integrada da Bacia do Mondego, com: competências reais, amplas e claras; recursos humanos qualificados e em número adequado; recursos financeiros necessários aos objetivos a atingir; e ser usado um modelo de cogestão participada. A gestão hídrica de uma bacia hidrográfica não pode continuar a ser feita em silos — a APA de um lado, a EDP de outro, os municípios de um terceiro, os agricultores a reclamar e a Proteção Civil a apagar fogos, bem como as populações ribeirinhas em desespero…

A lição do Mondego é muito antiga

Em Coimbra ocorreram muitas cheias catastróficas, nomeadamente: 1788 (4800 m³/s); 1331 (4500 m³/s); 1764 e 1843 e 1948 (4200 m³/s); 1411, 1739 e 1821 (4100 m³/s). Mesmo após a construção da gigantesca barragem da Aguieira (1981) ocorreram grandes cheias: em 2001, cedeu um dique junto à A1 e ocorreram mais 15 roturas em diques; em 2019 ocorreram 2 roturas em diques; em 2026, cedeu o dique do outro lado, exatamente, na mesma seção transversal onde a A1 abateu.

De cada vez que o Mondego transbordava, dizia-se que tinha sido excecional. Que não voltaria a acontecer. E era feito mais um pormenorizado relatório a listar as eventuais causas. Mas, depois, voltava a ocorrer mais um grande caudal de cheia, que o projeto hidráulico preconizava não poder vir a acontecer!

E de cada vez que o dizíamos, construíamos mais um pouco nas planícies de inundação, aprovávamos mais um PDM otimista, mantínhamos mais uns anos os diques sem manutenção adequada ou mesmo uma Câmara Municipal chegava a suspender o seu PDM para poder edificar extensivamente, nas planícies de inundação!

A ciência, nomeadamente, os especialistas de investigação científica, têm a obrigação de dizer a verdade, mesmo quando é incómoda. A verdade é esta: o Mondego não está a comportar-se de forma anómala. Está a comportar-se exatamente como sempre se comportou. O que mudou foi a quantidade de casas, estradas e infraestruturas que pusemos no caminho da sua água.

O Ordenamento do Território fundamenta-se nos dados científicos recolhidos e estudados, aplicando as regras da prevenção face à salvaguarda de pessoas e bens.

Portugal vai voltar a ter grandes cheias no Mondego. Nos últimos 102 anos a frequência de cheias em regime natural de 3000 m³/s (equivalente a 2000 m³/s com controlo por barragens) é de 20 anos (5 cheias por 100 anos, valor igual nos últimos 827 anos). A questão não é se o rio vai transbordar.

A questão é se da próxima vez haverá mesmo muita gente nas planícies de inundação a perder a sua casa, o seu carro, todos os seus outros bens ou a sua vida... Isso não depende do rio. Depende de nós."

24 anos de CAE

Se recuarmos à segunda década dos anos 80 do século passado, verificamos que durante cerca de 10 anos (1986 a 1995) houve em Portugal um acentuado  investimento em recintos culturais, por parte das autarquias  locais. 
A Figueira, como tem sido habitual, apanhou também esta onda com alguns anos de atraso. O Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz abriu em 2002. 
Comemorou no passado dia 1 de Junho 24 anos.
Em 1999, com Santana Lopes como presidente, a Câmara Municipal da Figueira da Foz adquiriu a Quinta da Olaias, um espaço junto ao edifício do Museu e Biblioteca e ao Parque das Abadias, por 1 500 000 €. O objectivo era construir um centro de artes e espectáculos. Santana Lopes, sabia que  a Figueira da Foz precisava de um espaço capaz de receber com dignidade grandes produções, grandes espectáculos e concertos. 
A primeira “pedra” foi lançada a 5 de Novembro de 2000. 
Todavia, o processo que levou à construção do CAE não foi pacífico, por questões políticas e financeiras. A aprovação do CAE, prevista no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio, foi suspensa durante um mês, por intervenção directa do Secretário de Estado do Planeamento. Porém, Santana Lopes nunca desistiu. A sua determinação na defesa da candidatura da construção do CAE, levou o Governo a criar um Programa de Valorização Territorial, uma novidade do III QCA, para poder enquadrar nesse programa o investimento do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.
O processo de construção do CAE, depois de submetido ao III Quadro Comunitário de Apoio, lá se candidatou a fundos comunitários. O projecto foi aprovado. O investimento foi de 10 milhões de euros, comparticipado em 50% pelos fundos comunitários. Os outros 50 %, vieram da Administração Central (25 %) e do Município figueirense(25%).
Foi assim, depois de mais algumas peripécias que aconteceram pelo meio, que foi possível inaugurar o CAE no dia 1 de Junho de 2002, já com o  falecido eng. Duarte Silva como presidente da autarquia figueirense.
No início, a gestão do CAE esteve a cargo da Câmara Municipal. Entretanto, também para tornear  dificuldades que tinham ver com a dependência do orçamento camarário, a autarquia figueirense passou o CAE para a gestão da Figueira Grande Turismo EM. 
Depois da extinção da FGT voltou para a tutela da CMFF, que é a quem compete a manutenção deste equipamento cultural de forma a permitir que o seu funcionamento decorra com todas as condições de segurança.
Um equipamento cultural, como o CAE, assume papel insubstituível na promoção do desenvolvimento do nosso concelho. A cultura é fundamental no desenvolvimento  local.
Passados todos estes anos, a oferta de serviços culturais proporcionada pelo CAE, continua a contribuir para melhorar a qualidade de vida dos figueirenses e assume-se como um elemento de reforço da competitividade do concelho da Figueira, ao  promover a sua imagem e a sua visibilidade no exterior?


segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Central de Lares com aumento de 215% de poluição"

A preocupante conjuntura geopolítica actual, aliada à necessidade de enfrentar a tripla crise planetária, alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição, responsabiliza todos, Estado Central, Poder Local e sociedade civil, para agir em conjunto, em prol das gerações actuais e futuras.

Via Diário as Beiras: "Ranking anual elaborado pela associação Zero aponta um aumento de emissões de 215%, o que projeta a unidade de Lares da 8ª posição, em 2024, para a 3ª, em 2025".

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Figueira continua a não ter dinheiro e precisa de investimento...

A Figueira continua a não ter dinheiro e precisa de investimento. 
E não existem, ou pelo menos não têm expressão, a nível local, investidores. 
Por isso, porque cá não há empresários com dinheiro que se veja, em princípio, é uma boa política que se faça captação de investimento e que haja qualquer coisa de atractivo para que isso aconteça. 
Ressalvando, porém, que não se acolherão foragidos e que a Figueira não será transformada numa lavandaria de dinheiro sujo.
O investimento de que a Figueira precisa é de investimento reprodutivo. 
Um bom investimento é aquele em que há criação de riqueza, criação de postos de trabalho, pagamento de impostos.
Como vimos no passado recente, vender casas a estrangeiros não foi um investimento do tipo dos que são necessários para ajudar o País a elevar-se. 
Neste caso, admitindo que se está a falar de gente honesta e que o dinheiro é limpo, recuperar património edificado pode ser positivo.
Recorde-se, porém, que o "visto gold" foi uma criação que fugiu ao controlo do criador -  Paulo Portas.
Por isso, a vinda desses "novos portugueses" só interessa se o que vier não for gente obscura, com dinheiro em notas dentro de malas, que usará o "visto gold" para poder circular livremente na Europa.

As doações à Cultura para obter vistos gold dispararam quase 300% e atingiram 46 milhões de euros em 2025.
Há milionários estrangeiros que estão a comprar a autorização de residência em Portugal doando dinheiro à Cultura. Em 2025, o montante que entrou no país cresceu quase cinco vezes. São sobretudo norte-americanos e chineses que recorrem a este expediente legal que garante o chamado "passaporte dourado".

É o maior investimento desde que o programa foi criado há seis anos. Trata-se de um crescimento de 298% em comparação com 2024. No ano passado, as doações de cidadãos estrangeiros para projetos culturais ultrapassaram os 46 milhões de euros, face aos 11 milhões do ano anterior.

Os dados são do Ministério da Cultura e revelam também que, devido a estas doações, foram emitidas 211 autorizações de residência para investimento. Em 2024 tinham sido 50. Na prática, basta doar 250 mil euros ou mais para poder ter acesso a estes “vistos gold”Segundo o Diário de Notícias, os cidadãos norte-americanos são os que mais recorreram a este regime, com 120. Os chineses ocupam o segundo lugar, com 70 doações. Seguem-se os indianos, com 30 vistos. Sete britânicos também fizeram transferências para a cultura portuguesa. Os paquistaneses, cinco. Turcos e iraquianos, quatro. O pódio termina com a obtenção de visto por cidadãos do Bangladesh, Irão e Jordânia.

