quarta-feira, 8 de abril de 2026

O troco é sagrado

"O tempo é comunista. Todo o ser humano tem as mesmas 24 horas. O pior é que não é o próprio a poder gastá-las como quer. São os ricos que dispõem delas. Obrigam-no a trabalhar mais horas por cada hora em que pode fazer o que quiser. E obrigam-no a cumprir os horários que convêm a quem lhe comprou o trabalho. 
O pior é que, mesmo depois da reforma que nunca mais chega, é muito difícil largar o hábito de entregar o nosso tempo a quem manda em nós porque nos paga para isso. 
Continuamos a ter pressa. A pressa é uma doença. Que seja uma doença voluntária é ainda menos saudável - e mais triste. 
Com o tempo - isto é, depois de muitos anos a deixarmo-nos governar pela pressa dos outros-, percebe-se que não é o trabalho que dignifica ou dá cabo de nós. 
O que nos dignifica é podermos escolher quando trabalhamos, por muito modesto que seja o trabalho ou o rendimento. 
O que nos salva é sermos nós a decidir como é que gastamos a fortuna que herdámos: ter 24 horas por dia, desde o dia em que nascemos até ao dia em que morremos. A vida não é curta: os outros é que a encurtam. 
A guerra justa é tentar reclamar cada minuto que nos é roubado. O dinheiro é uma distracção. Esconde o tempo. É o câmbio tempo/dinheiro que interessa. Temos de ser ricos com o tempo que nos sobra: o troco. 
E a propósito: os sindicatos têm razão."

Sem comentários: