quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Os velhos despejados

Foto: Diário as Beiras 

Texto Luís Osório

"Helena e João Paulo tiveram uma vida. Natais de família, Subsídio de Férias e até ambições. Hoje, têm uma velha carrinha de mercadorias onde dormem estacionados no Parque do Escravote. Em Eiras, transformado num dormitório de Coimbra, celebra-se uma Feira Medieval, mas entre churros, porcos no espeto e cavaleiros de brincar, dois seres humanos lavam a roupa no fontanário e tomam banho com um regador.

Leio a notícia e vejo a fotografia publicada no Diário das Beiras. A sua história é igual a centenas de outras. Há quem boceje e passe à próxima notícia – quase todos os dias nos falam das casas e da impossibilidade de pagar rendas, dos despejos de velhos obrigados a gastar os seus últimos dias na rua, a dormir em estações de comboio ou em carrinhas de transporte, quando têm a fortuna de guardar uma última chave que abre uma última fechadura.

Estes foram despejados e não têm como encontrar uma solução. Os dois estão unidos por uma relação que não foi perfeita e por uma infeção respiratória que, ainda assim, os uniu na desgraça.

Tantos partidos e não há um único que apresente uma proposta utópica, porventura irrealizável, certamente ingénua, mas que possa ajudar a discutir o problema dos nossos mais velhos, dos mais desamparados, dos que se rebentaram a trabalhar e já não podem mais, dos que não podemos deixar que vivam os seus dias do fim a estender a mão por não poderem pagar uma renda?

Será assim tão estratosférico pensar numa solução? Encontrar uma aldeia desabitada, fazer nascer um lugar de amparo, mobilizar o país?"

1 comentário:

CeterisParibus disse...

Há quem tenha dinheiro para criar aldeias inteiras e ajudar uma enormidade de essoas.
Não o fazem, porque não querem, e têm esse direito.
Mas são os mesmos que invocam Nossa Senhora a cada esquina, ena esperança de que a mesma lhes proteja a fortuna enquanto cá, e lhes reserve um bom lugar quando lá.
Pois, pois.