Foram ainda feitas 36 doações, mas sem indicação da nacionalidade. Os "vistos gold" no imobiliário acabaram em 2023, ainda no governo de António Costa, mas permaneceram na cultura e na economiaÉ possível obter "vistos gold" através da criação de empresas que criem no mínimo 10 postos de trabalho ou transferências de capital de valor igual ou superior a meio milhão de euros. A investigação científica também está abrangida.

"O projeto elaborado pelo Município da Figueira da Foz para a reabilitação da Casa da Criança Infanta D. Maria tem por finalidade voltar a instalar no imóvel um jardim-de-infância, com capacidade para 75 crianças. A obra tem um orçamento inicial de 1,2 milhões de euros, que será candidatado aos Vistos Gold da Cultura. Segundo adiantou Santana Lopes ao DIÁRIO AS BEIRAS, a autarquia também pretende candidatar a reabilitação do Paço de Maiorca e do Palácio Conselheiro Branco àquela fonte de financiamento. São dois imóveis históricos municipais situados na zona histórica da vila de Maiorca."

Imagem via Diário as Beiras (para ler melhor clicar na imagem)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quinto Molhe: depois de décadas um inverno tranquilo

A ocupação desordenada do litoral contribuiu para situações de desequilíbrios e fenómenos de erosão costeira que têm vindo a pôr em causa a segurança de pessoas e bens.

Foi o que aconteceu  a sul do porto da Figueira da Foz,  depois das obras do prolongamento do molhe norte em 400 metros,  onde nos últimos anos se agravaram os efeitos erosivos a sul do "Quinto Molhe".
Por aqui, nesta outra margem, a protecção da Orla Costeira Portuguesa foi uma necessidade de primeira ordem, desde que conheceu a luz do dia - já lá vão quase 20 anos.

Neste blogue, já em 2006, andávamos a fazer alertas para o estado em que se encontrava a duna logo a seguir ao chamado “Quinto Molhe”, a sul da Praia da Cova.
Escrevemos, então que, "por vezes, ao centrar-se a atenção sobre o acessório, perdia-se a oportunidade de resolver o essencial..."
Foi o que aconteceu.

Hoje, depois de anos e anos de alertas e preocupações sinto-me mais aliviado: as dunas a sul do quinto molhe, desfeitas pela natureza e pelos erros cometidos pelos homens, foram refeitas.
Só é vencido quem desiste de lutar por aquilo em que acredita. 

A Liberdade é isto - mesmo que a justiça não seja realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e ainda pode contribuir para salvar a Aldeia...

sábado, 4 de abril de 2026

As estratégias em curso para destruir a democracia por dentro

Pacheco Pereira, in Público, 04/04/2026

«O que se passou esta semana no Parlamento, feito onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto.

Transformar a Assembleia da República num local de provocações que obrigam a respostas é uma estratégia que ataca um dos fundamentos da democracia, o papel do Parlamento como pilar de um dos poderes legítimos do sistema democrático, tal como ele se encontra definido na Constituição. O Parlamento sempre foi um dos alvos preferenciais dos extremos políticos, quer à direita, quer à esquerda, com argumentos muitas vezes semelhantes, centrados em regalias reais ou imaginárias dos deputados, no seu número, na qualidade do seu trabalho, e nos casos de abusos de influência e corrupção que um corpo tão largo de “políticos” inevitavelmente suscita.

Embora falemos aqui de uma estratégia, ou seja, de um plano mais ou menos deliberado, “sentimental” e racional, com consciência ou sem ela, isso não significa que ele não esteja hoje muito facilitado pela própria degradação da instituição parlamentar. Mais do que qualquer outro corpo em democracia, o Parlamento tem sido vítima do fechamento dos partidos à sociedade, com escolhas cujo único critério é o poder interno, sem prestígio social, nem profissional, nem político, ou seja, gente muito pouco preparada para exercer um poder num local com a visibilidade de um Parlamento. Essa degradação facilita e muito o ataque ao Parlamento, aumentando as características de proximidade negativa que os deputados têm com o homem “comum”. Essa proximidade sempre tornou, em todo o mundo, os parlamentos mais susceptíveis à crítica, enquanto senados e governos parecem mais distantes.

