Entre o filho, os fantasmas que conhece “pelo nome próprio” e a política, Chicão aprendeu a duvidar. Pelo caminho, reviu convicções e sentiu-se acolhido onde “não esperava ter esta partilha de amor”.
A mancha é quase
imperceptível, mas o olho
de um fotógrafo está treinado para os detalhes.
Ao enquadrar o modelo
daquela manhã, o
fotojornalista do PÚBLICO Nuno
Ferreira Santos fixa-se no ombro
de Francisco Rodrigues dos Santos,
que se justifica como qualquer pai
de uma criança de três anos: “Deve
ter sido o Zé Pedro, quando o fui
levar à escola." Referir o nome do
filho nos primeiros segundos de
uma interacção não podia ser mais
revelador da longa conversa que
iria ter pouco depois. Afinal, o
nascimento de um filho pode
mudar a visão de um homem sobre
o mundo e, para Francisco
Rodrigues dos Santos, mais
conhecido por Chicão, o José Pedro foi mesmo um ponto de
viragem.
É um lugar-comum, mas eles existem por isso mesmo. Naquele 18 de Dezembro de 2022, partilhou a notícia publicamente. "Ser pai é descobrir que ainda é possível mudar o mundo," escreveu, num post no Instagram. Passado o cliché de "amor irredutível e inalienável", Francisco realça que, ao descobrir a "empatia incondicional" que surge com os estados de alma, pensamentos e vontades de um filho, também chegou a outro lugar: o questionamento.
"Vivemos num tempo muito maniqueísta, altamente dogmático, de certezas absolutas, e o filho ensina-nos a colocarmo-nos em causa e a aprendermos a cultivar a dúvida", explica.
- Hoje não tens certezas absolutas?
- A ciência avança quando procuramos o cisne negro. Há um consenso, quase canónico, de que todos os cisnes são brancos, mas só evoluímos quando o pomos em causa. Tenho convicções que norteiam a minha vida. Se estou disponível para as questionar? Todos os dias. Mas não sou relativista...
- Mas não estavas disponível?
- Estava menos do que estou hojе.
É um lugar-comum, mas eles existem por isso mesmo. Naquele 18 de Dezembro de 2022, partilhou a notícia publicamente. "Ser pai é descobrir que ainda é possível mudar o mundo," escreveu, num post no Instagram. Passado o cliché de "amor irredutível e inalienável", Francisco realça que, ao descobrir a "empatia incondicional" que surge com os estados de alma, pensamentos e vontades de um filho, também chegou a outro lugar: o questionamento.
"Vivemos num tempo muito maniqueísta, altamente dogmático, de certezas absolutas, e o filho ensina-nos a colocarmo-nos em causa e a aprendermos a cultivar a dúvida", explica.
- Hoje não tens certezas absolutas?
- A ciência avança quando procuramos o cisne negro. Há um consenso, quase canónico, de que todos os cisnes são brancos, mas só evoluímos quando o pomos em causa. Tenho convicções que norteiam a minha vida. Se estou disponível para as questionar? Todos os dias. Mas não sou relativista...
- Mas não estavas disponível?
- Estava menos do que estou hojе.
O
sofrimento que diz ter sentido em
algumas fases da vida também o
impeliu a querer saber mais e a lidar
com ele. Apesar disso, assume que não faz terapia - "já devia ter feito"
-, mas quer fazer, e entoa uma
música de Pedro Abrunhosa:
"Quem me leva aos meus
fantasmas?"
- Houve alturas na vida que eu não
queria que me levassem aos meus
fantasmas. Guardei-os numa
caixinha, sei quem eles são,
conheço-os pelo nome próprio.
Reconheço que eles continuam a
pairar sobre a minha vida, mas não
me quero confrontar com eles.
-Tens medo...
-...do que eles me possam dizer.
A propósito do caminho que está
a fazer, cita José Saramago - "é
preciso sair da ilha para ver a ilha"
-, e conta que o ter-se "distanciado
das bolhas partidárias e das
trincheiras políticas", parar e
respirar, permitiu-lhe "ter uma
visão autocrítica" sobre os seus
valores.
Confirmou uns, firmou
outros e diz que percebeu que o
facto de assentar o pensamento em
certos princípios não significa que
"chegue às mesmas conclusões".
A “descida à Terra” de Francisco Rodrigues dos Santos, é um trabalho de Filipe Santa-Bárbara (texto) e Nuno Ferreira dos Santos (fotografia), que pode ser lido na íntegra na edição de ontem do jornal Público.

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