segunda-feira, 6 de abril de 2026

A “descida à Terra” de Francisco Rodrigues dos Santos

Entre o filho, os fantasmas que conhece “pelo nome próprio” e a política, Chicão aprendeu a duvidar. Pelo caminho, reviu convicções e sentiu-se acolhido onde “não esperava ter esta partilha de amor”.
A mancha é quase imperceptível, mas o olho de um fotógrafo está treinado para os detalhes. Ao enquadrar o modelo daquela manhã, o fotojornalista do PÚBLICO Nuno Ferreira Santos fixa-se no ombro de Francisco Rodrigues dos Santos, que se justifica como qualquer pai de uma criança de três anos: “Deve ter sido o Zé Pedro, quando o fui levar à escola." Referir o nome do filho nos primeiros segundos de uma interacção não podia ser mais revelador da longa conversa que iria ter pouco depois. Afinal, o nascimento de um filho pode mudar a visão de um homem sobre o mundo e, para Francisco Rodrigues dos Santos, mais conhecido por Chicão, o José Pedro foi mesmo um ponto de viragem. 
É um lugar-comum, mas eles existem por isso mesmo. Naquele 18 de Dezembro de 2022, partilhou a notícia publicamente. "Ser pai é descobrir que ainda é possível mudar o mundo," escreveu, num post no Instagram. Passado o cliché de "amor irredutível e  inalienável", Francisco realça que, ao descobrir a "empatia incondicional" que surge com os estados de alma, pensamentos e vontades de um filho, também chegou a outro lugar: o questionamento.
"Vivemos num tempo muito maniqueísta, altamente dogmático, de certezas absolutas, e o filho ensina-nos a colocarmo-nos em causa e a aprendermos a cultivar a dúvida", explica. 
- Hoje não tens certezas absolutas? 
- A ciência avança quando procuramos o cisne negro. Há um consenso, quase canónico, de que todos os cisnes são brancos, mas só evoluímos quando o pomos em causa. Tenho convicções que norteiam a minha vida. Se estou disponível para as questionar? Todos os dias. Mas não sou relativista... 
- Mas não estavas disponível? 
- Estava menos do que estou hojе.

O sofrimento que diz ter sentido em algumas fases da vida também o impeliu a querer saber mais e a lidar com ele. Apesar disso, assume que não faz terapia - "já devia ter feito" -, mas quer fazer, e entoa uma música de Pedro Abrunhosa: "Quem me leva aos meus fantasmas?" 
- Houve alturas na vida que eu não queria que me levassem aos meus fantasmas. Guardei-os numa caixinha, sei quem eles são, conheço-os pelo nome próprio. Reconheço que eles continuam a pairar sobre a minha vida, mas não me quero confrontar com eles
-Tens medo... 
-...do que eles me possam dizer
A propósito do caminho que está a fazer, cita José Saramago - "é preciso sair da ilha para ver a ilha" -, e conta que o ter-se "distanciado das bolhas partidárias e das trincheiras políticas", parar e respirar, permitiu-lhe "ter uma visão autocrítica" sobre os seus valores. 
Confirmou uns, firmou outros e diz que percebeu que o facto de assentar o pensamento em certos princípios não significa que "chegue às mesmas conclusões".

A “descida à Terra” de Francisco Rodrigues dos Santos, é um trabalho de Filipe Santa-Bárbara (texto) e Nuno Ferreira dos Santos (fotografia), que pode ser lido na íntegra na edição de ontem do jornal Público.

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