Acresce que os parlamentos não são lugares olímpicos, são lugares onde a luta política, a dureza do confronto entre pessoas e grupos, se aproximam muitas vezes de excessos –​ têm vida a mais e ainda bem. Se forem lugares de salamaleques, estão mais mortos do que vivos, e reflectem –​ e, insisto, bem – aquilo que as democracias têm e que as ditaduras eliminam, a vida democrática onde o “consenso” é uma excepção. É por isso que estão lá maiorias e minorias, reflectindo as “partes” da sociedade, interesses, ideias, mundovisões, que são escolhas que se fazem em eleições. Uma das heranças malditas de 48 anos de censura foi a demonização da política e da ideologia, que em democracia são naturais porque os governos não são nem de “salvação nacional” nem tecnocracias. A democracia é feita de ruído e não de silêncio, mas os procedimentos democráticos tornam esse ruído num sentido comum, superando o caos, mas não o eliminam.

Outro factor que caracteriza a vida parlamentar em democracia é que eles são lugares onde a liberdade de expressão vai mais longe, e é especialmente protegida pela imunidade parlamentar. É por isso que a mesa da Assembleia tem nestes dias uma especial e, às vezes, difícil responsabilidade, que é distinguir entre o que é a liberdade de expressão na sua mais ampla dimensão, do que é provocação, insulto, pura má educação, violência verbal e, acima de tudo, perturbação do processo parlamentar. Ou, pior ainda, do que é ataque ao Parlamento feito dentro dele.

Estamos longe dos tempos em que a mesa da Assembleia admoestou um deputado, que se dirigiu ao primeiro-ministro de então, dizendo “o senhor está grávido do interesse nacional”. Agora, perante a turbulência deliberada, tudo é mais complicado, mas a mesa da Assembleia, com raras excepções, está longe de ajudar a uma condução dos trabalhos minimamente aceitável. Ao permitir o que não devia permitir, quer no plenário, quer fora dele, torna-se cúmplice do ataque ao Parlamento como instituição.

O que se passa hoje no plenário e nos corredores é de outra natureza. E nada tem a ver com liberdade de expressão, tem a ver com violência em múltiplas formas. Insultar as deputadas, que são, como mulheres, um dos alvos do machismo do homem branco e da multidão de forcados em potência que lá está, com mugidos de vaca e beijos obscenos, no passado teria uma resposta dada por um gesto amplo da mão e um encontro imediato do terceiro grau com uma face, gesto cujo nome me abstenho de dar.

O que se passou esta semana na comemoração do aniversário da Constituição da democracia tem um significado político que ultrapassa a dimensão parlamentar. Não me refiro às mentiras, omissões da verdade e sugestões de falsidade, a panóplia total das formas de mentir, proferidas no púlpito. Aí, ainda estamos no domínio da liberdade de expressão, mas essa liberdade tem consequências quando faz parte de uma espécie de guerra civil contra o 25 de Abril e a democracia. Feita onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto. Nessa liberdade diz-se alguma coisa que está para além do Parlamento: o que se diz é que a luta dos portugueses já não só pela liberdade conquistada em 25 de Abril, mas na construção posterior da democracia, foi uma “traição” aos portugueses de lei que gostavam de Salazar, das prisões políticas e da guerra colonial, cujo número de mortos nunca se refere como se não tivesse nada a ver connosco.

O Chega e o toureiro de novilhos do CDS comportaram-se como se fossem uma delegação de santos que descessem do paraíso “patriótico” aos infernos “democráticos” para aumentar ainda mais as penas dos malditos. Estes não gostaram e fizeram o mínimo, viraram-lhes as costas.

Que sorte que eles têm em estarmos em 2026, em terem à sua frente gente com princípios e educação, gente que já demonstrou a sua coragem, e que lhes deu uma lição, mesmo assim muito “limpa” face à sujidade que lhes atiraram.»

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Pedro Rodrigues vai apresentar o seu novo livro

O autor Figueirense Pedro Rodrigues, vai apresentar amanhã, sábado, 21 de Fevereiro, pelas 17h00, na Magenta - Associação dos Artistas pela Arte, o seu novo livro.
O autor nasceu em 1987 na Cova-Gala, Figueira da Foz.
Conhecido com o blogue "Os Filhos do Mondego".
Obras publicadas: "Alice do lado Errado do Espelho", "Amor de Pechis-Beque, " A Mar", entre outros.

