“Nos anos 60, Portugal não era pacato. Era obediente. Como são obedientes
todos os povos que vivem em ditadura. E quem não o era, fugindo à norma
nacional, era vigiado, perseguido, preso, torturado e até morto.
Portugal não era apenas trabalhador. Era escravo. O trabalho infantil era
uma banalidade, os horários, as férias e os fins de semana um luxo
inalcançável. E, no entanto, apesar de se trabalhar para lá da decência humana,
em 1961 a nossa produtividade era, como recorda Raquel
Varela , muitíssimo inferior à de hoje.
Portugal não era poupado. Era miserável. Morria-se cedo, comia-se mal, não
se tinha nem saúde nem educação. Era analfabeto, doente, subdesenvolvido. Quem
sabe como era a vida da esmagadora maioria dos portugueses, sobretudo fora das
grandes cidades, sabe que é um tempo que não pode deixar saudades. As despesas
sociais correspondiam a 4,4% do total do PIB, enquanto no resto da Europa
estavam acima dos 10%. O indicadores de saúde eram de um País do terceiro
mundo. O número de analfabetos era muitas vezes superior ao dos licenciados.
Portugal não era prudente. Era obstinado no seu conservadorismo. Ao ponto
de julgar que poderia continuar a viver como se o mundo estivesse na mesma. O
que o levou, entre tantas outras asneiras que nos deixaram para trás, a desperdiçar
e destruir milhares vidas e a gastar, em média, metade do orçamento de Estado
numa guerra que inevitavelmente acabaria como acabaram todos as lutas pela
independência em África: com uma derrota militar ou política do colonizador.
Depois veio o 25 de Abril. O País "criou autarquias e dinamização
cultural, comprou frigoríficos e televisões, fez planeamento económico, exigiu
escolas e hospitais". Enfim, resume César das Neves, "Portugal
gastou". Sim, de 1973 a 1999 as despesas sociais passaram de 8,7 por cento
para 26,1 por cento e os impostos de 18,6 por cento do PIB para 34 por cento. E
numa e noutra coisa apenas nos aproximámos do resto da Europa. Porque, sem
isso, cinco milhões de portugueses continuariam a não ter cobertura médica, a
mortalidade infantil continuaria na estratosfera e o analfabetismo continuaria
a condenar o País ao atraso. Sim, compraram-se frigoríficos e televisões,
coisas banais em qualquer país europeu. Sim, exigiram-se e construíram-se
escolas e hospitais. Não foi falta de ponderação. Foi o que fez Portugal dar um
dos mais rápidos e extraordinários saltos sociais e económicos na Europa, que
qualquer estrangeiro que tenha cá vindo antes e depois notava com espanto e
admiração. Foi o que nos permitiu consolidar a democracia e entrar na CEE. Foi
das coisas mais ponderadas e inteligentes que fizemos.”
Como estou a ficar velho...
Cá está, possivelmente, a razão de ser de toda a minha actual indignação pelos dias lamacentos que, neste momento, estamos a viver em
Portugal.
“Se é imprudente tudo o que, como povo, exigimos
e fizemos nos últimos 39 anos, talvez seja disso mesmo que estamos a precisar.
Talvez a ideia de que o que conquistámos nunca estaria em risco nos tenha
tornado demasiado pacatos. Ao ponto de aceitarmos, sem uma pinga de indignação,
que nos digam que devíamos ser como "os nossos avós": resignados,
obedientes e pobres.”