sábado, 4 de abril de 2026

Ensinar a reparar, a quem já se sabe ver

Via Diário as Beiras

"José Saramago pode deixar de ser um escritor de leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário em Portugal. Esta é uma das propostas de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, em consulta pública pelo Ministério da Educação até ao dia 28 de abril. Se a proposta for aprovada, a partir do ano letivo 2027/28, as escolas deixam de ser obrigadas a escolher entre o “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, como leitura obrigatória do 12.º ano, passando a poder optar por outras obras, de outros escritores. 
Segundo os mentores da ideia, o objetivo é ter maior flexibilidade na escolha de obras literárias, aumentando a diversidade de autores e de temas estudados nas escolas. O Ministro da Educação garante que a proposta resulta de uma “avaliação absolutamente técnica” e, em audição na Assembleia da República, afirmou não achar a alteração “problemática”: “acho que José Saramago não tem de ser obrigatório. Aliás, olhando para outros autores portugueses, consigo identificar vários que poderiam estar lá como opcionais”. 
Não me parece que esteja em risco a presença de Saramago nos currículos escolares. Estamos a falar não apenas do único português Nobel da Literatura mas, também, do único Nobel de Literatura de Língua Portuguesa. Acredito – quero acreditar, porque seria muito mau sinal se assim não fosse – que a maioria dos docentes vai continuar a optar por estudar Saramago. Mas há aqui outras coisas importantes em risco e esta proposta parece-me ser um sintoma disso mesmo. Saramago é um escritor exigente? Muito. É difícil de ler? Também. Já sabemos, pouca pontuação. É incómodo? É. Questionou dogmas e escreveu livros que obrigam o leitor a pensar, que rejeitam uma visão acrítica do mundo, que nos incomodam, desafiam e interpelam. Escreveu sobre o que somos – individual e coletivamente – os poderes, a justiça social, a Igreja, a cegueira moral, a morte, a identidade, a memória. As suas obras são complexas e, por isso mesmo, não têm enquadramento num ensino asséptico, leve e fresco, feito de testes de escolha múltipla e poucas perguntas de desenvolvimento, que poupam os meninos ao desconforto do pensamento e das ideias. 
Numa altura em que o Governo pondera – e bem – criar novos requisitos para admissão aos cursos superiores, com exigência de níveis mínimos de numeracia e Inglês, era importante assumirmos a urgência de resolver, antes de qualquer outra coisa, a iliteracia generalizada de muitos dos alunos que chegam hoje à universidade – e até dos que de lá saem, já com formação superior. Educar para a Literatura é educar para o pensamento, e é por isso que esta é uma questão fundamental. Eu também consigo identificar vários autores que podiam estar na lista de opcionais e até acho que o caminho é por aí: apresentar bons escritores aos alunos – quantos mais melhor – reforça o papel da Escola de deixar pistas para a descoberta do mundo (e, sim, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho, é um belíssimo livro, que todos deviam ler). Mas discordamos quanto à obrigatoriedade de ler Saramago. José Saramago é um dos nossos escritores fundamentais – e, sim, obrigatórios. Por vários motivos mas, acima de tudo, porque nos abre os olhos para o que não pode ser ignorado e, tantas vezes, ignoramos. Ou como nos diz o autor, no “Ensaio sobre a Cegueira”: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”. Num mundo cada vez mais cego, a Escola não se pode demitir de um dos seus papéis obrigatórios: ensinar a ver a quem ainda só olha; Ensinar a reparar, a quem já se sabe ver."

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