Conheço a escrita do Pedro Rodrigues
Sou leitor e admirador do seu blogue Os Filhos do Mondego, desde 2010,  um blogue que foi "criado com o intuito de expor textos da sua autoria"
Presumo que li todos os livros do Pedro Rodrigues. 
Desde o início que gostei da maneira como escreve. Da maneira como se expõe. Da maneira como é capaz de contar a sua verdade... 
"Detesto as pessoas que pregam a originalidade. A falta de originalidade está aí, algures. Todas as grandes ideias já têm patente registada. Todas as outras são o reflexo delas. Gostava de ter descoberto a roda. Pensando bem: quem se lembra do inventor da roda? Que coisa banal. Todos querem ser originais. Ninguém quer ser mais uma gota no oceano. Mas, na verdade, não há oceano sem gotas. Eu não sou original. Sou uma gota. No entanto, não sou igual a ninguém." 
São poucos - ou se calhar nenhum - os escritores de quem li a obra completa - ou pelo menos tudo o que existe publicado... 
Amanhã vou comprar o livro mais recente do Pedro, para poder continuar a dizer que li tudo sobre este jovem escritor que já está publicado... 
Depois, tenho de estar atento, pois o Pedro ainda vai publicar muitos livros!...
Talento é talento. Nacional e local - talento é, apenas, talento.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Viver na Figueira é uma benção...

Uma pessoa, por mais que se tente alhear, anda cá com uma angústia tão grande, tão grande, que medida em quilómetros, dava para percorrer várias vezes Portugal, indo pelas autoestradas nacionais. 
Assim houvesse dinheiro para o combustível e para as portagens e era o que faria já hoje: ia arejar...
Que fique claro, porém: é uma benção viver  na Figueira, uma "cidade à beira-mar e à beira rio-plantada"!..

"Sempre que o assunto é a chegada ou a espera dos Reis Magos na Figueira da Foz, torna-se inevitável referir que, nesta cidade à beira-mar e à beira-rio plantada, não são três, mas seis os soberanos que, na noite do dia 5 de janeiro, visitam o Menino Jesus, naquela que é  uma tradição sustentada, há várias décadas, pela Sociedade Filarmónica Figueirense e pela Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, cada uma com o seu cortejo de Reis Magos, com diferentes pontos de partida e chegada ao mesmo local - a lapinha instalada na praça 8 de Maio."
Mas isto vai mudar: o presidente do executivo, Manuel Rascão Marques, adiantou ao DIÁRIO AS BEIRAS que, no próximo ano, serão introduzi das mudanças. “Entendemos que tínhamos de ser nós a organizar o evento, e aqui estamos com força”, vincou o autarca. E aquelas duas coletividades da cidade concordaram.
Este ano o tempo foi curto, já que o executivo entrou em funções em novembro de 2025. “Esperamos voltar a organizar a Chegada dos Reis Magos também no próximo ano, com mais tempo. Iremos tentar fazer algumas alterações, mas mantendo a tradição”, adiantou Manuel Rascão Marques. “Vamos todos, em conjunto, falar sobre isso”.
Questionado acerca das mudanças, o autarca respondeu assim: “Ainda não vou dizer nada, porque ainda estão em estudo. Vamos ver como vai correr o evento de hoje [segunda-feira]. O que nós queremos é que corra tudo bem”. Apesar do frio, uma multidão assistiu ao evento, que inclui distribuição de guloseimas pelas crianças e animação musical ao vivo. Este ano, no entanto, apenas a Dez de Agosto realizou o cortejo a cavalo, enquanto os Reis Magos da congénere Figueirense desfilaram a pé, decisão alheia à organização. Por outro lado, só a Filarmónica Figueirense levou à cena a peça de teatro “Autos pastoris”.
Chegados aqui, como diria o outro, a maior parte dos problemas que temos vêm, não do facto de o poder ser demasiado forte, mas de o poder ser demasiado fraco.
É pena que na melhor, mais enérgica e mais criativa fase da vida se opte por fazer da realidade um mero parque de diversões. 
Que saudades de Grândola, terra da fraternidade...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Tornar visível o que se perdeu no jornalismo local

Naíde Muller

"O jornalismo local não é um adorno do ecossistema mediático, é o seu alicerce mais discreto e, talvez, o mais fragilizado. A acumulação de funções, as horas prolongadas e as redações caseiras que sobrevivem precariamente, muitas vezes apenas por sentido de missão dos jornalistas, são, no jornalismo local, uma realidade ainda mais preocupante. São estes profissionais e projetos que mantêm viva a ponte entre o poder local e a vida quotidiana. Quando esses espelhos se embaciam, o que se perde não é apenas notícia: é a visibilidade pública das regras que nos governam.

O quotidiano da integridade joga-se perto de casa: na contratação municipal, nas obras públicas, nas decisões de urbanismo ou nos apoios às associações locais.

É neste território que o jornalismo de proximidade cumpre a sua função mais silenciosa: traduzir políticas em histórias compreensíveis, dar rosto às decisões e contexto às dúvidas. O jornalismo local não serve apenas para informar, é uma infraestrutura de cidadania. Permite que os cidadãos vejam reconhecidas as suas preocupações e saibam que existem olhos atentos ao que acontece na sua comunidade. Quando essa mediação desaparece, o espaço é ocupado por percepções fragmentadas, rumores e interpretações políticas que facilmente distorcem o sentido do real. As percepções moldam a forma como avaliamos a justiça e a ética pública. Em sociedades saturadas de mensagens, o que as pessoas acreditam ser verdadeiro influencia tanto a confiança nas instituições como os factos em si. Quando as histórias locais deixam de ser contadas com rigor, instala-se a sensação de que os problemas não têm solução ou de que "tudo é igual". Essa percepção de impunidade corrói silenciosamente o contrato social. A ausência de relatos comunitários de escrutínio fragiliza o sentido de pertença cívica e alimenta o afastamento das pessoas em relação à vida pública. Desembaciar o espelho não é fazer mais ruído, é devolver sentido ao que se vê."

domingo, 2 de novembro de 2025

Que esperar do ciclo autárquico 2025/2029 na Figueira?

Imagem sacada daqui

Não sei se todos  os autarcas eleitos no concelho da Figueira da Foz para o mandato que decorrerá entre 2025 e 2029 já tomaram posse, mas a maioria certamente que sim.
No início de Novembro de 2025, todos estes homens e mulheres têm pela frente um desafio difícil, mas ao mesmo tempo aliciante, para 4 anos..

Este novo ciclo autárquico tem início no meio de uma enorme incerteza. 
Em Portugal e no Mundo.
O crescimento da economia portuguesa (ver os números das últimas estatísticas divulgadas), mesmo que frágil e assente no turismo, anima,  mas os munícipes  aprenderam da pior forma possível que, se não for pelos eleitos locais, as regiões não avançam. As câmaras municipais vivem hoje num conflituoso equilibrismo entre a necessidade de continuarem a beber das receitas fiscais, esmagadoramente provenientes da venda de casas e do IMI, e a urgência de disponibilizarem habitação a preços decentes, retendo, com isso, população e potencial económico. Na primeira metade do ano, as autarquias encaixaram 11 milhões de euros por dia em impostos. Só o ganho com o IMT representa mais de metade dessa generosa receita.
Nenhum autarca terá a coragem de o confessar publicamente,  "mas a especulação imobiliária foi das melhores coisas que aconteceram às contas municipais."

Perante este cenário, o que esperar do novo ciclo autárquico na Figueira.
No nosso concelho, por maioria de razões, dede logo por termos como Presidente do Município, uma figura com larga experiência política ao mais alto nível (falta-lhe ser Presidente da República) e de indiscutível relevância nacional, esperemos  que o trabalho se concentre na procura das  soluções que, ao nível local, possam ajudar a mitigar vários problemas nacionais.
Desde logo (sem esquecer o trabalho que tem vindo a ser feito), nos sectores básicos em que assenta um estado democrático e de direito: a educação, a saúde e a habitação. 

Como escrevi neste OUTRA MARGEM em 15 de Setembro de 2006 (já lá vão mais de 19 anos), «com a “Revolução dos Cravos”, o poder local passou a ser encarado de outra maneira. As populações desejaram que, nas autarquias, o poder político se aproximasse dos cidadãos. Muitos de nós, nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974, chegamos a acreditar que passaria por aí o incremento de uma cultura política de cidadania activa, capaz de neutralizar a cultura de submissão e de autoritarismo. 
Para se ter transformado este desejo em realidade, teria sido condição inadiável, que o novo país democrático tivesse descentralizado e regionalizado o poder político e administrativo. O que não aconteceu.»
O equilíbrio financeiro é essencial na gestão de uma autarquia.  Sabemos nós e sabe o Dr. Pedro Santana Lopes, presidente eleito confortavelmente por maioria absoluta.
Na Figueira, no início deste novo ciclo autárquico, sente-se um ligeiro "cheiro a mudança". Espero que seja no melhor sentido. Bom trabalho. É na força dos autarcas que reside o poder da mudança. 
A Figueira precisa mesmo da consolidação da mudança e de um novo ciclo.
O importante é a construção da NOVA FIGUEIRA. A FIGUEIRA DE SEMPRE tem muito a melhorar. Bom trabalho, pois desse bom trabalho beneficiaremos todos.