sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O quarto das criadas e a fábrica de fazer pobres

Via Revista Visão

"No tempo em que eu vim ao mundo, deixou de ser normal ter criadas. E isso, por muita nostalgia que alguns privilegiados pudessem ter de outros tempos, foi uma grande conquista da liberdade e do progresso. Significava que o trabalho tinha ficado mais caro. 

Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” 

E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos. No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. 

Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos, vinda de uma família de muitos filhos, que chegava a andar à esmola para comer. Um dia, contou-me ela, na casa da família que serviu, estava tão cansada que adormeceu. “Ali, depois de arrumar a loiça”, disse, apontando para o louceiro que, agora na minha cabeça, passou a ser o símbolo da exploração dessa infância. Ao meu lado, estava a minha filha então com 7 anos, e é escusado dizer o aperto no peito que senti. 

É também nisto que penso quando digo que são precisos muitos pobres para fazer um rico. Quanto mais frágeis forem os que estão na base da sociedade, mais poder consegue exercer quem está no topo. Só a existência de muita miséria consegue assegurar um trabalho de servidão próximo da escravatura. É o desespero que garante a submissão. E o desespero é tanto maior quanto menos redes de apoio se tem, quanto mais sozinhos estamos, quantos mais desprotegidos nos sentimos. Foi isso que deu origem ao Estado social. Dar direitos e apoios foi a forma de a elite económica garantir a sua própria sobrevivência.",

Nos últimos 50 anos, deixou de ser normal ter criadas em casa porque felizmente as meninas e mulheres deste país ganharam outras escolhas. Continua a haver trabalho doméstico, mas o preço e as condições laborais são outros. E não é só uma questão de oferta e procura, tem que ver com o contexto social desta força de trabalho, que acedeu à escolarização e teve apoios sociais, e com as leis que foram feitas para a proteger. 

E essa é uma parte da história que os gurus da autoajuda financeira não gostam de contar. Para os crentes na meritocracia, cada empreendedor individual fica mais livre e “alcança melhor o seu potencial” (como eles dizem) sem regulação, sem leis, sem coletivo. Eles dizem também “sem Estado”, mas aproveito aqui para lembrar que na I Guerra Mundial, quando em países como o Reino Unido e Itália o Estado passou a controlar e a gerir quase todas as indústrias, esse Estado atuou para esmagar direitos e salários de trabalhadores, numa altura em que a escassez de mão de obra teria feito disparar o custo do trabalho. 

Por isso, é bom lembrar que não se pode confundir Estado com interesse público, a menos que existam condições políticas de pressão que forcem esse Estado a agir na defesa do bem comum. No rescaldo das duas Grandes Guerras, uma parte importante do mundo ocidental teve de lidar com classes trabalhadoras com capacidade de luta que era preciso apaziguar."

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