terça-feira, 6 de outubro de 2026

Mar da Figueira vai ser utilizado como cobaia...

Foto: Celso Silva/Digitart
Universidade de Évora identifica local ao largo da Figueira da Foz para armazenar CO2
«A Universidade de Évora (UÉvora) identificou um local no offshore nacional, ao largo da Figueira da Foz, onde poderá ser testado o armazenamento geológico de dióxido de carbono (CO2), anunciou hoje a academia.
Num comunicado enviado à agência Lusa, a universidade alentejana explicou que o reservatório offshore, com “capacidade de armazenamento superior a 93 milhões de toneladas” de CO2, se localiza a cerca de 22 quilómetros ao largo da Figueira da Foz.
“O reservatório situa-se na Bacia Lusitaniana, em formações rochosas” situadas a “centenas de metros abaixo do fundo marinho”, indicou.
Os estudos foram desenvolvidos pela UÉvora no âmbito do projeto “PilotSTRATEGY”, desenvolvido em colaboração com a GALP e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
“Temos identificado e estudado um local concreto onde poderá ser realizado um projeto-piloto de armazenamento geológico de CO2 em Portugal”, disse Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da UÉvora, citado no comunicado.
O também investigador do CREATE e responsável pelo projeto referiu que, a concretizar-se a iniciativa, o CO2 será injetado a cerca de 1.200 metros abaixo do nível do mar, num reservatório de arenito, “uma rocha porosa com bastante permeabilidade”, ficando “retido nos poros entre os grãos, atualmente preenchidos por água de elevada salinidade”.
“O objetivo imediato não é armazenar dezenas de milhões de toneladas, mas efetuar um projeto-piloto para testar o comportamento do reservatório no terreno”, realçou a academia.
O projeto liderado por Júlio Carneiro prevê uma campanha de prospeção sísmica em três dimensões (3D) em 2027–2028, a perfuração de um poço de injeção em 2030 e uma injeção experimental de “menos de 100 mil toneladas” de CO2 apenas para fins científicos durante cerca de 12 meses, em 2031–2032, seguida de monitorização, pelo menos até 2034.
O calendário, observou a UÉvora, depende da “disponibilidade de financiamento, das autorizações necessárias e dos resultados obtidos em cada etapa”.
A investigação contempla igualmente que o dióxido de carbono a injetar seja capturado na cimenteira de Souselas, concelho de Coimbra, transportado por comboio em contentores criogénicos até ao Porto da Figueira da Foz e, daí, por navio até ao local de armazenamento.
“Esta solução permite testar a cadeia com um mínimo de infraestrutura permanente, sem necessitar de uma plataforma offshore ou gasodutos”, explicou Júlio Carneiro.
O custo estimado para o projeto-piloto “ronda os 98 milhões de euros, num intervalo entre 90 e 120 milhões, não incluindo a unidade de captura de CO2 na fábrica de Souselas”.
Em paralelo, acrescentou a instituição, o projeto CTS (Carbon Transport and Storage) “estudou diferentes possibilidades para criar uma futura infraestrutura nacional de transporte e armazenamento de CO2, incluindo redes de gasodutos e soluções combinando gasodutos com transporte marítimo”.
“Os setores do cimento e da cal surgem entre os principais potenciais utilizadores”, disse a academia alentejana, notando que “a tecnologia poderá também ter interesse para a indústria da pasta e papel, nomeadamente no caso do CO2 de origem biogénica, cuja captura e armazenamento permanente poderá, em determinadas condições, ser considerado como remoção de dióxido de carbono da atmosfera”.
Portugal, afirmou Júlio Carneiro, “assumiu o objetivo de neutralidade climática em 2045 e há setores industriais para os quais as soluções disponíveis são limitadas”.
Por isso, defendeu, “é essencial continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO2”, para se saber em que condições a tecnologia “pode contribuir para esse objetivo” e para “manter a atividade dos setores de difícil descarbonização”.»

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